A PONTE ENTRE O PRESENTE E O FUTURO

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texto de ANILTON SANTOS SILVA*

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O presente é uma sombra que se move entre o ontem e o amanhã, nisso reside a nossa agonia ou a nossa esperança. A agonia porque sempre estaremos inconformados com o presente ligado às sombras do passado; a esperança porque o futuro é a luz do fim do túnel do presente sombrio. Então, a nossa inquietude é permanente, movida pelo desejo de transformar o presente. Nisso repousa a fonte da utopia, que num certo momento de epifania desperta as idéias inovadoras, que emergem das profundezas de nossa mente.

A grande ponte utópica necessária, nesse momento crítico da conjuntura global, será aquela capaz de melhorar as atuais condições de vida na terra – vegetal/mineral, animal e humana.

A Bahia, por exemplo, tem um vasto legado de realizações desenvolvimentistas que resultaram em concentração de renda e de pobreza. Historicamente, uma grande baia de prosperidade, engolfada por um continente de excluídos. Então, a eliminação da exclusão social deve ser a nossa principal prioridade.

A ponte Salvador/Itaparica mais cedo ou mais tarde será necessária. Até então, não existe argumento técnico consistente contrário, a não ser quanto a sua prioridade e o momento adequado de implantá-la. Todos os questionamentos levantados, até então, poderão ser equacionados tecnicamente e com a elaboração de um novo Plano Diretor Urbano de Salvador e da Ilha, além do planejamento regional no território impactado pela ponte.

Salvador deve atingir em 2020 mais de 4 milhões de habitantes (1 milhão a mais em 10 anos em torno de 25 mil famílias/ano) e não tem área para absorver tal crescimento, logo sua estrutura urbana deve ser remodelada. A questão não é de um novo modelo urbanístico, mas de readequar a estrutura urbana à dinâmica territorial/ocupacional/social da realidade. Salvador está sem Plano Diretor há muito tempo.

O debate sobre a ponte deve sair do campo restrito técnico para ter ressonância pública. Não existe verdade técnica absoluta, até porque a realidade é soberana (quando o trem da vida faz uma curva, os pensadores caem pro lado – K. Marx). Entendo que a postura técnica deve confluir com os desejos da sociedade da qual, sem o debate público, continuaremos a ignorar a posição sobre a ponte.

A Ilha de Itaparica com seus 369 km² terá condição de abrigar mais de 1 milhão de habitantes com a mesma densidade bruta de Lauro de Freitas – 2.800 habs./km², tornando-se um vetor de expansão urbana de Salvador e atraindo população das regiões próximas, o que implicará numa expansão rápida e padrão de ocupação de alta densidade.

A capital baiana que já manifesta tensões críticas na sua ocupação com a ponte e os projetos para a Copa 2014 terá sua estrutura urbana radicalmente modificada. Tais projetos, ao redirecionar as rotas de acessibilidade, recriam uma nova dinâmica de valorização e desvalorização do espaço nas áreas requalificadas e ao longo dos novos eixos viários – um filão para especuladores e incorporadores.

A gestão da cidade ao abdicar do planejamento urbano, transferindo a responsabilidade do ordenamento para flutuar ao sabor das incorporadoras, torna o espaço urbano um campo anárquico ou controlado pelo capital imobiliário às expensas do capital social.

Será que vamos ter de aceitar essas intervenções sem debatê-las com a sociedade? O silêncio na floresta urbana é preocupante quando o debate público se torna necessário.

É preciso pensar varias pontes, que promovam o salto entre um presente de nuvens carregadas de ameaças e um futuro sombrio para a humanidade, em que o temporal parece que vai desabar a qualquer momento. Agora, o que não precisamos é de uma ponte de ilusão de progresso a todo custo, para ser mais uma nação poderosa, reproduzindo um modelo de desenvolvimento condenado, que exclui seu povo e não preserva seu meio ambiente, como já acontecem com algumas nações emergentes, cujo ciclo de crescimento começa a despencar.

É preciso ter a consciência de quais são os benefícios sociais, que a ponte enseja e se compensam os seus impactos negativos. Se a balança para o avanço social for favorável, que se faça à travessia entre o presente e o futuro, com o cuidado suficiente para evitar que em vez de ir parar no Cabo da Boa Esperança, não esbarrem no Cabo das Tormentas.

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*Anilton Santos Silva – Arquiteto, urbanista, consultor

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Uma resposta to “A PONTE ENTRE O PRESENTE E O FUTURO”

  1. Manoel Says:

    Caro João,
    Primeiramente gostei muito de seu texto, porém pediria um favor de se possível informar onde encontro a citação abaixo:
    Quando o trem da vida faz uma curva, os pensadores caem pro lado – K. Marx
    Agradeço

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