PORTO DA BARRA, PESCADORES E ARGONAUTAS

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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O Porto da Barra, já não é de hoje, não pertence mais aos nativos. Você pode até chegar por lá e ver um ou outro pescador renitente dando uma demão de tinta em seus pequenos saveiros ou catraias.

Dá até a impressão que tem pescador a rodo, uma vez que todos aqueles que moram nas imediações; ou por vagabundagem, por amor à paisagem, pelo papo descontraído com os conhecidos ou mesmo por falta de emprego, ficam perambulando pela areia, na balaustrada; tomando umas e outras nos raros barzinhos cacetes armados que ainda resistem bravamente.

Pode-se até dizer que parece ter mais pescadores que peixes, vez que raramente – tirantes as pititingas e os peixes de pedra – tem alguém puxando uma arraia, um vermelho, uma guaricema. Mas, quem para, observa a faina vagarosa. Raramente, também, vê-se um barco ser lançado ao mar aberto. São pescadores de olhar o tempo, jogar dominó, falar da vida dos outros e rir escancaradamente. E olhar as vãs sereias.

Se alguma traineira chega ao final da manhã, vinda da Ilha ou do pesqueiro onde passou a noite, tem sempre uma sobra. Um ganha uma cavalinha. Outro fica com a pescada ou peixes de segunda por ser de gosto duvidoso ou faltar tamanho. Sempre aparece um tacho, um botijão, carvão e um isqueiro. Alguém sabe, sempre, onde conseguir azeite de dendê ou azeite doce. Os temperos surgem do nada. Se não der para fazer o ensopado ou a moqueca o jeito é fritar. Pimenta nunca faltou nem vai faltar.

E enquanto o sol fica a pino e o vento faz a viração, com os navios ao longe mostrando sua proa, numa prova que a maré está de vazante, se degusta à mão livre as postas cheirosas com a farinha copioba. Se der, vai uma cochilada embaixo da amendoeira. Se não der, um bom mergulho na água tépida que se renova a cada movimento da Terra tira o sono e a vida continua.

São pescadores diferentes, que não vão à pesca e que se misturam aos novos habitantes; argonautas vindos de países frios e que se instalaram em todos os pontos do Porto. Os nativos já não pertencem ao Porto da Barra.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista, escritor, editor do blog Joli: http://www.jolivaldo.blogspot.com/

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3 Respostas to “PORTO DA BARRA, PESCADORES E ARGONAUTAS”

  1. othon figueiredo freitas Says:

