A PONTE SALVADOR-ITAPARICA

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Falei que considerava inevitável o projeto de transposição das águas do Rio de São Francisco. E que, do mesmo modo, considero inevitável a construção de uma ponte ligando Salvador e Itaparica. Acho que, mais cedo ou mais tarde, ela vai acontecer. E que, por isso mesmo, em vez de apenas protestar, é melhor discutir a natureza da intervenção e a espécie de ponte que vamos ter.

Consideremos, antes de mais nada, o salto demográfico de Salvador. Em 1920, a cidade contava com cerca de 280 mil habitantes. Em 1950, se aproximou dos 400 mil. Em 1970, abrigava cerca de um milhão de habitantes. E tomou o rumo da metropolização. O processo foi rápido. Estonteante. Salvador se expandiu loucamente. Expandiu-se por vales antes praticamente desertos. Criou seu sistema de avenidas de vale. Abriu a Avenida Paralela. Avançou para o litoral norte. Anexou e transformou lugarzinhos antes pacatos e mesmo líricos.

Para ver como as coisas estão hoje, basta olhar fotografias aéreas da cidade. As fronteiras da vida urbana, em comparação com a década de 1950, foram alargadas de modo surpreendente. Formidável. Obras quilométricas e caras foram realizadas. Pontes terrestres, digamos assim, como as avenidas de vale e a Paralela. E nada indica que tal processo expansivo irá se congelar. Pelo contrário. Nosso caminho, para o futuro, deverá apresentar expansão e conurbações sucessivas. Entre outras coisas, alcançando Feira de Santana, avançando para o Recôncavo e anexando Itaparica.

Mas é claro que precisamos ter cuidado. Precisamos de planejamento e trabalho. No seu inchamento, a cidade experimentou, ao lado da expansão demográfica, um vasto processo de favelização. E, como isso vai continuar acontecendo, vamos precisar, cada vez mais, tanto de obras de infraestrutura urbana (como a ponte Salvador-Itaparica) quanto de obras de infraestrutura social (como a urbanização de favelas).

Façamos um pequeno exercício de lógica e imaginação (é coisa que faço sempre). Salvador, na década de 1950, exibia, ainda, uma tranquilidade rural. Parecia parada no tempo. No ano 2000, era radicalmente outra. E como será na década de 2050? Vamos imaginar Salvador em 2050? Na segunda metade do século 21? Comparativamente, daqui a algumas décadas, o que hoje é a região metropolitana de Salvador vai aparecer como coisa menor. E a ilha não vai pairar acima desse processo. É nesse contexto que vejo a ponte Salvador-Itaparica como algo inevitável. Vejo que ela virá. Mais cedo – ou mais tarde.

A megacidade vai se configurar tendo Salvador como centro, mas na conurbação com o litoral norte, no avanço em direção a Feira e na integração com o Recôncavo. Ou antes: reintegração. Agora, via BR-324 e Itaparica. Antes, a vinculação Salvador-Recôncavo se dava, principalmente, por caminhos de água. Não tínhamos estradas. Em vez de trens ou automóveis, circulavam saveiros. No futuro, teremos caminhos de água e caminhos de terra.

Esta reintegração Salvador-Recôncavo, desfecho de um vasto processo de urbanização que envolve todo o planeta (na entrada do século 21, pela primeira vez na história da humanidade, a maioria da população da Terra estava vivendo em cidades e não no campo), não deixará de ser, também, uma recomposição ou reconfiguração de nossos processos históricos e culturais. Salvador e o Recôncavo estiveram estreitamente conectados durante séculos. Foram a descoberta e a exploração do petróleo, seguidas pela implantação da indústria petroquímica, que deslocaram o dinamismo do coração barroco do Recôncavo para cidades como Catu, e depois para o litoral norte, fazendo explodir Camaçari e Lauro de Freitas.

Mas, em princípio, nossa região metropolitana seria, lógica e sociologicamente, o Recôncavo, por todos os nossos vínculos históricos, econômicos, sociais e culturais – como bem via, em meados do século passado, um dos mais brilhantes sociólogos brasileiros, o baiano Luiz de Aguiar Costa Pinto. O impressionante, agora, é que a antevisão de Costa Pinto ressuscita. Em novo contexto sócio-técnico. Sob novas luzes. Em meio a outros dramas e traumas sociais. Numa nova realidade urbana. E implica uma ponte. É por isso que a vejo como inevitável. E quero discutir sua concepção, realização e consequências.

