FIM DE FESTA, CINZAS E CARNAVALÓDROMO

textos de zédejesusbarrêto

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Sal Picos da Folia

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Da folia, restos, salpicos, sal e picos:

Captei do professor Jorge Portugal, em entrevista na TV, domingo de Carnaval, diante da diversidade estética:

A Bahia é uma encruzilhada étnica’.

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Temos o axé, o pagode, o samba, a chula, o frevo, a marchinha, a salsa, o merengue, o samba-reggae, o reggae, o ijexá, o arrocha, o rock, o sacro, o clássico …

Tudo se ouve, tudo se vê, tudo se mistura. Isso é a Bahia. Assim é o nosso carnaval.

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A grande mídia e os marqueteiros precisam mostrar isso com clareza, sem privilégios.

O que temos de melhor é a cultura, o fazer de nosso povo.

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Axé para a programação da TVE, a cobertura da folia e, sobretudo, o resgate histórico dos 60 anos de trio; o fazer criativo, ano a ano, desse carnaval diverso, único.

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Tem repórter de tevê que se acha mais brilhosa que as estrelas. Menos, menos…

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Foi gostoso e gratificante ver o samba de roda, a chula de terreiro do Recôncavo no pé e no requebro das cadeiras pelas ruas da velha cidade.

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Emoções à flor da pele:

As homenagens das meninas da Banda Didá ao mestre neguinho do Samba, que Deus o tenha no reino da Vossa Glória! Simples e bonito.

E a declaração de respeito e amor do cantor e compositor Durval Lélis, de cima do trio, ao mestre Gilberto Gil, em lágrimas no camarote. O negão merece.

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Valeu o pique do Psirico, o ‘rebolation’ do Parangolé, mas o melhor suingue de banda de pagode continua sendo o do Harmonia do Samba. Encorpado, cheio de sopros, melado de merengue caribenho. Xandy, ex-símbolo sexual, é que tá pocadão.

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Foi ‘massa’ a presença de Moraes Moreira (Novos Baianos) relembrando velhos carnavais, como foi muito bom também rever Luiz Caldas tocando… mas Armandinho é o grande arauto da guitarra baiana, essa maravilhosa invenção de Dodô e Osmar nos anos 1940.

Com ela trieletrizou-se a música baiana que ecoa mundo afora.

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Aqui pra nós…

Os sindicalistas militantes acabaram com a verve histórica da ‘Mudança do Garcia’. O que se viu no tradicional e esperado desfile da segunda-feira foram faixas e cartazes, todos quase iguais, a mesma caligrafia, com reivindicações e palavras de ordem. Nenhuma graça, cadê a criatividade? Nem jegue tem mais. Uma caretice.

Em plena ditadura militar, sob censura, o carlismo em alta… havia irreverência, crítica aos costumes, o couro comia, o humor era ferino, gostoso de ver.

Mas aparelharam a Mudança. Uma pena!

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Tá, ‘Lobo Mau’ pode estimular a pedofilia. E as crianças dançando ‘Todo Enfiado’ ao lado da mamãe? Hum?

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Sobre as nossas ‘divas’:

O melhor de Ivete, no Campo Grande, olhando pro palanque dos políticos: “Ih, hoje tem muita figura pra gente puxar o saco!”

Daniela estava bela com a orquestra sobre o trio, mas os modelitos de roupa sobre o corpo, crendeuspai!

Claudinha Leitte necessita urgente cuidar da afinação. Dói nas oiças, menina.

Margareth tem uma voz bela e poderosa, mas não carece de cantar aos trancos, trupicando na melodia a cada fraseado. Um pouco de ternura, querida, faz bem.

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Já é quarta-feira de cinzas.

Memento homo quia pulvis est et in pulverem reverteris’!

Diz o padre na hora da missa, esfregando a cinza em cruz na testa do desinfeliz, ali prostrado de joelhos, ressaqueado do miserê dos seis dias de furdunço, chamando-o à realidade humana : “lembra-te oh homem, que és pó e ao pó retornarás’!

