UMA UTOPIA DE LUGAR

Ilustração de GENTIL

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texto de MARCELO FERRAZ*

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Podemos afirmar com segurança que, dos anos 1960 para cá, nossas grandes cidades só pioraram, e muito: no trato do espaço público, no conforto necessário à vida gregária, enfim, retrocedemos em matéria de urbanidade.

Paradoxalmente, nossas cidades nunca deixaram de simbolizar a esperança de uma vida melhor, com trabalho, escola, futuro para os jovens, acolhendo levas e levas de migrantes do campo e de pequenas comunidades.

Mas a realidade bate forte: esse crescimento descontrolado e perverso nas relações de poder e da posse da terra, esse inchaço aliado à ignorância na gestão do espaço urbano transformou a cidade promessa de “céu” em verdadeiros infernos de violência e tragédias.

Temos um grande passivo a ser recuperado se ainda acreditamos na possibilidade de uma vida cidadã. Os grandes planos diretores das últimas décadas ficaram no papel por absoluta falta de sensibilidade política de ouvir, ver e propor a partir das necessidades e da realidade da vida de uma sociedade plural.

Cada cidade, com sua história, sua geografia física e humana, suas características e originalidades apontam saídas e soluções diferenciadas para seus problemas urbanos. Não há modelo pronto. Salvador, com toda sua exuberância e “saber de experiência feito”, tem muito a nos ensinar. Devemos partir desse conhecimento, dessa lição de fazer cidade para atacar qualquer problema urbano atual.

Neste momento, uma onda de novas ações urbanísticas se abate sobre nossas capitais em função da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. E Salvador, por seu potencial turístico, está nesse foco. Se a realidade que se nos apresenta é essa – oportunidade de mudar nossas cidades em função de efemérides –, vamos lá; se não planejamos e cuidamos de nossas cidades como deveríamos cuidar – sempre, no dia a dia –, vamos lá. O importante é não criarmos mais simulacros de cidades.

Estamos apresentando publicamente, dentro de uma ação mais ampla da prefeitura municipal, um projeto ambicioso para reformar toda a Cidade Baixa de Salvador, uma proposta que vai do Campo Grande (Forte São Pedro) até a Ribeira; da borda da água até o topo da cumeada do frontispício. Não é um plano, é um projeto urbano que pode ser resumido em seis pontos:

– Abertura da frente marítima da cidade para toda a população;

– Criação de espaços públicos qualificados visando a acessibilidade universal e o conforto urbano;

– Recuperação urbanística e paisagística de toda a encosta – o frontispício como a mais forte imagem da cidade;

– Criação de sistema eficiente de transporte público que articule todos os setores da Cidade Baixa e estabeleça novas conexões com a Cidade Alta;

– Incremento da habitação com a recuperação e ocupação dos edifícios e áreas degradadas e/ou subutilizadas;

– Implantação de rede de equipamentos de grande porte destinados à cultura, ao esporte e ao lazer da população, as “cidadelas sociais”.

É um projeto viável. E como motor desse projeto é preciso ter em mente o que foi Salvador nos séculos passados até os anos 1950, tomar a sabedoria arquitetônica e urbanística dos nossos antepassados como espelho, ou desafio às novas intervenções. E isso deve nos encorajar a propor e tomar decisões.

Acreditamos que, com uma ação integrada do poder público com o poder privado e a sociedade civil podemos mudar uma cidade maltratada e ofendida por décadas de negligência e abandono.

É com esse espírito que nosso grupo de arquitetos – Alexandre Barreto, Cícero Ferraz Cruz, Francisco Fanucci, Marcio Targa, Maurício Chagas, Nivaldo Andrade, Sergio Ekerman e eu –, convidado a encarar este desafio, elaborou um projeto preliminar para a cidade baixa, e que a partir de agora se torna público para ser discutido, criticado e aprimorado. Não é um sonho ou devaneio urbanístico, mas contém o sonho de uma cidade melhor e para todos. Com a comunidade soteropolitana, a palavra.

Parafraseando Antonio Risério em seu brilhante ensaio sobre Dorival Caymmi, que a Cidade da Bahia possa voltar a ser “uma utopia de lugar”.

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*Marcelo Ferraz, arquiteto – Brasil Arquitetura

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