    ASSOCIAÇÃO DOS PESCADORES ARTESANAIS DO PORTO DA BARRA- Avenida 7 de setembro, nº. 3.809, Barra, Salvador, BA – CNPJ 10.963.151/000l-07
    Realmente doutor, os pescadores do porto, por questões econômicas não residem mais nas proximidades daquela praia e sim nas periferias, como Calabar, Nordeste de Amaralina, Pernambués, e outros bairros pobres e mais distantes do Porto da Barra, em nossa cidade, onde gasta R$4,60 diariamente com transporte para tentarem arrancar do mar o sustento para suas famílias, quando o tempo lhes permite.
    Aqueles que dormem nos barcos e praças da cidade em todo o Brasil devida o atual abandono por parte das autoridades, são usuários de drogas, alcoólatras e outros infelizes irmãos nossos doutor, os pescadores genuinos geralmente saem às seis horas e retornam às 16 horas, e cansados vão imediatamente para seus bairros venderem seus produtos. Muito poucos o vêem, porém sabemos que existem, pois nos alimentamos do produto de seu labor.
    Devido à escassez do pescado em decorrência da poluição dos nossos rios e mares, realmente está muito difícil a vida destes trabalhadores, sem falar dos irresponsáveis que jogam bombas acabando com o ecossistema que é combatido por todos nós pescadores, pois as autoridades não controlam essa atividade com punições mais severas, onde convido-o para fazer uma matéria deste assunto que iria muito nos ajudar futuramente.
    Realmente quando um barco está em conserto ou pintura, para amenizar a fome, alguns preparam um alimento, um peixe sem valor comercial, um jabú, quatinga ou outros, dentro de seus barcos, para ter força suficiente e terminarem seus serviços do dia se alimentando precariamente de uma farofa com farinha de segunda e muita pimenta para enganar o paladar e não com farinha de copioba, aliás, esta é fabricada nas proximidades da cidade Nazaré, numa fazenda chamada Copióba Açu ou Copióba Mirim e por ser de alta qualidade torna-se muita cara, não chagando para pescadores em dificuldades financeiras. Se houvesse condições, estaríamos nos finos restaurantes tomando vinhos importados como se fossemos jornalistas, políticos ou outros.
    Quando o sol fica em pino, já é meio dia doutor e como em todas as casas, também comemos, só que à mão livre, porque não temos pratos nem talheres, nem mesas e nem cadeiras, alimentamo-nos em pé mesmo doutor ou em alto mar, e aqueles que dormem debaixo das amendoeiras, não podem ser confundidos com pescadores, são os pobres drogados, que ficam o dia tomando pinga e fumando crack e as nossas autoridades ficam aguardando somente a morte para que a o “camburão” venha buscá-los e que na maioria das vezes é o primeiro e último serviço prestado pelo poder público a este cidadão, também filho de Deus.
    Somos pescadores diferentes porque não temos uma sede para tomarmos um banho após as pescarias, por não termos onde guardar nossos aviamentos de pesca, por não termos frízeres nem geladeira para guardarmos nossos peixes quando chagamos após o horário comercial ou aos domingos quando as peixarias que compram os nossos produtos estão fechadas. Não fazemos parte da mitologia doutor, não somos argonautas, somos reais e humanos, sofredores como qualquer classe trabalhadora deste País, só que menos assistida, pois não temos férias, licença prêmio, nem salários definidos, vivemos do que fazemos, do nosso trabalho.
    No entanto, informo que já temos uma Associação que luta pelos nossos direitos junto à Capitania dos Portos, Ministério da Pesca, à Bahia Pesca, Prefeitura, IBAMA, e outros ligados ao setor. Informo ainda que estamos formando uma parceria com o Banco do Brasil, onde criaremos uma DRS, ou Desenvolvimento Regional Sustentável, onde o Banco nos apoiará e nos ajudará na melhoria dos nossos serviços, conseqüentemente melhorando a nossa produção. Precisamos é quem nos apóie, pois a própria vida já basta com as dores destes pais de família.
    Cordialmente,
    Othon Figueiredo Freitas- presidente – asspaba@gmail.com.

  2. Bernardo Mussi Says:

    Realmente o texto do Jolivaldo, como sempre, é muito bem escrito e com boas tiradas “poéticas”, até certo ponto até irônicas. Porém, não creio que tenha sido tão feliz na abordagem em relação a uma realidade muito bem descrita na resposta do amigo representante da ASSPABA. Quem vive atento, e muito atento, à rotina da praia do Porto da Barra vai perceber que o processo de degradação que aflige este lindo trecho da cidade tem sido um duro golpe na cultura local, em especial contra elementos ambientais, artísticos, paisagísticos e históricos, incluídos aí os pescadores e seus saveiros. Parabenizo o Jolival pelas abordagens em seu blog, sempre muito atuais e esclarecedoras, sugerindo apenas que atenda aos anseios da comunidade de pescadores do Porto da Barra para ajudá-los a reverter o quadro de abandono e empobrecimento que se encontram. Os pescadores do Porto da Barra com seus saveiros representam um dos grandes patrimônios culturais da nossa cidade. Aos amigos pescadores, minha eterna admiração e apoio para o que for preciso.

  3. Reinhard Lackinger Says:

    Adorei esse texto, meu caro Joli!!!

    abraços

    Reinhard

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