DE OLHO NOS JEITOS DOS BAIANOS

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Três textos de zédejesusbarrêto*

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Baianices ao vento

Levadas pelo tempo

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Passando pela Avenida Sete, observo um casal idoso a caminhar firme pelo passeio esburacado e tomado pelos ambulantes em direção à Piedade, destino centro. Ao passar diante da centenária igreja de Nossa Senhora das Mercês, de portas abertas, ele levanta o chapéu que lhe cobre a careca e ela faz o sinal da cruz, contritos. E seguem adiante. Ponho-me a pensar.

Baianices, baianidades ou baianadas – pra mim tanto faz pois orgulho-me da Mãe Preta e do que ela me ensinou –, há todo um comportamento e um gestual típico do ‘baiano véi’ que se vêm acabando, geração a geração, nessas últimas décadas.

O ato de se benzer e/ou tirar o chapéu sempre que se passa diante de uma igreja, por exemplo. Hábito católico, certamente, que era observado à risca por pretos e brancos, ricos e pobres, a pé ou de buzu, sem a menor vergonha, diante de todos, ainda que interrompendo uma conversa de pé de ouvido, mesmo que rapidamente. Ao passar na frente de um templo católico, o baiano voltava os olhos e fazia o sinal da cruz rápido, quantas vezes e igrejas fossem. Hoje é raro. Só se vê esse gesto de contrição, às vezes, em pessoas idosas, senhoras frequentadoras de missa, sobretudo.

Outro hábito que já foi indispensável, de educação e respeito, e que quase não mais se vê e nem se ouve, é o de se tomar a bênção aos pais, aos mais velhos. O ‘a bença mãe!’, ‘bença pai!’ era obrigatório a toda criança pela manhã, ao acordar, e à noite, antes de dormir; ou sempre que se saía e chegava em casa. ‘Deus lhe abençoe, meu filho!’, era a resposta, como um afago de proteção. Mandava a boa educação doméstica que a criança, o jovem sempre pedisse a bênção à professora, aos mais velhos, vizinhos, parentes, conhecidos da família. ‘Bença tia!’, ‘bença seo Zé!’, ‘bença dona Zuite!’; ‘Deus lhe abençoe, como vai sua mãe?’. Era assim.

E assim, meninos pobres, fomos educados, preto ou branco, no respeito aos idosos, a quem tínhamos de dar preferência e passagem, ceder o assento nos bondes, nas marinetes, nos ônibus… e sem reclamar. Obediência aos mais velhos, aprendíamos. E ai de qualquer criança que respondesse mal ou não obedecesse a uma orientação superior.

Hoje, dessa referência e desses comportamentos, que eram repassados também pelos professores nas escolas, pelos mestres de capoeira e pelas mães-pretas de antigamente, talvez restem resquícios nos terreiros de candomblé baianos, onde se cultiva o saber e a hierarquia rituais, indispensáveis à preservação dos mistérios. Um ‘filho de santo’ não fala alto diante de sua ialorixá e senta-se no chão diante dela. Ainda é assim em algumas casas tradicionais da religião ancestral africana.

Na religião afrobaiana se aprende a pedir licença, ‘agô’. Ao se entrar ou sair de um lugar sagrado, de uma casa, às pessoas. Licença para chegar, para falar, para pedir passagem, para se retirar. São gestos, sinais, tratos de educação, gentileza, delicadeza… tão em falta hoje em dia. Tão ausentes em casa, nas escolas, nas ruas, nos meios de comunicação, nesse mundo tão brabo em que vivemos atolados em ânsias, agonias.

Antigamente, baiano nenhum ousava entrar no mar sem antes tocar a mão nas ondas que vinham dar aos pés na areia da praia, molhar um pouco a testa e o cangote (a nuca), e fazer o sinal da cruz, em seguida. Só então se podia arriscar um mergulho.

Eram comportamentos, hábitos (signos), ritos (liturgia) de respeito e pedido de proteção… diante da grandeza e do mistério das águas. Uma ‘bença’ aos deuses, aos santos, orixás, espíritos, encantados… um louvor ao absoluto, ao desconhecido tão infinitamente maior que tudo.

