PRA SALVAR YEMANJÁ – BAIANICES

Casa de Yemanjá, no Rio Vermelho, Salvador (BA). Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde - 1.2.2010. Seleção de fotos deste post por CRISTIANO PARAGUASSU

É dois de fevereiro

Dia de festa no mar

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texto de zedejesusbarreto

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Escreveu, musicou e cantou o mestre Dorival Caymmi, amado e amante dos mistérios femininos do mar da Bahia (os franceses chamam de La Mer, já que o mar é fêmea):
(Vídeo do YouTube produzido especialmente para o blog SALVADOR NA SOLA DO PÉhttp://salvadornasoladope.blogspot.com/)

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Dia Dois

de Fevereiro

Dia de festa no mar

Eu quero ser o primeiro

pra salvar Yemanjá

Escrevi um bilhete pra ela

pedindo pra ela me ajudá

Ela então me respondeu

Que eu tivesse paciência de esperar

O presente que eu mandei pra ela

De cravos e rosas, vingou.

Chegou! Chegou! Chegou!

Afinal que o dia dela chegou.

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Presentes para Yemanjá depositados no Barracão ao lado da Casa do Peso, no Rio Vermelho. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

Contam os mais velhos que a festa do dia 2 de fevereiro, nos mares da Bahia, teve origem na segunda década do século passado, após um período de pouco peixe nas águas e nas linhas e redes de pesca dos homens do mar. Daí, pescadores da Colônia do Rio Vermelho, ligados ao culto afrobaiano fizeram promessas à Deusa das Águas, bateram atabaques, dançaram, cantaram e arriaram presentes no mar pedindo proteção e fartura. Dali em diante, a pesca foi farta e a festa virou tradição, com o povo em romaria fazendo seus pedidos, agradecendo e deixando seus presentes nos balaios para que os pescadores levassem ao alto mar, em homenagem a ela, Iemanjá, Janaína, Princesa de Aiocá… A Rainha do Mar de tantos nomes cultuada em várias partes do planeta desde as antiguidades.

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Minha Sereia, Rainha do Mar

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Pierre Fatumbi Verger, em seu livro ‘Orixás’, necessária abordagem sobre a religiosidade afrobaiana, ensina que o nome Yemanjá deriva de Yèyé omo ejá (‘Mãe cujos filhos são peixes’), orixá ou divindade dos Egbá, uma nação de língua iorubá que viveu na região entre Ifé e Ibadan onde fica o rio Yemoja – África sub-saariana, atual Nigéria.

Mas, no início do século XIX, as constantes guerras entre nações iorubás levaram os Egbá a emigrar na direção oeste, para Abeokutá, cidade onde há um templo dedicado a Iemanjá, divindade cultuada no Brasil e em Cuba.

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Seu axé é assentado sobre pedras marinhas e conchas, guardadas numa porcelana azul. O sábado é o dia da semana que lhe é consagrado, juntamente com outras divindades femininas. Seus adeptos usam colares de contas de vidro transparentes e vestem-se, de preferência, de azul claro’.

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Manifestada em suas iaôs, Iemanjá dança imitando as ondas do mar e é saudada aos gritos de ‘Odò Iyá!’. No Brasil é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Integrantes do afoxé Filhos de Gandhy levam os presentes para os barcos. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

Festa de Pescador

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Sobre a festa popular do Rio Vermelho, Pierre Verger a fotografou nos anos 1950 e também a descreveu, assim:

A festa do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares do ano, atraindo à praia do Rio Vermelho uma multidão imensa de fiéis e de admiradores da Mãe das Águas. Iemanjá é frequentemente representada sob a forma latinizada de uma sereia, com longos cabelos soltos ao vento. Chamam-na, também, Dona Janaína ou, mesmo, Princesa ou Rainha do Mar.

Neste dia, longas filas se formam diante da porta da pequena casa construída sobre um promontório, dominando a praia, no local onde, nos outros dias do ano, os pescadores vêm pesar os peixes apanhados durante o dia. Uma cesta imensa (balaio) foi instalada de manhã, logo cedo, e começa então um longo desfile de pessoas de todas as origens e de todos os meios socais, trazendo ramos de flores frescas ou artificiais, pratos de comida feitas com capricho, frascos de perfumes, sabonetes embrulhados em papel transparente, bonecas, cortes de tecidos e outros presentes agradáveis a uma mulher bonita e vaidosa. Cartas e súplicas não faltam, nem presentes em dinheiro, assim como colares e pulseiras. Tudo é arrumado dentro da cesta, até que, no final da tarde, ela está totalmente cheia com as oferendas, as flores colocadas por cima.

