BAIANICES – LAVAGEM DO BONFIM

 

Concentração em frente à Igreja da Conceição da Praia antes de o cortejo da Lavagem do Bonfim partir em direção à Colina do Bonfim. Foto de LUCIANO DA MATTA | Agência A Tarde 17.1.2008

Quem tem fé  

vai de branco 

e vai a pé  

. 

texto de zédejesusbarrêto // 11jan/2010) 

. 

A grande festa baiana de janeiro é a Lavagem do Bonfim, uma tradição do século XVIII, que para a cidade e ainda encanta pela beleza e pelas manifestações de cultura e fé únicas do povo, apesar do oportunismo dos políticos, ávidos por visibilidade e votos, sobretudo em ano de eleição. 

Mas a Festa da Lavagem é, de origem e de fato, uma longa (7,5 quilômetros), contrita e festiva caminhada em forma de cortejo que, por tradição do século XX, sai por volta de 9 horas da manhã (quinta, dia 14) da frente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia (bem defronte da antiga Rampa do Mercado, na parte baixa do Elevador Lacerda) até o pátio às portas da Igreja do Nosso Senhor Bom Jesus do Bom Fim, o Padroeiro da Bahia, na Colina Sagrada que fica na península de Itapagipe.  

 

O cortejo, que dura horas e leva um mar sem fim de pessoas vestidas de branco, de todas as etnias e origens, é liderado por dezenas de “baianas” típicas levando jarros d’água com flores, na cabeça, numa cena que lembra a festa das Águas de Oxalá, celebrada nos terreiros nagôs do candomblé baiano e dedicada ao Orixá maior do panteón afro-baiano, a entidade do pano branco. Elas são acompanhadas de cavaleiros, ciclistas, autoridades, políticos, afoxés, grupos culturais, musicais e folclóricos e levas de gente a caminhar com alegria. “Quem tem fé vai a pé”, repetem os mais fervorosos.  

 

 

 
 
 
 
 
 
 

Cortejo chega à Sagrada Colina. Foto de Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.1.2009

Com a chegada dos grupo de “baianas” e autoridades na colina, diante da igreja, a multidão emocionada canta o hino do Senhor do Bonfim, enquanto faz-se a lavagem simbólica do adro do templo e as “baianas” derramam um pouco da água de cheiro de seus potes na cabeça dos mais próximos, uma “graça” para os que acreditam.  

. 

História 

A origem da festa, de acordo com os estudiosos, remonta aos tempos da escravidão. A devoção ao Senhor Bom Jesus do Bom Fim veio de Portugal com o capitão de mar e guerra Theodózio Rodriques de Farias, em 1754.  

Salvo de uma tempestade em alto mar e agradecido pelo “milagre”, ele trouxe uma imagem de madeira do Bom Jesus do Bonfim semelhante a da Igreja de Setúbal (Portugal) e, na colina mais alta de Itapagipe, de frente pro mar, criou a irmandade e mandou construir o templo.  

Naquela época, eram poucas as casas de veraneio localizadas naqueles sítios distantes do centro urbano de Salvador. 

O capitão morreu em 1757 e o corpo está enterrado na própria Igreja do Senhor do Bonfim. Outro incremento às comemorações foi a decisão do Papa Pio VII de determinar a celebração da festa em ato público da Igreja Católica, em 1804. A partir de então romarias de devotos chegavam de diversas partes do estado para homenagear o Senhor da Colina.  

