PENSAR BAIANO OUVINDO RONCOS DO ALÉM

textos de zédejesusbarrêto*

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Oh céus, a quem clamar?

São mais de 400 igrejas com nomes esquisitos espalhadas Brasil a fora, dezenas em cada bairro, uma em cada esquina. A quase totalidade delas… nem aí para o Altíssimo.

Funda-se igreja, abrem-se templos neste país apenas para ganhar dinheiro, ter isenção de impostos e tributos, armar trambiques em nome do Senhor. Igreja rende mais que boteco. Investe-se pouco, os clientes/fiéis ajudam na mão-de-obra, doam dízimos e até votam, elegem suas bancadas.

As portas do templo abrem janelas, rendem concessões de rádio, horários e canais televisivos, tudo em nome de Jesus, o sangue de Cristo tem poder, xô satanás.

Começar hoje como obreiro, depois pastor é o caminho mais seguro para uma vereança, uma deputança, quem sabe uma prefeiturança, uma governança, uma presidença… A fé remove montanhas, está escrito.

Ser bispo é uma questão de desempenho no convencimento dos fiéis a abrir o bolso. Não precisa estudo, nada de teologia, nada de conhecimento das sagradas escrituras. Pra quê? Pregar é saber comover, apenas. Vender esperanças, mesmo que seja no além. Lotes no paraíso. Indulgências, perdão dos pecados, vida eterna… qual o preço? Exorcisemos nossos demônios.

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O após calipso

E bispos e padres católicos enrolam-se com o celibato e aliciam meninos e meninas, sem pecados. Pastores envolvem-se também com o sexo fácil, com o tráfico de drogas e de armas. E Alah quer vingança. São as notícias, em múltiplos idiomas.

Vamo que vamo’ que o demo é esperto e o dia do juízo está próximo. O céu é um sonho, o purgatório dessa vida tá beirando o inferno. É quentura, é água, é fogo, terremoto, tsunami, terrorismo, bala perdida, filho matando mãe, pai estuprando filha…

Que falta para o apocalipse?

Esse novo milênio tem sido um prato cheio para os espertos. O horror dos desamparados. Os de juízo mole se entregam. Deus é fiel. A quê, a quem?

Viveremos o ‘após calipso?’

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Pela janela, observo. Na esquina, duas meninas de calcinha enfiada à mostra dançam o ‘reboleichon-chon’. Tudo… nada está perdido. Deus está solto!

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Ao longe, no escurecer, relâmpagos prenunciam chuvas. Apuro os ouvidos. Ouço roncos do além. Não distingo se são trovões que chegam pelas bandas do mar… ou apenas aviões de carreira, invisíveis, rasgando o céu cinzento desse quase noite, ocaso de verão.

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A vida é o gozo de um padecimento.

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O lamentável leilão

No Campo Grande

O ‘Grande Leilão de Bens Móveis’ do Hotel da Bahia está marcado para o dia 20 próximo, às 10 horas da manhã, no Salão Atlântico do próprio hotel, no Campo Grande.

Lí o anúncio no jornal A Tarde do dia 10 passado e os leiloeiros serão Tânia Abreu e Darke Magalhães de Abreu, bem conhecidos.

Entre centenas e centenas de itens que vão a leilão, agrupados em 200 lotes, alguns chamam a atenção. Por exemplo: Um piano Meia Calda (sic) Essenfelder, 05 tapetes iranianos, vários mobiliários antigos, Escultura de Mário Cravo … e obras de arte diversas. Pergunto: estariam aí, nesse item ‘obras de arte diversas’ os magníficos painéis de Carybé, feitos nos anos 1980? Como preservá-los?

E mais: Governo, Prefeitura, Patrimônio, arquitetos e suas entidades… ninguém, mas ninguém mesmo vai fazer nada para salvar o Hotel da Bahia, um marco da moderna arquitetura e engenharia baianas, um signo do momento desenvolvimentista do Estado no começo da segunda metade do século passado?

Ou aquilo tudo vai ao chão como o Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova?

Te cuida, Teatro Castro Alves!!!

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O ‘tem tem tem’

Façamos justiça.

Nunca antes na história deste país vimos um bombardeio publicitário televisivo oficial tão intenso. É de engasgar.

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Esfrego a remela dos olhos, já quadrados de tanta tevê. Entre um comercial e outro, o noticiário massacra.

Bala, chacina, apagão, desmoronamentos, estradas assassinas, trânsito caótico, estúpidos e bêbados ao volante, filas nos postos de saúde, meningite ceifando vidas, ensino precário nas escolas, professores ameaçados, drogados nas calçadas, jovens sem futuro a mercê do crack e do tráfico, hotéis fechando, buzu insuportável, casas caindo, obras que se arrastam, disse-me-disse, o fundo do mar bêbado de tanta latinha de cerveja, a vomitar enojado de tanta sujeira humana …

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O sol e o céu se repartem em crimes… e eu vou… nada no bolso ou nas mãos.

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Ah, maldita realidade!

Que teima em não espelhar aquilo que mostram as propagandas na tevê, em não refletir o que alardeiam os porta-vozes dos poderes…

Maldita realidade que contesta, dia após dia, os ‘incontestáveis’ números oficiais.

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É preciso estar atento e forte… Nem temos tempo de temer a sorte… a morte…

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Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo” …

Fernando Pessoa, em ‘Livro do Desassossego’.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador, aquariano.

12mar/2010.

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