O ARQUITETO, A CIDADE E A ÉTICA

Ilustração de GENTIL

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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O Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento da Bahia tem novo presidente, o arquiteto Daniel Colina. Mesmo sem sua licença talvez possa expressar os anseios dos colegas que exercem a profissão neste estado, afiliados ou não ao IAB, pelos rumos desta representação.

Aliás, quanto à expressão do pensamento de profissionais, é com satisfação que percebo o aumento da preocupação com a nossa cidade/região, através de artigos publicados sobre questões urbanísticas, não só criticando ou apoiando ações governamentais, mas qualificando o público leitor para uma mais que oportuna discussão sobre esses projetos quase caídos do Céu, ou do inferno, conforme o olhar de cada articulista. Infelizmente não são muitos os arquitetos e urbanistas, mas outros têm escrito a esse jornal preocupados com “a Ponte”.

Na Bahia,nós, arquitetos e urbanistas, não estamos passando uma boa fase:

Vendo passar dos 100 anos o nosso ícone maior, Oscar Niemeyer, inspirador de tantas gerações, sem aparecer no horizonte da profissão criatura similar, o mínimo que se sente é desencanto. E Oscar, tendo personificado sua arquitetura individualista em detrimento do urbanismo de massas apesar do discurso socialista confirma o dogma anunciado por outro gênio pós-moderno, Frank Gehry, ao afirmar que o urbanismo está morto, (Folha de S. Paulo, 31.01.10).

Vendo agigantarem-se os poderes dos incorporadores, que mandam nos planos diretores, ditam os programas aos arquitetos, transformam as cidades em guetos condominiais e disputam cada metro quadrado viabilizado para comercialização, com raras e honrosas exceções.

Vendo a graduação do arquiteto progressivamente se transformar em mais um curso de decoração. Nada contra os ‘interiores’, mas talvez valesse a pena desenvolver o amor do estudante pelos exteriores, pela sua cidade, e nele incutir as noções de responsabilidade social, de interlocução comunitária, de intermediação com as áreas de decisão em projetos urbanísticos. Guattari nos ensina que cabe ao arquiteto uma nova atitude diante do fato cidade. Uma atitude ética (Caosmose, Ed.34,1992).

Vendo a Rede Globo apresentar o arquétipo do arquiteto sem qualquer envolvimento com o ambiente que mais deveria concernir a esses profissionais, as comunidades de baixa renda, enquanto o outro arquétipo, o do médico, seu irmão gêmeo, “brilha” no que faz e na própria trama, angariando a simpatia de todos. Permitam-me usar um pobre exemplo de folhetim televisivo, mas é esse mesmo que informa milhões de brasileiros e, sabemos, o que aparece na telinha é lei para muitos.

Vendo a forma como o arquiteto é mal compreendido pela sociedade, que não entende suas atribuições, tendendo a identificá-lo como embelezador de um projeto pré-elaborado, bastando apenas “dar uma desenhada para aprovação na prefeitura”, não mais. Arquivo recente circulando na rede relata variações hilárias do que o cliente nos solicita.

Os arquitetos, não se sentindo representados por suas instituições de classe, instituto e sindicato, ficam inadimplentes com o primeiro e blasfemam contra a obrigatoriedade de contribuição sindical.

Vendo sobretudo a promessa de obras urbanas, uma grande oportunidade para concurso público, ter projetos contratados diretamente com arquitetos privados, desprezando as equipes da prefeitura e de outros órgãos do estado com a esfarrapada desculpa de que ‘a cavalo dado não se olha os dentes’. Quer dizer: qualquer coisa serve! Basta um título de apelo mercadológico e uns desenhos ‘ajudados’ por computador e coloridos sobre foto aérea para engabelar os leigos? Não tenho dúvidas de que muitos se deslumbraram com a aparência das propostas mas nem um simples seminário público foi feito, como exige o Estatuto da Cidade.

Apesar do pessimismo… Salve Daniel! Que seu nome de profeta com sobrenome geográfico possa ajudar-nos a melhorar o habitat dos cidadãos.

Que saiba liderar com motivação seus colegas de diretoria.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto e urbanista

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Uma resposta to “O ARQUITETO, A CIDADE E A ÉTICA”

  1. Patricia Says:

    E por falar em ética e cidade… Garanto que o números de vítimas das chuvas dos últimos dias em Salvador só não foi maior porque a população, vendo o que aconteceu no Rio de Janeiro, resolveu acreditar no risco real que corria. Em algumas, poucas, reportagens se fala que o principal causador foi a falta de drenagem e infra. É um problema de ocupação do solo, de déficit habitacional, de ausência do poder público na solução dos problemas mais básicos da população que ele representa e governa. Como pode visões de ética serem tão diferentes? Não há visões de ética, há a ética e a psicopatia, só.
    Força nessa luta Daniel!

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