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*Antonio Risério – Escritor

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4 Respostas to “A PONTE SALVADOR-ITAPARICA”

  1. carlos tadeu kirnen Says:

    Essa ponte Salvador-Itaparica vai é enriquecer muitos políticos ka ka ka

  2. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA LINS Says:

    Antonio Risério. Parabéns pelo excelente texto realista. Não podemos comparar Salvador de antigamente com Salvador de hoje em dia. Possuímos na Bahia a terceira maior população do Brasil e a nossa cidade não tem para onde crescer e se desenvolver. Cidades da região metropolitana estão sem espaço. Simões Filho, Candeias, Lauro de Freitas, Camaçari estão ligadas a Salvador como se fosse um bairro da nossa capital. O desenvolvimento chegou e não podemos parar no tempo. Sabemos que a população da Ilha poderá até queixar-se, mas a única saída de expansão de Salvador é para o lado da Ilha de Itaparica, sem contar que haverá um desenvolvimento para outras cidades como Nazaré, Valença, etc, que andam sem crescimento. Sabemos que o custo da construção da ponte é milionário, mas poderá ser feito pela parceria público privado e a concessionária responsável cobrará pedágio, mas com certeza pagaremos um preço menor que o do ferryboat e teremos um serviço de melhor qualidade. Ademais, trará desenvolvimento para muitas cidades da Bahia e desengarrafará a nossa Salvador quase intransitável. E que venha a ponte!!!

  3. pregopontocom Says:

    Por que a PONTE?!!!… Um projeto abandonado e esquecido, que complementaria o sistema ferry-boat já existente (ligação S. Joaquim-SSA a Bom Despacho Ita.) e que seria a ligação do Porto de Aratu ao Porto de S.Roque também através de ferry-boat, e que nunca foi levado em consideração parece ser o mais óbvio e o mais viável, senão vejamos: este sistema seria utilizado muito mais por veículos pesados (caminhões) que não passariam pela Ilha de Itaparica nem dentro da cidade de Salvador, pois do Porto de Arautu tomariam seu rumo, tornando o percurso muito mais curto sem prejudicar a ilha e a capital, pois o desvio seria antes da Ponte do Funil, entrando em S.Roque do Paraguassu. A cidade de Salvador é hoje uma cidade travada por congestionamentos diários, principalmente por não ter tido durante muito tempo investimentos e projetos de melhoria no sistema viário e nenhum projeto de transportes de massa, o nosso sistema de transporte por ônibus é um autêntico DINOSSAURO. A construção dessa ponte tornaria mais ainda vulnerável o nosso caótico trânsito, pois se quer após quase 15 anos o nosso Metrinho de apenas 6 kms, que já consumiu mais de um bi e duzentos, ainda não pode dar os seus primeiros passos. A nossa ferrovia suburbana esfacelada, dividida com a interdição da Ponte de S.João, interditada pelo MP por estar em decomposição, esta esquecida e abandonada. Além disso, temos que avaliar o custo ambiental e a degradação fÍsica, social e cultural de que serão vítimas a ilha e a sua população, além do risco da favelização. (vejam o expl.de Porto Seguro, uma cidade histórica degradada e transformada num shopping a céu aberto). O sistema de ferrys é vítima da sua péssima adm. e da falta de atitude do poder público ao longo do tempo. Pergunta: por que então não se investir primeiro em um moderno sistema de transportes de massa, com trens, metrôs, VLTs, trólebus integrados, para diminuir o volume de carros em nossas ruas e avenidas e melhorar a vida da nossa cidade e da nossa população?!!! Por que insistir tanto nessa velha tecla de sempre se beneficiar o transporte RODOVIÁRIO?!!! Até quando teremos de conviver com essa odiosa cultura?!!! Não é à toa que aqui querem implantar o ASSOMBROSO BRT… Se gastaram durante quase 15 anos 1,2 bilhão no metrô de 6 kms que ainda nem saiu da estação, como querem construir uma ponte SSA a ITA gastando 1,5 bilhão?!!! Tem tudo para ser uma obra que levará décadas e muito dinheiro irá passar por baixo dela. De uma coisa eu tenho certeza: a Baía de Todos os Santos não é a Baía da Guanabara… vão quebrar a cara… (UMA COISA É UMA GRANDE OBRA, OUTRA É UMA OBRA GRANDIOSA) – http://www.pregopontocom.blogspot.com/ – vejam a história da nossa ferrovia, suburbana e a regional SR7 – a história da fundação da CNB e ferrovia de Nazaré, VLTs e mais…

  4. rubens santos pita Says:

    não é possível que não tem um político que se interesse por uma obra tão importante para nosso estado e dá mais resultado do que o metrô já estava tendo retorno para construção do metrô e outra

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