ESBULHO DO CARNAVAL DE SALVADOR

Ilustração de GENTIL

.

texto de NILTON NASCIMENTO

O patético apelo de Orlando Tapajós ao governador Jaques Wagner solicitando financiamento público para o seu trio desfilar no Carnaval que homenageia os 60 anos do trio elétrico e a “esmola” recebida – pouco mais de 10% do solicitado – da Secretaria da Cultura, são emblemas da forma grotesca como os festejos de Momo vêm se realizando na Bahia nos últimos 25 anos, onde um elitista sistema de patrocínios públicos limou a participação popular (78% dos baianos ficaram fora da festa em 2009), tranformando o Carnaval baiano em festa oficial, dirigida aos turistas.

A Antiguidade clássica – Roma, e antes o Egito e a Grécia – exportaram o Carnaval para o mundo sob a forma de festivais livres em homenagem aos deuses lares-pagãos. Na Idade Média, em 1582, durante o Concilio de Trento, o papa Gregório XIII cria o Calendário Gregoriano, oficializando o Carnaval. Decide que a Igreja faria vistas grossas à festa, uma espécie de compensação ao jejum e às abstinências da Quaresma.

Como na Antiguidade, e como ainda hoje, os medievos aproveitavam a licença carnavalesca para se esbaldar em comidas, bebidas e nos prazeres do amor ilícito, elementos que, de acordo com o jornalista Aguinaldo Santana, compõem a incontornável trilogia “estômago-libido-prazer”, do dicionário básico da luxúria e do hedonismo em todas as épocas da humanidade.

Assim, o Carnaval passou a representar a libertação temporária da verdade dominante, um momento de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus, de predomínio das ambivalências linguísticas onde as pessoas tinham liberdade não só para fazer, mas também para dizer o que queriam.

Com essas características o Carnaval chegou ao Brasil no final do século XIX. A folia contagiava igualmente a senzala e a casa grande, contando com a participação dos governantes. No Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo cita um episódio em que o imperador dom Pedro II, brincando um Carnaval muito animado, estatelou-se dentro de um tanque de água.

A Bahia e suas elites romperam esse contrato milenar do carnaval: destruíram o sentido universal da festa para implantar um festival provinciano batizado mentirosamente de “a maior festa do planeta”. Desconstruíram o Carnaval e criaram uma festa chapa branca em que a manifestação do livre espírito deu lugar à regulamentação e o espaço público tornou-se negócio privado, submetido às regras do consumo mercadológico, sendo o resultado financeiro da folia, os lucros, onde se inclui as verbas do patrocínio oficial, rateado entre um grupo exclusivo de músicos e empresários.

Por isso o Trio Tapajós não encontrou recursos do mecenato oficial para tocar na sua própria festa de aniversário.

Até porque essas elites já possuem os seus porta-vozes oficiais na pessoa das Ivete Sangalo, dos Chiclete com Banana, das Daniela Mercury, das Claudia Leitte, dos Carlinhos Brown, dos Xanddy, dos Parangolé, dos Psirico, dos Fantasmão, que enchem as ruas da cidade com carros de som gigantescos vendendo mediocridade musical sob o nome de “alegria”, como antigamente se vendia pirita por ouro, aos tolos.

Nesse negócio não existe espaço não apenas para o Tapajós, como também para o multiculturalismo das tradições musicais brasileiras como o samba, a marcha, o samba-reggae, o frevo, etc. Para as elites bastam as harmonias pasteurizadas e monocórdias da “axé music” e do “pagode baiano”.

Também jogaram para a última cena os grupos negros de afoxés que são manifestações artísticas ligadas diretamente aos cultos afro-brasileiros, eliminou-se as escolas de samba, os blocos de indios, as baianas, e até as belas personagens da commedia dell’arte, como os pierrôs, colombinas, polichinelos e palhaços, reminiscências dos eternos carnavais.

Trocando o “bem comum” pelo “interesse privado”, alegoricamente denominado de “indústrias criativas”, as elites baianas realizaram o esbulho do Carnaval, concretizando a “magna latrocinia” – como diria Santo Agostinho – do espaço público na cidade.

Com isso, o Carnaval baiano ganhou um conteúdo de puro negócio, perdendo a poesia característica do seu passado, quando o povo cantou a primeira música carnavalesca do País: E viva Zé Pereira!

.

Nilton Nascimento – Jornalista e pesquisador

 

Anúncios

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: