PROPOSTA DE REI MOMO PARA 2011

Ilustração de CAU GOMEZ

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Lazzo I – O Magnífico

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texto de JAIME SODRÉ*

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Como sempre acontece no pós-Carnaval, a promessa é sempre começar a vislumbrar atitudes e mudanças para o próximo, enquanto procuro entender as vazantes de dois rios que parecem não se cruzar: um caudaloso, pensando o Carnaval como uma atividade de negócios; outro pensando este espaço da folia como a oportunidade de expor aos olhos de muitos as suas qualidades culturais, apostando no direito à diversão e estímulo à estima.

Negócios não são maléficos, o comércio também fez parte dos contatos milenares entre os povos, o que fico a meditar é sobre a razão de estes dois rios não se cruzarem.

Patrocínios para uns, negação para outros. Consumidores em maioria, somos esquecidos quando se trata de blocos afros ou personalidades musicais negras em busca da chancela comercial.

Desde o ritual da manhã até o anoitecer estamos lidando com produtos os mais diversos, porém isso não sensibiliza as empresas, nem ao menos uma simples pasta dentifrícia lembra-se que escovamos os dentes, ou não? Sabões, detergentes, desodorantes comprometidos com o asseio e limpeza não patrocinam ao menos a Lavagem de Itapuã, manifestação de asseio físico e espiritual.

No Carnaval o governo atende com um oportuno aparato financeiro aos blocos afros, com o programa Ouro Negro. Em boa hora, mas não basta, necessita-se do recurso privado, até porque ao governo cabe empregar os nossos recursos não só na folia, temos a saúde, escola, segurança, etc., para cuidar.

Mas, enquanto estudava a economia do Carnaval no âmbito da indústria cultural, na boa monografia de Bruna Silva e nos dados sobre os custos dos abadás e similares, elaborado pela professora Lúcia Maria, buscando compreensão e luz, não vi no Carnaval Lazzo Matumbi passar com o seu bloco Coração Rastafári, fundado, em 1998, com o objetivo de criar um espaço para o reggae no Carnaval, apesar de não estar ligado ao “rastafarianismo”. Bloco que saía sem corda e seguindo os conceitos de paz, igualdade e respeito.

Lazzo, dono de uma voz privilegiada, um artista completo, um dos mais e merecidos aclamados cantores da comunidade baiana, não desfilou, problemas com patrocínio, ou de quem não reconhece neste astro uma oportunidade de atrelar os seus produtos a uma estrela ímpar.

Recordo-me um artista negro no Carnaval, o dançarino Sebástian, sobre um trio, recomendando um grande magazine. Aguardo ainda um bom anúncio da nossa (diva) Margareth Menezes, em tempos de Beyoncé. Questionava-me uma mulher afro-descendente não visualizar semelhante, nem em anúncios de absorventes. Será que mulher negra não menstrua? Indagava, satirizando, claro.

Em 1959 o radialista Edmundo Viana e o jornalista Silva Filho colocaram o inigualável Ferreirinha, motorista da Sutursa, como Rei Momo, ficando na função até 1988. Desfilava em carro alegórico do Campo Grande até a Praça Municipal, recebia a chave da cidade e hospedava-se no Hotel da Bahia.

Em 1990 aconteceu o primeiro concurso para a eleição do Rei Momo. Salvador assiste na contemporaneidade a um novo processo de escolha do Rei. Como resultados tivemos o Rei Clarindo Silva, polêmico, inusitado, que seguindo a tradição histórica de adjetivar os reis, recebe o epíteto de Clarindo I, “O Quebrador de Paradigmas”. Foi uma situação interessante, onde se inaugurava a presença do “magro” nos dias “gordos” de Carnaval.

Segue-se Gerônimo, mais avantajado, excelente cantor e compositor, que se registra como Gerônimo I, “O Filho de Oxum”. Até há pouco estávamos sob as ordens régias de Pepeu Gomes I, “O discreto”, magistral guitarrista que não se fez acompanhar da rainha e princesas do Carnaval, ao que me parece.

Ainda seguindo as prerrogativas históricas, “antes que algum aventureiro ponha a mão na coroa carnavalesca”, permitam-me pleitear para 2011 a posse de Lazzo Matumbi I, “O Magnífico”. Requisitos históricos ligados ao Carnaval não lhe faltam, somado ao fato de ser um dos primeiros cantores do Ilê Aiyê e, com certeza, a cor desta cidade é também dele. Porte, elegância e nobreza estão ali.

Espero estar cumprindo a vontade de muitos e, que nós, súditos de vossa majestade, rogamos que aceite concorrer. Em sendo eleito, com aquele vozeirão, cante de cima do trio, para todos: “vem correndo me abraça e me beija”, em tom de reparação.

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*Jaime Sodré – Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social

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