Baiano de verdade se conhecia de longe, pelo branco imaculado da sexta-feira, da cabeça aos pés, pelas guias de contas e medalhinhas no pescoço, pelo gole de pinga no chão, sempre, saudando e pedindo licença pra Exu, antes da primeira talagada na cachacinha de folha, sagrada… a ‘danada’ descendo e quentando a pança para o pirão de cada dia que dá sustança.

Saudosismos? Apenas observações, constatações das mudanças de comportamento que, às vezes, nem nos damos conta. Perdas, sem dúvida, de alguns signos de identidade, inexoráveis.

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Na alma baiana, os ensinamentos da Mãe Preta:

Ainda há tempo de reaprender a reverenciar a vida. Prezando a natureza, respeitando os semelhantes.

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A Bahia d’antanhos

Terra de louvaminhas

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A velha Bahia continua a mesma tacanha província. Como nos tempos dos coronéis. A terra da louvação, da babação, do puxasaquismo militante. Não se pode falar ou escrever nada fora dos ‘conformes’ vigentes.

O escritor João Ubaldo Ribeiro, ilustre baiano de Itaparica, um dos maiores expoentes da literatura de língua portuguesa, ‘caiu na asneira’ de dar sua opinião contrária ao anunciado projeto de uma ponte ligando Salvador a maior ilha da Baía de Todos os Santos ( a amada Itaparica de seus avós, dos tupinambás) e foi um ‘deus nos acuda’. Até hoje querem arrancar os pentelhos do genial escritor. ‘Por que não te calas?’

Pois bem.

O publicitário Nizan Guanaes, também baiano, renomado marqueteiro, a pretexto de esculhambar a esculhambação baiana, chamou Bell Marques de careca, coisa aliás que todo chicleteiro sabe e comenta, e causou uma comoção no verão tupiniquim. Resultado: mesmo desculpando-se, vergonhosamente, Nizan está sendo processado pelo cantor, compositor e empresário da área de espetáculos, o Bell ‘das bandanas’ Marques, por injúria, calúnia, difamação e mais alguma coisa. O Nizan vai ter de chimbar com muita grana pagando advogados ou pagar uma ‘baba’ de indenização ao careca (oh, desculpe-me, pelamôdedeus, eu não tenho um real) e ricaço cantor-compositor de galopes que empolgam a massa atrás do trio.

Tem mais.

A desatenta ‘twiteira’ Mônica Sangalo, irmã da cantora-ídolo do axé carnavalesco baiano Ivete Sangalo, teclou e postou a fofoca de que a cantora Cláudia Leitte andou desafinando em cima dos trios durantes suas apresentações no carnaval passado. Aliás, coisa que qualquer criatura com ouvidos asseados constatou, pois doía nas oiças os trinados fora do tom da bela criatura cantante. Ela e mais outras desafinam muuuuito, né Margareth?

Ah! Foi um auê tão grande nas hostes sangalistas e leitistas que engarrafaram as linhas dos blogs, emeesses e tuíteres baianos. Ora vejam, ora ouçam! A ponto de a dileta irmã Ivetona, concorrente e ‘amicíssima’ da Cláudia, vir a público pedir desculpas, dizendo que a irmã Mônica, coitada, foi infeliz, desafinou no comentário.

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Aprendam, pois! Na Bahia ainda é assim. Pode-se fofocar e falar mal à vontade, mas por trás, no anonimato, às escondidas, na maledicência, Deus é mais, que ninguém nos ouça. Já expressar com liberdade sua opinião sobre qualquer pessoa ou atitude de alguém ‘famoso’, ‘autoridade’ … Quem é louco?

O mundo desaba! Santo Ofício neles!

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Hoje em dia, falar mal de Lula, então… é uma condenação para sempre ao fogo de satanás: ‘Carlista, direitista, inimigo do povo!’

