JORGE AMADO E AS BALEIAS DO RIO VERMELHO

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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Um dia, não lembro bem, sei que nos anos 1980, fui até a casa de Jorge Amado, no Rio Vermelho, agradecer as boas palavras que ele tinha mandado à guisa de prefácio para um dos meus livros. Ele estava escrevendo sua Navegação de Cabotagem e deu uma parada para me atender, atencioso que era com todo mundo do mundo inteiro.

Para puxar conversa, pois não iria perder a chance de conversar com um gênio da literatura da Língua Portuguesa, agradeci, fiz todos os salamaleques possíveis – puxando o saco mesmo – e ele me ofereceu um pouco do suco que estava tomando, acho que era de manga, ou seria pitanga?

Entabulei logo uma conversa mole, mesmo sabendo que estava ocupando seu tempo, perguntando se ele tinha visto uma baleia cachalote que passara semanas antes pelo Rio Vermelho. Explicou que estava viajando, e que sentiu muito ao ver pela televisão a bicha espirrando água para todos os lados e pulando, batendo a cauda, com uma alegria que somente as baleias, os golfinhos e os botos possuem na fauna marítima.

Então o que era para ser uma conversa para boi dormir se transformou numa história bastante interessante, ele animado me dizendo das suas aventuras no bairro do Rio Vermelho de antigamente, quando ao lado do poeta e artista plástico Licídio Lopes parava para apreciar a passagem das baleias em certas datas do ano.

Ele me disse que elas vinham aos montes e vez em quando alguma se perdia e encalhava e a depender do dia ou era ajudada a voltar para o mar ou virava bife. Deu uma risada de ombros, ao tempo que ilustrava a situação, mostrando que havia, sim, pesca da baleia no Rio Vermelho, embora os verdadeiros baleeiros especialistas estivessem mesmo na Z1: colônia de pesca lá das bandas de Itapuã.

Perguntei se ele tinha comido carne de baleia e disse que certa vez provara, mas não lembrava mais do gosto. Mas, garantiu que Dorival Caymmi comia e se regalava, dando um sorriso de canto de boca que não sei se era falando a verdade ou sacaneando o compadre, coisa que ele gostava de fazer juntamente com Carybé e Calazans Neto.

Antes de ir embora perguntei o porquê de as baleias terem corrido do mar aberto do Rio Vermelho. Ele explicou que devia ser por causa da diminuição no número de espécimes e que baleia por não ser burra guarda na memória os locais onde o perigo é maior e voltou a gargalhar. Acusou, entretanto, a poluição como um dos fatores do afastamento para alto mar dos cetáceos.

Por último relembrou que às vezes era tanta baleia que parecia até procissão marítima. E vaticinou que um dia elas ainda voltariam a frequentar o Rio Vermelho. Ele sabia o que estava falando. Não é que elas começaram a aparecer mesmo que timidamente.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista, escritor, editor do blog Joli: http://www.jolivaldo.blogspot.com/

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