JOÃO GILBERTO, O MELHOR DISCO DE 2009

texto de PAQUITO*

(Reproduzido da revista digital Terra Magazinehttp://terramagazine.terra.com.br/ –, editada por Bob Fernandes)

De Salvador (BA)

Últimos dias do ano, tempo de natal e compras, encontro, por acaso, em uma livraria de shopping, Tuzé de Abreu, grande músico baiano e boa-praça hors-concours. A conversa vai por assuntos vários e cai em nosso artista preferido. E ele concordou comigo, em tempo de retrospectivas: o melhor Cd do ano não foi nem lançado oficialmente, não é ao menos um Cd – ou é, dependendo do ponto de vista do freguês – não teve vídeo-clip nem entrevista do artista.

O melhor lançamento musical do ano não foi gravado nem ao menos este ano. Na verdade, tem cerca de 50 de idade, mas nunca tinha sido levado a público anteriormente: João Gilberto na casa de Chico Pereira, que foi pra internet em fevereiro, e resulta de uma sessão na casa do fotógrafo Chico Pereira, em 1958, antes de João ter feito o Chega de saudade, marco inaugural da Bossa Nova.

[NOTA DO EDITOR – Ouça 29 faixas do disco no site LUIS NASSIF ON LINE: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/02/07/raridades-de-joao-gilberto/]

É o melhor do ano, pois mostra João Gilberto interpretando quase todo o repertório do LP Chega de saudade em performances irrepreensíveis, além de canções presentes em seus discos e shows dois, três, vinte anos depois, caso de Caminhos cruzados, de Jobim e Newton Mendonça, do LP Amoroso, de 1977, e ainda músicas inéditas em sua voz, caso de João Valentão, de Caymmi, Chão de estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, Mágoa, de Jobim e Marino Pinto, O bem do amor, de Carlos Lyra e, de quebra, uma valsa de João Donato.

A internet bombou em fevereiro, blogs à mancheia noticiaram o fato, o arquivo foi disponibilizado pra download, logo depois retirado, mas já estava feito. O som do violão está um tanto distorcido por conta da tomada de som, apesar de ter sido melhorado, mas a voz está lá, naquele amálgama de densidade e leveza que não nos faz ter dúvidas: antes de João Gilberto, o que Tom Jobim e Carlos Lyra compunham era samba-canção. João transformou tudo isso e muito mais em bossa-nova, que nada mais é do que samba, mas com seu toque, sua batida, sua economia e ecologia musical, essencial, simples, mais eloquente ainda hoje, quando, principalmente na Bahia, a tônica é a poluição sonora, com nossos ouvidos colonizados compulsoriamente, sem que possamos fazer qualquer coisa.

Nenhum intérprete, na história da canção popular, inspirou tantos compositores, e de maneira tão diversa. Sem ele, não haveria o raciocínio que levou ao Tropicalismo, e Roberto Carlos não faria tanta diferença como cantor entre seus pares anglo-americanos do iê-iê-iê. Jorge Ben, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano, Edu Lobo, Raul Seixas, sem falar nos Novos Baianos, chamados seus filhos em documentário recente, todos o dizem determinante para suas carreiras, o que equivale dizer que, até para o rock brasileiro, seu canto irmão do silêncio foi importante.

E João está à vontade nestes registros, como dizem dele os que já o ouviram tocar de perto, variando pouco, improvisando sutilmente. João conversa, fala de Caymmi – “é danado, você vê que ele é um rapaz sensível” – após cantar Doralice, dele com Antônio Almeida. Diz, imagine, que não sabe solar – “não tenho mão pra tocar” – e, ao ser perguntado sobre quem seria o maior violonista daquele período, cita “Jacó, rapaz de São Paulo, tem 20 anos”. Chico Pereira, provavelmente, pergunta: “e Baden Powell?”, ao que João responde: “Jacó é mais sensível”. Quem terá sido esse Jacó? Onde andará esse amigo imaginário de João Gilberto, eterno homenino a destilar e depurar nossa sensibilidade, aparentemente sem esforço?

Seu canto e violão estão fresquinhos, recém-inventados, feito a brisa vespertina baiana, que não dá bandeira de que viajou por uma pá de continentes antes de chegar ao destino. Possivelmente o próprio João jamais aprovaria o lançamento oficial de uma sessão de gravação tão caseira, mas, para quem nunca privou de seu convívio, é um fato e tanto ouvir as histórias e canções que ele tornou suas, sem o intermédio das salas dos estúdios de gravação que, talvez, o inibam de mostrar mais de tudo que ele sabe. Só nos resta fazer silêncio e ouvir.

