HISTORIADORA DESARMA O RACIALISMO

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LUZIA JEJE

OU SRA. GOMES DE AZEVEDO

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texto de LUIZ MOTT*

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A antropóloga e política negra Lélia Gonzáles (MG, 1935 – RJ, 1994) costumava repetir que todo mulato é fruto do estupro do homem branco contra a mulher negra, assertiva repetida acriticamente pelo atual discurso racialista, mas insustentável sob o ponto de vista histórico.

Gilberto Freyre tinha razão quando magistralmente disse: “Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime.”

Porém, inúmeras pesquisas comprovam que mesmo reconhecendo a cruel misoginia e frequentes abusos sexuais a que foram submetidas as escravas – índias e negras – assim como as próprias mulheres brancas, vítimas do machismo, patriarcado e falocracia, não obstante, incontáveis “mulheres de cor” seduziram os donos do poder, foram desejadas e amadas com ardor e carinho, tornando-se esposas devotadas.

Estudos recentes sobre escravidão relativizam a exclusividade do abuso sexual na relação entre brancos e negras no tempo de nossas tataravós.

Acabo de participar da banca de doutorado de interessantíssima tese, “As mulheres negras por cima: O caso de Luzia Jeje. Escravidão, família e mobilidade social, Bahia, 1780-1830”, da historiadora feirense [de Feira de Santana] Adriana Dantas Reis Alves, que foi aprovada com nota máxima e louvor na Universidade Federal Fluminense.

Trata-se de estudo minucioso e inédito da união entre um tal Capitão Manoel de Oliveira Barrozo, morador em Paripe, dono do engenho Aratu, que mesmo tendo uma filha branca bastarda, a qual enclausurou no Convento da Soledade, após ter seis filhos pardos com sua escrava africana Luzia, de nação Jeje (do Reino do Benin), alforriou mãe e filhos, casando em face da Igreja com sua negra, reconhecendo seus filhos como herdeiros legítimos.

A preta jeje passa então a chamar-se Luzia Gomes de Azevedo, registrando seus filhos pardos com destacados sobrenomes, como era costume na época.

Mesmo que sejam ainda pouco conhecidos casos semelhantes de tão exemplar amor interracial e interestamental, a ascensão social desta africana e seus filhos mestiços desconstroi a visão racialista de nossa mestiçagem como fruto cruel e exclusivo de abuso sexual.

O amor nunca teve nem deve ter fronteiras.

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*Luiz Mott – Professor Titular de Antropologia, Universidade Federal da Bahia (UFBa)

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NOTA DO EDITOR – Mais visões e pensamentos contrários ao racialismo podem ser conferidos nas seguintes fontes:

1) neste mesmo blog, no post que contém o artigo “Cotas e racialismo”, do geógrafo Pedro Vasconcelos:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/03/28/cotas-e-racialismo/

2) no livro de Antonio Risério A utopia brasileira e os movimentos negros (Editora 34)

3) no blog contra a racialização do brasil :

http://noracebr.blogspot.com/

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Uma resposta to “HISTORIADORA DESARMA O RACIALISMO”

  1. Nação Mestiça › Luzia Jeje ou Sra. Gomes Azevedo – Luiz Mott Says:

    […] Jeito Baiano. This was written by Administrador. Posted on Saturday, July 17, 2010, at 03:20. Filed under […]

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