MAIS OPINIÕES SOBRE A FOLIA BAIANA

Veja aqui mais quatro artigos sobre o Carnaval baiano publicados no jornal A Tarde, três deles nas páginas de Opinião.

Recomendo outros cinco textos sobre o mesmo tema que estão em post anterior do Jeito Baiano:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/15/opinioes-sobre-o-carnaval-baiano/

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Imperdíveis também são os textos de zédejesusbarrêto sobre a folia na Cidade da Bahia, contidos nestes dois posts:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/17/fim-de-festa-cinzas-e-carnavalodromo/

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/10/o-carnaval-de-rua-da-bahia/

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E mais o excelente manifesto de Roberto Albergaria em defesa da presença dos jegues na Mudança do Garcia:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/16/a-triste-vitoria-dos-jeguicidas/

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UMA CIDADE PARA

DOIS CARNAVAIS

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texto de DIÓGENES MOURA*

(publicado originalmente no Caderno 2+, de A Tarde, 20.2.2010)

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Na cidade de lá, rainhas, musas e reis cantam e derramam os seus desejos sobre seus fiéis seguidores que, impávidos, transpiram por dentro das suas caras vestes sintéticas, como se o Carnaval unisse o mundo num estado de delírio salvador apenas por sete dias.

Na cidade de cá, famílias inteiras adormecem e acordam nas ruas, também durante os sete dias, para viver nesse mesmo Carnaval a experiência de suas próprias existências.

Os da cidade de lá serão protegidos por cordas e cordeiros. Os da cidade de cá suarão sobre o sol a pino como se fizessem parte de outra civilização.

As duas cidades existem em uma, Salvador. Divididas por um fio navalhado pela ganância, onde os “mais fortes” buscam a vitória com as armas da superficialidade.

Na cidade de cá, a voz da ancestralidade olha e pensa: com quantos carnavais se apaga uma memória?

Do alto dos trios elétricos, os que vivem na cidade de lá – rainhas, musas e reis – não veem quem está na cidade de cá, estendidos sobre o chão: famílias inteiras que vêm dos subúrbios e passam a morar sob pequenas tendas cobertas com pedaços de plásticos pretos ou restos de banners com anúncios fragmentados de um novo e enorme edifício que será erguido bem longe deles, os da cidade de cá, que agora estão entre panelas amassadas, recipientes de plástico e tudo o que for possível cobrir alguma coisa parecida com o que os da cidade de lá chamam de “minha casa”.

O Carnaval de Salvador realmente começa quando essas famílias se assentam no meio das ruas, nas esquinas, em qualquer pedaço de calçada para vender o que for possível para cada um deles. Dormem e acordam ao som do que poderia ser música-tema de suas próprias existências. Ainda capazes de sorrir para o mundo, são rápidos em levantar-se e remexer da cabeça aos pés ao ouvir a canção que os manda descer devagarzinho até o mesmo chão onde passarão quase oito dias sob sol e chuva, para ganhar o que talvez não consigam lucrar durante todo o ano.

Na cidade de lá, rainhas e musas afirmam nas entrevistas que estão “abrindo” o Carnaval baiano. Em nenhuma outra cidade do mundo, abre-se tanto uma única celebração ao mesmo tempo.

Na cidade de cá, a população espera em frente ao mar pelos coletes de identificação para que possam, assim, tomar conta dos que uniformizados com abadás, ou melhor, com horrendas camisetas sintéticas, possam fazer parte da turma de foliões que brincam protegidos por cordas e seguranças.

Sim, eles, os cordeiros e os seguranças que durante o Carnaval esquecem as suas origens, mudam de lado e expulsam impiedosamente os que fazem parte da cidade de cá.

Na cidade de lá, a cantora loira que também deve ser “musa” sugere na letra do seu hino de trabalho Máscaras:

Levanta, sacode, balança, não pode parar/ Se lança, se joga na dança, se deixa levar”.

Tem razão: sem parar e sem pensar é muito mais fácil segui-la.

Na cidade de cá, os cantores dos blocos afros – que surgiram na década de 1970, a partir da ação dos afoxés inseridos no Carnaval baiano desde a década de 1930 – clamam por memória, igualdade e respeito.

Nessa mesma cidade, os Filhos de Ghandy reclamam que três “poderosos” blocos de trio da cidade de lá se uniram para atrapalhar o seu desfile no meio da tarde de terça-feira. Se for real, será a audácia perversa do capitalismo tentando silenciar a voz da ancestralidade:

Vou te comer! Vou te comer! Vou te comer!

