A CIDADE DO CARNAVAL O ANO TODO

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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Não, não é um capítulo do livro de Ítalo Calvino As cidades invisíveis (Companhia das Letras, 2001), mas é uma reflexão pertinente.

Em entrevista, um dos filhos de Osmar Macedo falou do projeto “Chame gente” e disse algo assim como “deve-se pensar novas opções do Carnaval

Ele tem razão: é oportuno que se fale de festa, na Bahia, como forma de geração de riqueza; se atente para esse sistema que existe na informalidade, é apropriado pela pobreza e tem extrema relevância, por razões históricas, sociais e econômicas.

Históricas: Dodô e Osmar reconfiguraram a festa há 60 anos quando enfrentaram o carnaval das elites que descia a rua Chile em carros alegóricos e ao som de árias italianas, eles em sentido contrario numa ‘fobica’ tocando trevo no ‘pau elétrico’. Ali, começaram a reescrever a história de outra festa, a dos menos privilegiados.

Sociais quando se mesclam estratos distintos no mesmo espaço urbano, espaço das praças e das ruas, só mais recentemente assumindo, qual o Rio de Janeiro, o modelo ainda mais excludente dos camarotes.

Econômicas quando surgem estratégias diversas de ganho, dinheiro pouco distribuído entre muitas famílias, que ao menos uma vez por ano e durante seis dias recolhe valores próximos do que seria uma remuneração aceitável.

As instâncias ligadas ao turismo percebem essa festa predominantemente do ponto de vista da hotelaria e das agências de viagem. Não lhes interessam as estratégias dos pobres da periferia, onde quase tudo é possibilidade de ganho.

A explosão lúdica ocorrida em festas populares presta-se a diversos objetivos, até eleitoreiros. Não é sem razão que a Lavagem do Bonfim é tão concorrida por candidatos.

Mas falo especificamente das possibilidades do Carnaval e, quem sabe, também do São João, as duas megafestas baianas.

Refiro-me às formas de promoção dessa informalidade, ampliando a noção de ‘produção‘ da própria festa, num sentido próximo às atividades organizadas no Rio de Janeiro para a construção do desfile de escolas de samba.

Aqui, a espacialização e a cronologia da Festa poderiam ser de outra natureza, mantendo a mesma ideia da alegoria (palavra muito próxima de alegria) e da construção de subjetividades próximas de nossa realidade.

Seria preciso um novo tempo e um novo espaço para otimizar essa atividade do festejar gerando emprego e renda para comunidades de pobreza durante o ano todo.

O novo espaço teria que expandir-se para fora de Salvador, incorporando localidades onde ainda não existe a folia em escala, começando pelos subúrbios, área carente de toda infra-estrutura e onde se concentram grandes bolsões de pobreza regionais.

Uma ideia seria a assunção, por parte dos nomes que hoje lideram o Carnaval baiano, da noção de responsabilidade social devida a quem de fato faz a festa, o povão.

Os ídolos de massa assumiriam localidades do subúrbio como padrinhos de um projeto de transmutação urbana desses locais.

As aglomerações seriam ambientadas, competindo entre elas para ganhar um concurso, não de escola de samba, mas de Cidade mais Carnavalesca, com a fama redobrada de seu respectivo padrinho/madrinha.

Claro que o trabalho duro ficaria para a pobreza,ninguém se iluda, na “fabricação” e montagem efêmera dessa cidade, projeto desafiador para a sociologia aplicada, para arquitetos cenaristas, paisagistas e engenheiros de obras.

A pobreza seria beneficiada por programas educacionais de alfabetização, treinamento em diversas atividades artísticas, dança, música, teatro, literatura, artes visuais, grafiti e formação de mão de obra em construção civil. Isso presume um formato ainda inexistente, um novo desenho de Carnaval.

É possível sentir a transformação que vem ocorrendo no carnaval baiano e presumir novos cenários, sejam eles socioeconômicos ou espaço-temporais. Em pequena escala Carlinhos Brown, Olodum e Araketu já realizam projetos desse tipo.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto e urbanista

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