 

*Paquito é músico e produtor (anjo.paquito@terra.com.br)

-o-

NOTA DO EDITOR – Tomei a liberdade de reproduzir este artigo de Paquito publicado pela Terra Magazine depois de receber e-mail de Tuzé de Abreu, através do qual ele me deu a honra de enviar cópia de mensagem enviada ao autor do texto. O e-mail de Tuzé que contém o link para acessar o artigo de Paquito termina assim:

 

Paquito- Obrigado pelas palavras. Você esqueceu de citar a interpretação excelente de Beija-me, e o solo de violão jazzístico.

-o-

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A ANTIGA GRAVAÇÃO CASEIRA DE JOÃO

Post de 5.2.2009 do site SOM BARATO (www.sombarato.org/node/658):

texto de: Ronaldo Evangelista

Surpresa! Vazou essa semana na blogosfera uma das gravações caseiras lendárias de um João Gilberto pré-disco, ali por 57-58. Feita na casa do fotógrafo Chico Pereira (co-responsável pelas lindas e cultuadas capas da Elenco), a gravação tem mais de 20 músicas curtas – algumas nunca gravadas por ele em disco, como Beija-me e João Valentão – e ainda conversas e atmosfera.

Quem recupera as gravações, com ajustes possíveis, é o blog Toque Musical, de raridades brasileiras pouco óbvias e sempre interessantes. Já circulam por aí mp3s dos primeiros compactos do João e do show O Encontro, mas é a primeira vez que vejo vir a público qualquer das gravações efetivamente caseiras, feita entre amigos em gravadores antepassados dos portastudios.

E estamos em 1958 – um ano antes de João gravar seu álbum de estreia, portanto. Mesmo ano em que participou tocando violão (e dando pitacos nem sempre benquistos) no disco Canção do Amor Demais, tido como o movimento inicial do movimento.

João já sabia de tudo.

*

No indispensável Chega de Saudade, Ruy Castro conta mais:

Uma das pessoas que João conhecera com Roberto Menescal e Carlinhos Lyra fora o fotógrafo da Odeon, Chico Pereira. Pela quantidade de hobbies a que Chico dispensava total dediacação – som, jazz, aviação, pesca submarina –, era difícil imaginar como lhe sobrava tempo para fazer um único clique como fotógrafo. Mesmo assim, Pereira conseguia dar conta das fotos de todas as capas da Odeon. Menescal era seu companheiro de pesca e os dois eram também irmãos em Dave Brubeck. Quando João Gilberto cantou pela primeira vez em seu apartamento, na rua Fernando Mendes, levado por Menescal, Chico experimentou a mesma sensação que tivera ao conhecer o fundo do mar. Com a vantagem de que a voz e o violão de João Gilberto podiam ser capturados. Não perdeu tempo: assestou um microfone, alimentou seu gravador Grundig com um rolo virgem e deixou-o rodar. Foi a primeira das muitas fitas que gravaria com João Gilberto em sua casa.

*

Antes mesmo que o 78 de Chega de Saudade invadisse as rádios – antes mesmo de ter saído o disco –, fitas domésticas de rolo, contendo a voz e o violão de João Gilberto já circulavam pela Zona Sul. Circulavam é força de expressão. Poucos possuíam gravadores naqueles tempos pré-cassete, o que limitava a audiência de uma fita aos amigos do dono do gravador. Uma dessas fitas tinha sido gravada pelo fotógrafo Chico Pereira, felizmente um homem cheio de amigos; outra, pelo cantor Luís Cláudio. Em quase todas João Gilberto cantava Bim Bom, Ô-ba-la-lá, Aos pés da cruz, Chega de Saudade e coisas que nunca gravaria em disco, como Louco, de Henrique de Almeida e Wilson Batista, e Barquinho de Papel, de Carlinhos Lyra.

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Agradeçam ao camarada do blog Toque Musical por ter ido ao limbo encontrar esta raridade!!

Vida longa à pesquisa e ao compartilhamento das ideias e memes!