Se o Carnaval da cidade de lá privatizar ainda mais o Carnaval das duas cidades, teremos então que comprar um lugar ao sol. E quanto custará um lugar ao sol na maior festa popular do mundo?

Quando o Carnaval começou a crescer a partir da segunda metade da década de 1980 e tomar conta do que então era uma única cidade, Salvador, e o delírio e a violência começaram a se aproximar da, digamos, elite, propondo um diálogo entre os da cidade de lá e os da cidade de cá (os pretos e pobres), imediatamente eles, os da cidade de lá, se organizaram e para se proteger: criaram os camarotes, hoje com seus cines-namoro, suas cartomantes, seus kits-presentes, seus lounges, seus mágicos.

Nunca mais as duas cidades se olhariam nos olhos. No meio do Carnaval da cidade de cá, na Mudança do Garcia, um personagem sem sexo veste-se igual ao personagem que está dentro de uma fotografia de Pierre Verger, feita num dia de folia no início dos anos de 1970, na porta da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Leva nas mãos uma reprodução da fotografia original e pergunta, em vermelho:

Com quantos carnavais se apaga uma memória?”.

Um homem que passa vestindo uma sunga azul responde:

Basta uma rola para apagar qualquer memória!”.

Simples assim, na língua do povo, o Carnaval.

Alguns passos adiante, entre um grupo de pagode e outro de samba, Michael Jackson tenta cantar Billy Jeans ao lado de uma placa amarela que repete a ira dos evangélicos, atualmente maior que a culpa dos católicos:

O salário do pecador é o inferno”.

Travecas como epígrafes suam entre os jegues e as grandes bolas infláveis que os patrocinadores “enfiaram” no meio de tudo.

Para entrar no Campo Grande, os da cidade de cá que estavam na Mudança do Garcia tiveram que esperar por uma hora sob um sol tanzânico, até que um trio dos da cidade de lá passasse.

Na cidade de cá […] a Praça Castro Alves, hoje desmemorizada e repleta de cadeiras e mesas de plástico alaranjadas e onde o único alento é a Varanda Glauber.

[…] os habitantes da cidade de cá, os que verdadeiramente guardam o segredo de tudo. Apenas eles serão capazes de nos conduzir a uma reflexão shakespeariana sobre o passado, o presente e o futuro da maior festa popular do mundo: sai do chão ou deixa sangrar?

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*Diógenes Moura é escritor, jornalista e curador de Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo

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A POLÍTICA INAUGURADA

PELO BLOCO AFRO ILÊ AIYÊ

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texto de ARMANDO ALMEIDA*

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É significativa a população que passa a assumir sua negritude a partir do Ilê (1975), que abandona modelos eurocêntricos em nome de uma estética que valoriza origens africanas.

Embora o Ilê seja reconhecidamente um grande marco, inaugurador de uma nova atitude da população negromestiça da Bahia frente ao racismo, ele é comumente ignorado enquanto tal quando se dimensiona politicamente a militância anti-racista contemporânea. Em geral, esta referência é o Movimento Negro Unificado – MNU (1978).

É de se supor que isso seja conseqüência da compreensão da prática política que predomina no senso comum: relega-se a negociação que se desenrola fora do raio delimitado institucionalmente para ela.

A questão racial requer a construção de uma nova sensibilidade, capaz de alterar hábitos e valores impregnados desde a escravidão.

A atitude do Ilê exige uma compreensão mais ampla do fazer político, que vá além dos canais oficiais de negociação política e do âmbito de suas tradicionais instituições. Ela é produto do alargamento do campo de visão da ação política que vem lá da virada dos anos 60, marcada por uma contracultura que incorpora novos atores sociais. Grande diferencial da política na contemporaneidade.

O racismo não está circunscrito a classes, não está apenas no outro, está institucionalizado nas relações cotidianas, inclusive nas do negromestiço – para quem, aliás, o Ilê mais se reporta.

A ação inaugurada pelo Ilê transita fundamentalmente no campo cultural, no campo do simbólico. Ela interfere transformando sentimentos negativos quanto a traços de origem negra, em algo positivo e mobilizador, base para uma nova inserção social do negromestiço brasileiro. O Ilê opera esta mudança de imagem e visibilidade através de uma “estética afirmativa”. Faz revolução fazendo festa.

O orgulho frente às heranças negroafricanas, que distingue a atitude contemporânea de grande parcela desta população, está sutilmente desconstruindo conceitos fundadores de nossas relações sociais, alterando relações de poder pela produção de outros sentidos estéticos.

