COPA, ELEIÇÕES E TRAGÉDIA URBANA

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texto de zédejesusbarrêto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Além de quaisquer estudos, acima de todas as recomendações técnicas e políticas, as intempéries nos apontam urgências.

Fora as prioridades humanas maiores – educação, saúde e segurança públicas , sempre repisadas a cada eleição e muito pouco contempladas, as chuvas deste outono nos sinalizam para grandes projetos/obras emergenciais de modernização de três setores básicos, infraestruturais, sem os quais a possibilidade de realização de uma Copa do Mundo de futebol no país e, mais especificamente, na Bahia, está seriamente comprometida.

São eles: habitação, energia elétrica, telecomunicações e transporte de massa/vias públicas urbanas.

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Moradia

A questão habitacional urbana está exposta e precisa ser encarada sem demagogias. A tragédia desses dias no Rio de Janeiro, e que se repete, a cada ano, a cada tempestade em nossas desordenadas e despreparadas metrópoles, nos põe nus diante do mundo, mesmo mal cobertos por números de crescimento econômico que nos ufanam.

Favelas e invasões em morros e encostas, casebres de sopapo e palafitas à beira de córregos e baixadas sem saneamento significam miséria, marginalidade, doenças, catástrofes e mortes prematuras.

A situação de Salvador, nessa área, é de calamidade. A cidade de um milhão de habitantes em 1970 está com mais de três milhões em 2010. Houve um inchaço descontrolado, sem nenhum planejamento. Não há, a esta altura, como remediar de imediato a insensatez das invasões, muitas delas estimuladas e/ou acobertadas pela politicagem de plantão. Sabemos. Nossos bairros periféricos, todos, são resultado de invasões.

Mas não se pode continuar fechando os olhos a cada novo barraco que se dependura, a cada puxadinho que se levanta perigosamente, a cada riacho que se entope com mais uma viela em cima… Porque, antes de mais nada, é preciso preservar vidas.

Se a cada dia, a cada versão nova de PDDU o poder público e privado acha áreas e espaço para erguer novos espigões, conjuntos, condomínios, projetos… Como não há lugar para se expandir a cidade em bairros populares mais decentes, com morada digna, arruamentos, esgotos, segurança e possibilidade de transporte público próximo e barato? Cajazeiras é exemplo.

Não há dignidade sem moradia.

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Eletricidade

A cada sereno, a cada ventania falta luz em meia banda de Salvador, na quase totalidade dos bairros populares da capital e de todos os municípios vizinhos que integram o que deveria ser a Região Metropolitana. Ponto.

Isso acontece porque o nosso sistema é antiquado, a nossa fiação é velha, boa parte dos postes está corroída, nos bairros se vê um emaranhado de fios e gatos, galhos de árvores antigas arriando sobre a fiação, sobrecargas, mal dimensionamento das linhas e ligações… enfim, um sistema elétrico de terceiro mundo, mesmo.

Mas as tarifas cobradas estão num nível de primeiríssimo mundo e as propagandas nos vendem esse engodo. No entanto, a qualquer apagão de fim de semana, desses a que até já nos acostumamos, de tão rotineiros – por causa de um vento, de um trovão, de uma colisão de carro num poste, de um gato mal feito, de uma gambiarra esticada para o churrasco… Pois, tente ligar para os telefones oferecidos pela Coelba e ouça o que acontece. Sempre. As linhas estão ocupadas, congestionadas, tudo travado e os serviços de manutenção, terceirizados, são de péssima qualidade, ineficazes, pra não dizer incompetentes. Até quando?

Há algum projeto de modernização em vista?

Não, não estamos falando nessa baboseira de ‘banho de luz’, não é isso. É energia para todos de verdade, segura, sem estouro de canelas e pipocos de transformadores, dia sim/dia não, sem gatos, com presteza de atendimento, ligações estáveis. Um serviço dentro dos parâmetros das taxas que nós, consumidores, pagamos. A conta chega em dia.

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Comunicações

O mesmo se pode falar de nossos telefones, de nossas ‘bandas largas’ tão estreitas, das taxas altíssimas que pagamos e dos péssimos serviços de que dispomos. Há milhares e milhares de baianos, da Região Metropolitana de Salvador, sem telefone em casa desde as chuvas passadas, porque a fiação foi danificada e até agora as empresas não deram conta de restaurar os transtornos. Alô Telemar!