Lista das Músicas:

Track # Title Play time
1 Um Abraço no Bonfá 02:40
2 Unknown Title 02:27
3 Chega de Saudade 01:54
4 Bim-Bom 01:23
5 Ho-Ba-La-La 02:14
6 É Luxo Só 01:47
7 Desafinado 01:44
8 Saudade Fez Um Samba 01:48
9 Unknown Title 01:48
10 Esse Seu Olhar 02:06
11 A Felicidade 01:59
12 Preconceito 02:30
13 Caminhos Cruzados 01:50
14 Mágoa 01:43
15 Lobo Bobo 03:24
16 Brigas Nunca Mais 01:46
17 Unknown Title 02:45
18 Louco 02:16
19 Trevo de Quatro Folhas 00:55
20 O Pato 01:30
21 Aos Pés da Cruz 01:18
22 Rosa Morena 01:30
23 João Valentão 02:06
24 Chão de Estrelas 02:15
25 Conversation 01:06
26 Nos Braços de Isabel 01:36
27 Conversation 00:50
28 La Vem a Baiana 02:14
29 Conversation 00:19
30 La Vem a Baiana 01:39
31 Conversation 00:33
32 Doralice 01:49
33 Conversation 00:22
34 Doralice 00:50
35 Conversation 01:40
36 Você Não Sabe Amar 02:21
37 Beija-Me 02:53
38 Conversation 03:24

Ficha Técnica:

Gravação caseira realizada por Chico Pereira em sua residência.

Este “disco” (que na verdade são registros do que parece muito com um sarau) precede ao marco zero da Bossa Nova Canção do Amor Demais. E é uma espécie de raio-X dos três primeiros discos de João Gilberto.

.

-) MATÉRIA E COMENTÁRIOS DE LUIS NASSIF NA FOLHA DE S. PAULO (7.2.2009):

Raridades de João Gilberto

Engenheiro de som francês “libera” gravações caseiras divulgadas por blogs

Antes de se espalhar pela internet, as gravações caseiras de João Gilberto passaram pelas mãos de um sueco, um francês e alguns brasileiros.

Com a cópia das gravações de João Gilberto feitas na casa do fotógrafo Chico Pereira, em 1958, o sueco Lars Crantz procurou o músico e engenheiro de som francês Christophe Rousseau para remasterizar o material. Rousseau o fez e acabou por também divulgar os registros para o blog Toque Musical (toque-musical.blogspot.com), dedicado a raridades da música brasileira.

Na última segunda-feira, o blog disponibilizou o primeiro link para download do arquivo das gravações, contextualizando os registros.

Dois dias depois, o blog Vitrola (vitrola.blogspot.com), do jornalista Ronaldo Evangelista, publicou post sobre o assunto no qual remetia ao Toque Musical. Rapidamente, o link e a história se espalharam por diversos blogs relacionados à cultura, como Trabalho Sujo (oesquema.com.br/trabalhosujo).

Ontem pela manhã, o link para download do Toque Musical já não estava mais disponível. No entanto, com uma busca pelos nomes João Gilberto e Chico Pereira na internet era possível encontrar diversos caminhos para o download.

No início da noite, o Toque Musical saiu do ar. A Folha conversou por telefone com o dono do blog, que preferiu não se identificar. Ele demonstrava receio em relação à repercussão da história.

A Folha não conseguiu localizar Cláudia Faissol, atual empresária de João, para saber se tentará fazer algo contra a divulgação das gravações.

Comentário

É um documento histórico que comprova algo que venho sustentando há muitos anos: a enorme influência do samba-choro e do samba sincopado no balanço de João Gilberto.

Nos braços de Isabel, é gravação de um dos reis do sincopado e do samba-choro, Joel e Gaúcho.

Comentário 2

Depois da caminhada matinal, e de ter ouvido o disco quase todo. É um retrato extraordinário do universo musical de João Gilberto. Tem o violão à Garoto, a bossa nova de Tom, Caymmi, os sambas-choros, o samba-canção, a seresta. E uma declaração apaixonada a Jacob do Bandolim.

Tenho a impressão de que esse acervo liquida uma discussão besta, que vem do Balanço da Bossa e do livro do Ruy Castro (que já reviu sua posição), mas foi fundamentalmente alimentado pelos musicólogos da USP e pela influência de Ronaldo Bôscoli: a idéia de que a bossa nova foi uma ruptura, quando foi uma síntese do que de melhor a música brasileira tinha produzido até então.

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