RUMO À SALVAÇÃO DA CIDADE DA BAHIA

Ilustração de BRUNO AZIZ

                       Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de LOURENÇO MUELLER

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Diz um ditado espanhol que mais sábio é o diabo por ser velho do que propriamente por ser diabo: o arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo publicou recentemente um artigo que mexeu com os leitores atentos deste jornal e pelo menos um se mobilizou no sentido da sugestão de que esse jornal assuma discutir a questão da cidade.

O arquiteto não é velho nem diabo mas foi sábio; brilhante também foi o artista gráfico Cau Gomez, ilustrador do artigo, que o fez fiel à ideia: a igual disputa do mesmo “guarda-chuva” pelo pobre e pelo rico.

Por dever de ofício e de leitor devo destacar que não tem sido o único a denunciar o abandono e o equívoco de percepção urbanística a que os governos das três esferas relegaram a nossa cidade/região.

Entre os artigos publicados neste jornal [A Tarde] sobre a questão – e pesquisei as últimas postagens do blog Jeito Baiano – têm destaque:

A violência apontada por zédejesusbarreto quando escreve que “…do Natal até o fim do ano aconteceram mais de 100 assassínios na Bahia. Nunca se viu. (“Sobre as ondas”, 31/12).

A inegável supremacia da cidade passada sobre a presente descrita por Agenor Gordilho Simões em 24/12: “A Salvador de outrora e a atual”.

O trânsito insano: “…Não precisamos continuar vivendo atropelos, assaltos, engarrafamentos (…) só porque nossas cidades não se adaptam às novas tecnologias e permitem que esse reizinho do consumo, o automóvel, tome o lugar de quase tudo… (“Ouçam os urbanistas”, 19/05).

A incompetência administrativa lembrada por Ormindo: …não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no estado capazes de formular políticas públicas… os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.”27/12:“ Crise urbana e crise do estado”.

O surrealismo implícito na aprovação de projetos na madrugada: “…não é linear o percurso de um fato urbanístico…os vereadores votam segundo interesses de grupos…”19/09: “ A cidade e a literatura.”

A dificuldade de compreensão pelos “novos gestores” do regional versus local na preocupação abrangente de Sylvio Bandeira em entrevista na revista Muito,19/12: …Salvador não tem muitas opções de crescimento. O principal problema é que não há um planejamento regional. Hoje, nenhum organismo pensa de forma conjunta a RMS [Região Metropolitana de Salvador], integrando o Estado, os municípios e o governo federal. O Estado tem sido muito eficiente em captar esses investimentos, em ‘vender’ a região, mas não em planejá-la.”

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Esses assuntos nos levam a propor uma agenda de discussões neste ano de eleição com a participação da sociedade civil.

A TARDE se me afigura o fórum apropriado para essas discussões e um campo mais ou menos neutralizador de ideologias que vicejam facilmente no seio de estruturas institucionais como governo, empresa, terceiro setor e até universidade.

Como organizar eixos temáticos para objetivar os discursos e as discussões, selecionar palestrantes para se pronunciarem sobre os assuntos referidos acima já será uma tarefa assumida pelo jornal.

Poderíamos avançar três eixos, que deverão ser tratados ao nível das políticas públicas sempre integradas com a própria urbanização regional e construção de um novo modelo de cidade:

Infraestrutura – Abastecimento de água e esgotamento sanitário pensado em conjunto com a macro-drenagem e a contenção de encostas. Sistema viário revisto em função de uma nova matriz de mobilidade, que privilegie o transporte público de massa, o pedestre, o ciclista, dê espaço para os portadores de deficiência e minimize, sobretudo nos centros de cidade, o papel do automóvel.

Habitação popular – A definição, a partir de um plano diretor metropolitano, das novas áreas de crescimento das cidades da região e do uso e ocupação do solo indicativos da expansão da cidade-sede regional e suas limitações.

Cultura – A revisão de conceito no que concerne às atividades artísticas ocorrentes e à preparação das mesmas para o casamento da arte com o urbanismo.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto e urbanista. muellercosta@gmail.com

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