Pacotes urbanos nos engasgam

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texto de zedejesusbarreto

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Leio, ouço e vejo nas folhas, nos blogs, nas tevês as fotos e animações dos pacotaços de projetos e obras urbanas ‘Salvador Capital Mundial’, coisa nunca vista por essas bandas desde que me entendo por gente. E quedo-me entalado. São viadutos, passarelas, pontes, avenidas, nova zona portuária, outra cidade baixa, parques, requalificações de zonas inteiras, redes integradas de transportes… ufa! Não consegui mastigar tudo, tampouco deglutir, digerir, ruminar…

No ritmo que anda o metrô de légua e meia, pergunto-me feito mineirim desconfiado: ‘Uai, esses terem todo é pra quando?’

E eu, um pacato cidadão, queria só do poder público um tratamento decente para a cidade e seus moradores, com transporte digno, passeios livres, praias e ruas limpas, jardins e monumentos cuidados, lixo coletado todo dia e reciclado, preservação de áreas verdes e nascentes, escola pública de qualidade para todos, postos de saúde atendendo de verdade 24 horas, segurança pra ir e vir sem medo… essas bobagens.

Mas, homi quá! Estão me empurrando goela abaixo um pacote de maravilhas que nunca dantes havia imaginado. Tô assoberbado de tanta grandeza e boniteza que haverei de um dia, Deus querendo, haverei sim de desfrutar. Oh, minha cidade amada!

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E olha que nem chegou o carnaval ainda e, ano de eleição, o pessoal do horário eleitoral gratuito nem começou a imaginar e criar coisas assim bonitas pra entreter a gente com tanta criatividade, mostrando tanta coisa que se fez e muito se irá fazer sem que a gente nem assunte direito, pois é só querer ver, homi creia!

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Bem, se os pacotaços são viáveis ou não, se vão alavancar ou prejudicar as pessoas que vivem na cidade, se vão custar fortunas nunca vistas, se não se sabe bem o custo deles e muito menos quem vai bancar o furdunço todo… Bem, isso são meros detalhes dessa gente do contra, desses atrasados e velhos que nem eu, que nem acreditam mais na força e na capacidade dos grandes líderes desta nação, desta Bahia de Ruy, de JJ Seabra, Mangabeira, Balbino etc… (pra não falar alguns outros nomes agora malditos, Deus é mais e o sangue de Jesus tem poder!).

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Mas, se é tudo pela Copa do Mundo 2010 na Bahia… vou torcer, porque a bola (e as boladas) é poderosa. Vamos entrar nos trilhos, pô! Prometo.

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Trocando de assunto, leio nas folhas que o Forum Social Mundial Temático em Salvador virou um debate ‘chapa-branca’ esvaziado pela ausência do presidente Lula, de nomes internacionais e até de ‘estrelinhas’ menores da esquerda brasileira como o líder Stédile do MST e a ex-senadora Heloísa Helena, ou a candidatíssima do PV à presidência Marina Silva. Cadê?

O Forum, por aqui, teria perdido completamente o seu caráter popular e reivindicatório. Tornou-se um encontro de militantes e sindicalistas, ôba-ôba, de olho das urnas. Quem falou foi a coordenadora de comunicação do evento, Edileusa Vida, explicando a presença massiva de representantes do governo e a ausência de vozes conflitantes:

Muitos ficaram de fora pela falta de peso político, se não têm base política nada posso fazer. Os nomes aprovados são os que possuem uma militância”.

Ah, sim, entendo. Panelinhas à parte, o povão continua pastando… nem chega perto, nem sabe o que está acontecendo nos hotéis e pontos chiques da cidade.

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Lembro-me de um dito que vi escrito nos anos 80 do século passado, nos muros da cidade aflita: ‘Quem milita se limita!’

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A patota militante petista estendeu no bambual que faz o corredor de entrada e saída do aeroporto de Salvador, o Dois de Julho, algumas faixas saudando os participantes do fórum na cidade. Um desrespeito. Às leis municipais, pois ali não se pode estender faixas; ao bom senso e ao meio ambiente, um absurdo; e também um desrespeito à cultura afrobaiana, já que o bambual é um local sagrado, dedicado a Oxalá (o do pano branco), a Oxalufã (o Oxalá jovem e guerreiro que rege o ano de 2010, de acordo com o povo de santo de nação Nagô/Ketu/Ioruba). Mas quem liga pra essas baianices desse povo?

Não basta o vermelho que tanto macula a Lavagem do Bonfim?

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Quanto aos poderes municipais, que deveriam fiscalizar o local e impedir a colocação ou fazer a retirada das faixas no bambual (bambuzal), que podemos esperar? Ora, todos os postes das grandes avenidas da cidade estão apinhados de cartazes/propagandas dos patrocinadores do carnaval e com a marca carimbada da prefeitura. Não notaram?

Vamo que vamo! Tudo é carnaval.

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Releio e medito o poeta Mário Quintana:


Eu nada entendo da questão social

Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal

Que não é bem o mal de toda gente’

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Ou, quem sabe, melhor é repetir o poeta e filósofo de rua conhecido como Gigica do Maciel:

Salvador não salva ninguém… mas, a Bahia é a Bahia!’

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zedejesusbarreto, jornalista e escrevinhador

29jan/2010.

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