Para a festa anual da igreja católica em devoção ao “milagroso padroeiro”, celebrada no terceiro domingo de janeiro, fazia-se necessário lavar o interior do templo, sacudir e arrumar os altares. Os senhores da irmandade organizavam a faxina, a lavagem literal do templo, na quinta-feira antes da festa dominical, trabalho geralmente feito por escravos e voluntários, que apanhavam água em fontes, bicas e ribeiras distantes e subiam a colina com potes e vasilhas d’água na cabeça, para a limpeza geral. Esse cortejo então se fazia com cantos festivos, às vezes em ioruba ou banto, e a festança foi cada ano atraindo mais e mais devotos que armavam suas barracas e festejavam o santo milagroso da Bahia com muita comilança, samba-de-roda e brincadeiras. Os mais abastados, em suas casas de veraneio próximas, recebiam os convidados em dias de celebrações, orações, danças, cantorias e muita comilança.  

Com o passar do tempo e a popularização (profanação) da festa católica, as autoridades da Igreja trataram de fechar as portas do templo aos “exaltados festeiros”, mas a tradição e a alegria da “lavagem” foram mantidos e certas manifestações de devoção e fé preservadas. 

A despeito das mudanças naturais dos tempos e das circunstâncias históricas, a Lavagem do Bonfim continua sendo uma bela e concorridíssima manifestação popular. É tida como a segunda maior festa do verão da Bahia, pela quantidade de gente, logo atrás do Carnaval. Na segunda-feira seguinte a folia continua na Ribeira, a poucos quilômetros, na beira mar. Era chamada de segunda-feira gorda, uma prévia do carnaval, muvuca de bebida, comida e muita roda de samba na metade do século passado. A festa da Ribeira emagreceu, mas alguma folia popular resiste, apesar da violência nas ruas do bairro. 

 

 
 
 
 
 
 
 

Lavagem do Bonfim. Foto de ELÓI CORRÊA | Agência A Tarde 15.1.2009

 

Religião 

A festa religiosa católica começa com as novenas, todas as noites, logo depois do dia de Reis, o templo cheio.  

O novo pároco da basílica do Bonfim, no momento da Lavagem, as portas do templo fechadas à multidão, promove uma bênção do alto da uma das janelas frontais do templo com uma réplica da imagem sagrada do padroeiro, enquanto o povo canta o hino. É um gesto de reaproximação e chamada dos novos dirigentes católicos que num certo período da história recente chegaram a condenar a festa popular, ignorando as manifestações do povo.  

A missa solene do domingo, o dia litúrgico da festa, é sempre celebrada pelo Cardeal Primaz da Bahia, o arcebispo de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo. Tem sido missa-campal nos últimos anos, em virtude da quantidade de fiéis que toma toda a praça do Bonfim, devoção e fé maior desse povo mestiço baiano.  

Neste ano de 2010 também acontecerá uma procissão, com a imagem do padroeiro, que sairá do largo de Roma em direção à colina sagrada e dará três voltas em torno da Igreja.
 

 

 

** 

O Hino do Senhor do Bonfim 

. 

Glória a Ti neste dia de glória 

Glória a Ti Redentor que há cem anos  

Nossos pais conduziste à vitória  

Pelos mares e campos baianos  

. 

Dessa sagrada colina 

Mansão da Misericórdia 

Dai-nos a Graça Divina  

Da Justiça e da Concórdia 

. 

Glória a Ti nessa altura sagrada 

És o Eterno farol, és o guia 

És, Senhor, sentinela avançada  

És a guarda imortal da Bahia  

. 

Dessa sagrada colina  

Mansão da Misericórdia 

Dai-nos a Graça Divina 

Da justiça e da concórdia  

.  

Aos Teus pés que nos deste o direito 

Aos teus pés que nos deste a Verdade 

Trata e exulta num férvido preito  

A alma em festa da Tua cidade 

. 

Dessa sagrada colina 

Mansão da Misericórdia 

Dai-nos a Graça Divina  

Da justiça e da concórdia” 

. 

(João Antonio Wanderlei e Peiton de Vilar) 

. 