Começo de quaresma para os católicos praticantes, quarenta dias de resguardo e penitência até a semana-santa, a sexta da paixão de Cristo e o Domingo de Páscoa e ressurreição. Até os terreiros fecham o barraco, em reverência.

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É o começo de ano, pra valer, para os baianos. Acabou-se o carnaval, vamos cair na real.

Ano de Copa do Mundo, na África. Ano de eleições para presidente da República, para governador, senador…

Agenda lotada e quente.

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É hora de tirar a fantasia e começar, já, a desarmar o circo. Desmonte. Urgentemente. Limpar o lixo, aliviar a inhaca das ruas, retirar os ferros e tabiques das avenidas e praças, desfazer os camarotes, recuperar os estragos deixados por todo os circuitos da folia.

Ao trabalho, urgente.

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Vamos limpar os bueiros, as valas, os córregos, capinar as encostas, orientar os moradores de risco… porque as chuvas de março e abril vêm aí, sem aviso prévio, como todos os anos.

…antes que a casa caia!

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O Carnavalódromo:

Um debate à mesa

A cada ano vão se definindo os destinos dos espaços/circuitos do carnaval da cidade. Naturalmente.

O Centro Histórico se consolida como um alternativo das diversidades: folguedos, família, lembranças, reencontros, refresco.

O circuito Osmar (Campo Grande – Praça Castro Alves) é o da diversidade, da espontaneidade, do povão. O espaço dos blocos afro e afoxés, dos carros de som e trios menores, do careta, dos mascarados, dos cordões e batucadas de rua, samba no pé, grupos folclóricos, capoeira, grupos do interior do Estado, manifestações libertárias como os travestidos e a Mudança do Garcia. O imprevisível, a arte popular e a mistura de todas as diferenças. O sem tempo, a liberdade da beleza.

O corredor estreito da Avenida Sete com seus antigos sobrados não suporta o gigantismo e a potência dos super-trios e até inibe ou limita a criação de novas e modernas estruturas de trios mais futuristas. Isso é fato.

Não sei se o circuito Dodô é o futuro. Ou se foi/será apenas uma experiência bem sucedida mas passageira. O carnaval está acabando com a Barra. Isso é fato.

A Barra é, historicamente, um bairro residencial, praieiro e turístico por vocação. Mas, em função do carnaval (e outras manifestações festivas de verão) está perdendo todas as suas características, vem sendo depredado a cada verão. O Farol e o Porto precisam ser preservados. Os moradores da Barra (orla e adjacências), que pagam um IPTU alto, nunca foram consultados sobre esse uso emergencial dos espaços públicos do bairro, um transtorno para a vida da comunidade, para a privacidade dos cidadãos.

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Os grandes blocos e seus trios maravilhosos, que envolvem grandes interesses em parcerias com patrocinadores, canais de tevê, camarotes etc… carecem, há tempo, de um espaço próprio para seu desfile, com toda uma infraestrutura montada para tal. Trata-se de uma indústria de entretenimento, uma ‘fabrica de alegria’.

Isso não significa um retrocesso, mas um avanço. Não significa segregação, ela já existe, escancarada e chocante no circuito Barra-Ondina. Mas um estímulo à diversidade, à criatividade, a novas artes e invenções.

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A criação de um carnavalódromo (estilo sambódromo do Rio) seria uma saída? Por que não a discutimos abertamente com os interessados, os carnavalescos, os donos de trio, de blocos, os patrocinadores, os investidores em camarotes… e mais arquitetos, urbanistas, agentes de turismo, universidades, professores… etc.

O carnaval da Bahia é um assunto importante. Político, urbano, econômico, sócio-antropológico, cultural… É uma vertente da história de nossa gente, sim sinhô.

Nesses tempos de tantos projetos megalomaníacos, pontes, passarelas, intervenções urbanas mirabolantes… não devemos ter medo de discutir o uso do espaço urbano para a nossa maior festa/ manifestação popular, hoje observada e estudada no mundo inteiro.