Pechas que ficam valendo para sempre, também, para quem tiver o topete de criticar qualquer ação ou falta de ação do governo de Jaques Wagner, e até de Caetano (não o genial compositor, ‘aquela bicha liberal capitalista’), o prefeito de Camaçari, um ‘grande líder popular’ (aquele do dinheiro encontrado debaixo da cama) …

Ah, e criticar João, sua gerência (?) como prefeito de Salvador, quem há de? Não ouse. Valem só os elogios à sua (lá dele) popularidade.

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A Bahia é terra de ôba-ôba, de conveniências, adulações. Reverências a quem tem dinheiro, a quem está no poder. Qualquer poder. Pois não, Doutor! (com letra maiúscula, por favor).

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Se não reverencias a quem se põe no alto, ficas mal-falado, mal-visto, serás ‘esquecido’ por um looooongo tempo, muitos passam até a desconhecê-lo, maldito és.

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Quanto ostracismo, quanta gente calada aos porretes ou aquietada com ‘agrados’!

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Isso não é coisa de agora. É dos tempos de Gregório de Mattos e Guerra. Passou pela colônia, pelo império, pelos coronéis do açúcar do Recôncavo, pelos coronéis do Cacau no Sul, pela velha e nova república, ditaduras, juracisismo, carlismo, lulismo… e vamos nóis.

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Hotel da Bahia

Marco histórico

Está fechando as portas o tradicional Hotel da Bahia, um signo da história da moderna arquitetura baiana do sec.XX. E marco também do período de desenvolvimento vivido pelo Estado a partir do governo Octávio Mangabeira (depois do fim da Segunda Grande Guerra) e durante toda a década de 1950.

O Hotel da Bahia foi projeto do arquiteto Diógenes Rebouças (o mesmo que fez a Fonte Nova). À época, uma novidade arquitetônica. Foi o maior prédio da capital e o maior hotel de todo o Nordeste, localizado no Campo Grande, centro da cidade.

O Hotel da Bahia, nas últimas décadas pertencente ao Grupo Tropical, guarda muitas histórias, desde a sua fundação. Hóspedes famosos, festas inesquecíveis, eventos singulares, lembranças dos anos de ouro da cultura baiana. Mais recentemente, devido a sua localização, era um dos preferidos do executivos e também dos turistas que vinham para o carnaval de Salvador. Ultimamente, trabalhavam por lá cerca de 120 pessoas, a maioria de antigos funcionários com mais de 20 anos de serviço.

Além da bela arquitetura, sua entrada, mezaninos, espaços… o Hotel da Bahia abriga um grande acervo de arte que deve ser preservado e cuidado, entre quadros, pinturas e painéis.

Vale destacar os portentosos murais de Carybé, datados dos anos 1980, de valor inestimável e que devem ser conservados, tombados como patrimônio da arte baiana.

Um pedaço de nossa história está ali. Merece um livro levantando tudo, contando os acontecimentos, registrando detalhes, coisas, pessoas, fatos…

O fechamento do Hotel da Bahia é, sim, um baque no turismo de Salvador.

Entre as causas apontadas para o fechamento do hotel está o abandono em que se encontra o Campo Grande e o esvaziamento do centro antigo e histórico da velha cidade amada. E tão maltratada.

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Pensamentando Nu Blog

Cá no meu canto, quieto, releio Mário, o Quintana:

As únicas coisas eternas são as nuvens’

Deixa-me

Que tnho a ver com tuas naus perdidas?

Deixa-me com os meus pássaros…

Com os meus caminhos…

Com as minhas nuvens…’

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*zédejesusbarrêto, jornalista, escrevinhador, baiano amante.

27fev/2010

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Uma resposta to “DE OLHO NOS JEITOS DOS BAIANOS”

  1. Déu Tosta Says:

    …Magnífico! Estou estupefato com a leitura… amei mesmo seu jeito de contar histórias reais tão antigas da atualidade de Soterópolis. Para um “Comedor de Farinha e de Acarajé” ausente, e que sente tanta saudade de camarão seco e defumado, a leitura faz até lacrimar os olhos, e nem sei direito o motivo… Parabéns, e me perdoe conhecer seu talento agora…

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