Com os ventos mais fortes, em algumas localidades, quase toda hora cai a linha e derruba-se a comunicação via internet, seja qual for a empresa provedora. São as antenas, os satélites, as interferências, a tecnologia falsificada, o quê? Mas pagamos a internet mais cara do mundo, a telefonia mais cara do planeta, sabia?

Domingo passado, as emissoras de rádio baianas ficaram sem linha e sem comunicação, sem retorno até instantes antes de começar a transmissão dos jogos de Bahia e Vitória, ali em Feira e em Camaçari. Quando o jogo é mais distante… então, é um suplício, um sufoco para que se consiga uma transmissão de qualidade, sem interrupções. E os locutores ficam bradando contra a nossa telefonia nos microfones.

Vai ser assim na Copa 2014?

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Transportes

E tem a questão do transporte urbano, tão badalada, tão mais do que urgente numa cidade que está travada de tantos carros particulares, de milhares de motocicletas atarantadas, de avenidas congestionadas, de falta de cumprimento das leis básicas do trânsito, de nenhum ordenamento, sem vias exclusivas, de um sonho pesadelo de metrô que não vai aos trilhos, de trens que descarrilam em bitolas dos anos 50 do século passado, de uma via náutica que não nada, coisa nenhuma…

E tudo se agrava a cada manhã/tarde de rush, a cada chuva fina, cada buraco, cada alagamento, cada acidente na via que não suporta mais o fluxo crescente, e… a Paralela, antes um paraíso, tornou-se um drama diário, um inferno.

Pois bem, que venha a Copa 2014, em boa hora, pois a Fifa já deixou claro que a cidade terá de apresentar um transporte de massa moderno, um fluxo urbano decente do Aeroporto ao Centro para que haja jogos programados na dita praça escolhida como sede.

As verbas já existem, alocadas para tais fins. Até os valores estão definidos, à espera do projeto, pelo PAC da Copa. Dinheiro gordo que faz piscar muitos olhos, balançar muitos interesses. Assunto para muito programa eleitoral, mas a cidade tem pressa.

Salvador quer saber, já, qual o projeto melhor, mais barato para o povão, menos custoso para os cofres públicos e também o mais eficiente.

Seria o VLT, espécie de pequenos/leves trens sobre trilhos ligando o aeroporto à Rótula do Abacaxi, e daí conectando-se com o tal metrô de meia légua até a Lapa?

Bem, as nossas tentativas de projetos urbanos sobre os trilhos, até agora, têm sido pífias. Como exemplos, o VLT dos tempos de MK na prefeitura que não deu em nada; o atual metrô, que já tem 11 anos e não anda, sequer gatinha; e os próprios trens suburbanos, restos da RFFLB dos anos 1950, pobres, inseguros, antiquados e pouco usados. Vez em quando um vagão descarrila, sobre dormentes sem manutenção adequada. Um abacaxi de caroço.

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O BRT, o que é?

A outra alternativa, tida como mais rápida, moderna e de custo mais barato é o chamado BRT-Bus Rapid Transit. São grandes ônibus acoplados, rodando em corredores exclusivos. Esse sistema deu certo em Curitiba, em Bogotá, está sendo implantado em cidades da China, do México e é a novidade na África do Sul para a Copa de junho próximo.

Dizem os técnicos que é muito mais fácil e mais barato de ser implantado, agride menos a paisagem, atende a todos os objetivos de transporte de massa rápido e eficiente, é seguro e sairá com uma tarifa muito mais barata do que qualquer metrô ou VLT. E mais, adequa-se melhor à topografia de vales e cumeadas típica do cabo (geográfico) onde está plantada a cidade.

 

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É assim? Eis a discussão.

Os dois projetos estão em pauta. Há grupos privados interessados de um lado e do outro, pois a grana disponível é boa.

Mas urge que os poderes municipal e estadual sentem-se à mesa, juntos, desarmados, sem querelas eleitoreiras porque o povo quer soluções para seus problemas e não blablablá, ouvindo técnicos, a opinião de estudiosos, as propostas dos grupos interessados… e decidam, já, o que é melhor para a cidade, para o estado, sobretudo para o povo,essa massa que usa e carece de transporte de boa qualidade, há anos.

O debate está aberto, as cartas aí estão.

Não há tempo a perder. A corda está no pescoço, estrangulando. O povo está de língua de fora.

E… a Copa já é amanhã.

 

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*zédejesusbarrêto, jornalista (13abr/2010)

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