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Aquele espaço na Boca do Rio, do antigo aeroclube até a ex-sede social do E.C. Bahia é uma boa sugestão para começo de debate, sem pejo, sem ranços.

Um carnavalódromo (ou que outro nome se queira dar) não seria usado apenas nos dias de folia. Seria um equipamento útil também para grandes shows e espetáculos. A cidade ganharia um espaço adequado para grandes eventos. Espaço que funcionaria durante todo o ano, com escolas, oficinas, ginásios para treinamentos e ensaios, museu do carnaval, da música, lojas, cinemas, esportes, piscinas… Uma área diante do mar voltada para atividades náuticas, estudos dos oceanos etc…

Imagino que qualificaria a orla e a cidade, um belo e ambicioso projeto urbano com novas pistas, arborização, uso de energia solar e/ou eólica, preservação das águas, valorização da natureza, integração das comunidades próximas…

A velha e histórica cidade do São Salvador da Bahia agradeceria e sua população mais ainda. O espaço existe e está lá, ocioso, abandonado, sem projetos dignos. Aquela região atlântica ganharia uma valorização estupenda.

Outras vantagens públicas: a organização, o controle, a segurança, a limpeza, menos despesas do poder municipal em reparar os estragos nos espaços urbanos danificados a cada carnaval.

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A pergunta: Um carnavalódromo esvaziaria o carnaval do centro e dos bairros mais ainda do que agora… ou estimularia a criação de novos carnavais, de novas manifestações populares? Não vamos ter medo desse debate. As intervenções urbanas devem ser discutidas e não impostas. É hora de ousar.

O que tem travado essa discussão é o fator político-eleitoreiro. Governadores, prefeitos e candidatos em geral não querem ‘queimar o filme’ propondo mudanças em time que eles acham que ‘está ganhando’. Esse modelito anos 1980 os satisfaz.

Mas estamos em 2010. Uma nova era, pois não?

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A cada carnaval, diante das constatações do modelo superado e das novas exigências do amanhã, prometem discutir a questão do espaço público e das atrações do carnaval. Mas, passa ano e sai ano e nada acontece.

Não é hora de se acoplar um novo projeto de carnaval a essas transformações urbanas previstas para a Copa 2014? A tal parceria público/privada com a palavra.

Alô prefeito? Alô governador? Alô candidatos?

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Deixo para reflexão uns trechos da entrevista do músico, carnavalesco de trio e bloco, e arquiteto Durval Lélis na revista Muito, 14 de fevereiro de 2010, do jornal A Tarde:

Quando se criou o sambódromo, as pessoas diziam que o carnaval de rua ia acabar, e hoje ele está fortíssimo no Rio. É que se dividiu as coisas que atrapalhavam. A rua ficou liberada para os batuqueiros, os homens vestidos de mulher, os pierrots e as colombinas. Isso é democracia. Essa essência do carnaval todo o Brasil tem. Quando a gente vem com as nossas máquinas, a princípio elas enriqueceram a festa, mas chega uma hora que a gente não pode mais evoluir porque as ruas estão limitadas e tem as regras todas.’

O bloco e o camarote já tomaram todos os espaços, a gente não pode produzir outras coisas. Pra produzir tem de ter arquitetura, e para ter arquitetura tem que ter espaço físico’.

Se nosso carnaval já é o maior do mundo, e tende a crescer, de que forma aumentaríamos sem criar transtornos para o poder público? Dando responsabilidade aos interessados, de forma democrática’.

Como vou desfilar com uma alegoria na rua, se tem uma lei que proíbe? Como vou fazer uma águia de 10 metros de altura se tem um fio ali em cima? Se eu quiser investir numa superprodução hollywoodiana não dá para ser na rua. É isso que eu tento explicar há mais de 15 anos e as pessoas ainda não entenderam.’

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A proposta está aí, à mesa, para o debate democrático que a cidade exige.

Quem assume, quem tem medo?

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zédejesusbarrêto é jornalista, escrivinhador e trabalhou durante oito anos na coordenação de comunicação do carnaval da cidade (17fev/2010).

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