O presente para Iemanjá, transformado numa imensa corbelha florida, é retirado com esforço da pequena casa e levado, em alegre procissão, até a praia, onde é colocado num saveiro. O entusiasmo da multidão chega ao seu máximo; não se escutam senão gritos alegres, saudações a Iemanjá e votos de prosperidade futura. Uma parte da assistência embarca a bordo dos saveiros, barcos e lanchas a motor. A flotilha dirige-se para o alto-mar, onde as cestas são depositadas sobre as ondas.

Segundo a tradição, para que as oferendas sejam aceitas, elas devem mergulhar até o fundo, sinal de aprovação de Iemanjá. Se elas boiarem e forem devolvidas à praia, é sinal de recusa, para grande tristeza e decepção dos admiradores da divindade’

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A tradição popular baiana, com todas as manifestações de fé, continuam preservadas, a despeito dos interesses turísticos e das velozes transformações desses tempos digitais. Muitos terreiros de candomblé fazem alvorada de fogos, cumprem rituais, arriam oferendas para Oxum nas águas doces e, depois, os adeptos vão às praias em romaria para entregar seus presentes e pedidos a entidade que habita as águas do mar.

Na colônia de pescadores do Rio Vermelho os atabaques batem desde o amanhecer. São entoados cantos em iorubá, banto e ijexá, os iniciados dançam e alguns incorporam o Orixá. Nesse dia de verão, Salvador praticamente para. A multidão, cada ano maior, faz festança nas ruas do bairro repletas de barracas, varando a madrugada.

É festa de rua da Bahia.

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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Re-ouvindo Caymmi:

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Minha sereia, rainha do Mar

O canto dela faz admirar

Minha sereia é moça bonita

Nas ondas do mar aonde ela habita

(Oh! Tem dó de ver o meu penar)

– Minha Sereia!

– Rainha do Mar …

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Os nomes de Iemanjá

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No extraordinário romance ‘Mar Morto’, Jorge Amado assim escreveu:

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Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes.

Cinco nomes doces que todo mundo sabe. Ela se chama Iemanjá, sempre foi chamada assim e esse é seu verdadeiro nome, de dona das águas, de senhora dos oceanos.

No entanto os canoeiros amam chamá-la de Dona Janaína, e os pretos, que são seus filhos mais diletos, que dançam para ela e mais que todos a temem, a chamam de Inaê, com devoção, ou fazem suas súplicas à Princesa de Aiocá, rainha dessas terras misteriosas que se escondem na linha azul que as separa de outras terras.

Porém, as mulheres do cais, que são simples e valentes… as mulheres da vida, as mulheres casadas, as moças que esperam noivos, a tratam de Dona Maria, que Maria é um nome bonito, é mesmo o mais bonito de todos, o mais venerado, e assim dão a Iemanjá como um presente, como se lhe levassem uma caixa de sabonetes à sua pedra no Dique.

Ela é sereia, é a mãe-d’água, a dona do mar, Iemanjá, Dona Janaína, Dona Maria, Inaê, Princesa de Aiocá. Ela domina esses mares, ela adora a lua, que vem ver nas noites sem nuvens, ela ama as músicas dos negros’…

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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Caminhos do Mar

(Essa canção que segue foi tema da novela ‘Porto dos Milagres’, da Tv Globo, inspirada em Mar Morto, romance de Jorge Amado; é uma composição de Dorival Caymmi, de seu filho Danilo e de Dudu Falcão):

Rainha do Mar

Yemanjá, Odoiá,

Odoiá, rainha do mar

Iemanjá, Odoiá

Odoiá, rainha do mar

O canto vinha de longe

De lá do meio do mar

Não era canto de gente

Bonito de admirar

O corpo todo estremece

Muda a cor do céu, do luar

Um dia ela ainda aparece

É a rainha do mar

Iemanjá, odoiá, odoiá, rainha do mar

Iemanjá, odioá, odoiá, rainha do mar

Quem ouve desde menino

Aprende a acreditar

Que o vento sopra o destino

Pelos caminhos do mar

O pescador que conhece

As histórias do lugar

Morre de medo e vontade

De encontrar Iemanjá

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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zedejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (autor dos textos dos livros ‘Carybé & Verger – Gente da Bahia’ e do seguinte ‘Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia’, da trilogia ‘Entre Amigos’, criada pela Fundação Pierre Varger e pela Solisluna Design Editora, lançados em 2008 e 2009.)

30jan/2010.

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