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*Armando AlmeidaAssessor especial do ministro da Cultura e doutorando em Cultura e Sociedade (Universidade Federal da Bahia)

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MOMO, O ALCAIDE

E O MINISTÉRIO PÚBLICO

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texto de PAULO MIGUEZ*

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Em qualquer lugar do mundo, as comemorações de um evento como os 60 anos do Trio Elétrico mereceriam um tratamento à altura da contribuição que a genial criação de Dodô e Osmar produziu para cultura baiana. Menos aqui, na cidade que viu o Trio nascer.

A rigor, contudo, não há nada de estranho no fato de não termos tido uma programação que, ao longo do ano e durante a folia, celebrasse de múltiplas formas o aniversário do Trio Elétrico. Claro, como poderia ser diferente se a Prefeitura de Salvador, a quem cabe a obrigação de cuidar da festa, insiste em desconhecer que o Carnaval é uma expressão do patrimônio cultural e prefere continuar a tratá-lo apenas como um grande negócio?

O que causa estranheza mesmo é que o Ministério Público, instituição sempre atenta, por exemplo, às agressões ao patrimônio ambiental, não tenha se dado conta que, ao agir irresponsavelmente em relação ao Carnaval, o governo municipal descumpre descaradamente o que estabelece a Constituição Federal quanto às obrigações do poder público relativas ao patrimônio cultural.

Não tenho dúvidas, por exemplo, que uma questão como a ordem dos desfiles nos circuitos da festa, que deveria ter como critério organizador a diversidade das manifestações carnavalescas e não o interesse dos grupos que dominam o negócio da festa, possa ser objeto de uma ação de improbidade administrativa.

Nossa sorte é que o Carnaval, historicamente, tem sabido superar modelos e modismos que pensam ser mais e maiores que ele.

Bons exemplos da rebeldia carnavalesca são, na Bahia, o próprio surgimento do Trio Elétrico, que sessenta anos atrás destroçou o modelo de Carnaval europeizado que então dominava a folia, ou a emergência dos Blocos Afro, que na metade dos anos 1970 renovaram a festa e a cultura baiana no seu conjunto, e no Rio de Janeiro, o ressurgimento, nos últimos anos, dos blocos de rua que, às centenas, se oferecem como alternativa ao enclausuramento midiático das Escolas de Samba.

Mas sorte grande mesmo é que Momo é eterno e alcaides, felizmente, são passageiros.

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*Paulo MiguezProfessor da Universidade Federal da Bahia

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UMA RARA SERPENTINA

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texto de WALTER QUEIROZ JR.*

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Maria colombina foi para o carnaval desejando de todo o coração uma experiência de ternura e poesia em meio a uma festa cada vez mais vazia de afeto… como os arlequins.

No sábado, abriu as janelas em busca de mascarados mas viu apenas gente sem fantasia caminhando para os circuitos da folia. Desceu e foi com eles esperando compartilhar sorrisos e canções.

Para o seu desalento, entretanto só ouviu músicas medíocres, conversas banais, a estupidez zombando da gentileza e um crescente e ensurdecedor barulho agredindo, sem parar, os seus ouvidos.

Percebeu que a sua cidade não se enfeita mais e espantada constatou que a propaganda oficial (burlando o código de trânsito?) são estandartes colocados às margens das grandes avenidas roubando o olhar dos motoristas e dando um péssimo exemplo de anticidadania.

Com vontade de fazer xixi deparou-se com escassos e fétidos banheiros públicos, um flagrante desrespeito, sobretudo às mulheres.

Em meio a multidão, foi sendo imprensada na passagem dos blocos e lutou para não entrar em pânico.

Sua angústia chegou ao auge quando se viu assediada e invadida por beijos de bêbados e tremeu de indignação.

Percebeu, na própria carne, a lamentável perversão da festa que um dia foi de todos e hoje é dominada e comandada por uma elite de negociantes que desdenha do convívio democrático com suas cordas e seus camarotes.

Atingida, por tabela, por um novo gás da polícia, chorando começava a retirar-se quando encontra com um lírico e comovente bloco de palhaços tocando e cantando coisas lindas. Ela adere e pensa:

Nem tudo está perdido!

De repente, uma rara serpentina pousa em seu ombro e ao voltar-se para o autor do inesperado feito, deparou-se com um sorriso encantador. Começava então, outra vez, a mais majestosa das aventuras:

Um grande amor no carnaval!

Enquanto isso a multidão de cidadãos-robôs se embriagava adorando estrelas fabricadas pela grana e repetindo grotescos refrãos que contaminam irresponsavelmente a inocência de nossas crianças.

Ao inferno de vossas precárias consciências, lobos maus!

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*Walter Queiroz Jr.Cantor, compositor, fundador do Bloco do JACU, membro da Confraria dos Saberes

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