Sincretismo 

Nos obscuros tempos da escravidão, quando os negros eram os encarregados de fazer a lavagem e a limpeza do templo, a mando dos seus senhores, o culto e devoção ao Senhor do Bonfim, o Cristo crucificado, foi imediatamente identificado por eles com o culto dos terreiros a Oxalá, divindade maior dos nagôs, filho de Olorum (ou Olodumaré), pai da criação. Oxalá é a divindade do branco, da paz.  

A ‘obrigação’ da lavagem anual do templo ajudou nesse sincretismo, também identificada com o ritual das ‘águas de Oxalá’, liturgia viva e celebrada ainda hoje nos maiores terreiros de candomblé da Bahia.  

A escravidão acabou no fim do século XIX, o sincretismo dos santos católicos com os orixás iorubanos não tem mais significado diante da liberdade de culto desses nossos tempos, mas a identificação entre o Senhor do Bonfim e Oxalá está arraigada no coração do povo baiano.  

Tem seus significados e há de se respeitar.  

. 

As águas de Oxalá 

Na madrugada da última sexta-feira de setembro, terreiros de nação ketu/nagô celebram as águas de Oxalá, uma cerimônia de rara beleza que tem suas raízes numa das mitologias do povo Iorubá da mãe África. Conta-se que o velho pai (babá) Oxalá, preso por engano e humilhado, foi resgatado por Xangô, o rei de Oyó, que, em desagravo, ordenou silêncio absoluto no reino e que o velho fosse abrigado, banhado três vezes com águas puras e envolto em panos brancos.  

O ritual começa logo após a meia-noite e só acaba na alvorada de sexta-feira. Em cortejo, num silêncio quebrado apenas pelo som do adjá (chocalho), os filhos da casa, de torço e roupas brancas novas, vão à fonte três vezes encher suas quartinhas, levando-as ao barracão onde são depositadas água, comida e oferendas a Oxalá. Depois, os filhos reverenciam o velho pai, cantam e dançam para ele até o dia raiar. No domingo seguinte, à noite, as portas do grande salão de festas dos terreiros se abrem ao público; os atabaques tocam e os filhos dançam para o Orixá maior.  

Êpa- Babá!.  

* 

Os maiores e mais importantes terreiros de Candomblé de nação Keto/Nagô, de língua Iorubá, em Salvador, são a Casa Branca (Ilê Axé Ianassô), na avenida Vasco da Gama, fundado nos meados do século XIX; o Gantois (Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê), de 1849, localizado no bairro da Federação; e o Ilê Axé Opô Afonjá, na roça da Fazenda Grande do Retiro, fundado em 1910 e dedicado a Xangô.  

. 

O orixá do pano branco e da paz 

Oxalá, Orisanlá ou Obatalá, O grande Orixá ou O Rei do Pano Branco, ocupa uma posição única e inconteste do mais importante orixá e o mais elevado dos deuses iorubás. Foi o primeiro a ser criado por Olodumaré, o deus supremo.   

No Novo Mundo, na Bahia particularmente, Oxalá é considerado o maior dos orixás, o mais venerável e o mais venerado. Seus adeptos usam colares de contas brancas e vestem-se, geralmente, de branco. Sexta-feira é o dia consagrado a ele. Esse hábito de se vestir de branco na sexta-feira estende-se a todas as pessoas filiadas ao candomblé, mesmo aquelas consagradas a outros orixás, tal é o prestígio de Oxalá.  

É sincretizado na Bahia com a Senhor do Bonfim, sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais.  

Diz-se na Bahia que existem dezesseis Oxalás. Os mais conhecidos são Oxalufã, o Oxalá velho e sábio, e Oxaguian, o jovem guerreiro.  

O arquétipo de personalidade dos devotos de Oxalá é aquele das pessoas calmas e dignas de confiança; das pessoas respeitáveis e reservadas, dotadas de força de vontade inquebrantável que nada pode influenciar”.  

(Trechos do livro “Orixás – Deuses Iorubas na África e no Novo Mundo”, de Pierre Fatumbi Verger). 

 

Anúncios

Tags:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: