GLAUBER REVISITADO

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de JC TEIXEIRA GOMES*

 

Documentários em geral são relatos de fatos projetados no tempo. Narram detalhes de acontecimentos passados e trechos de vidas. Raros são os que transcedem a condição narrativa, para alcançar a dimensão poética. E foi isto justamente que Paula Gaitán obteve, ao focalizar no belíssimo filme O Diário de Sintra o final da vida do seu marido famoso, o cineasta Glauber Rocha.

Paula Gaitán foi a última mulher de Glauber e com ele teve dois filhos, Ava e Erik. Era colombiana. Glauber, amoroso incorrigível, embora fiel e não leviano, teve no curso da sua curta vida um harém internacional de belas fêmeas, que incluiu ainda, além da colombiana Paula, a cubana Silvia, a francesa Juliete e várias brasileiras.

A todas amou com devoção e tumulto, pois, tal como em seus filmes vulcânicos, o amor era para ele uma fonte de perturbação e tormentos. Toda a sua vida foi um exercício continuado de anseios descontrolados, infindáveis experiências emocionais e estéticas, a tentativa do impossível equilíbrio, margeando o apelo fascinante dos abismos.

De um modo geral, Glauber não conheceu o repouso. Mas houve uma fase menos frenética da sua vida – a última, bem próxima da morte que começou a golpeá-lo em Portugal, minando-lhe o organismo debilitado pelas paixões e pelas drogas, para completar a sua faina fatal no Brasil, para onde veio já sem esperanças. Essa fase é precisamente o objeto do documentário de Paula Gaitán, ou seja, o tempo final de Glauber Rocha, definhando lentamente no exílio da pacata cidade lusa de Sintra.

Paula não foi mulher de Glauber por acaso. Ele era bastante seletivo na escolha das suas companheiras. Era preciso que entre ambos houvesse aquelas “afinidades eletivas” a que se referiu o poeta Goethe em livro famoso. As mulheres glauberianas eram, como ele próprio, arrebatadas, temperamentais e sensíveis. Tinham de privilegiar, além do fogo das paixões descontroladas, a visão estética da vida, fruída com a emoção das descobertas que não se repetem. Pois foi precisamente essa sensibilidade que levou Paula Gaitán a realizar em Diário de Sintra um dos mais envolventes documentários já produzidos pelo cinema brasileiro.

O que vemos na tela não é o registro linear de uma vida em plenitude, mas a realidade fragmentada de uma existência já em declínio. Uma vida, em suma, desfrutada em recolhimento na placidez de uma pequena cidade em que era doce viver com a mulher e os filhos, pois o tumultuário Glauber era, basicamente, uma homem da família e da amizade. A lição do amor e da solidariedade tinha muito a ver com a sua formação de presbiteriano e devorador da Bíblia, mas, acima disto, era decorrência do seu fascínio pela condição humana e do seu senso ético de companheirismo.

Paula narra os últimos dias da vida de Glauber reunindo diante da câmara fatos isoladas do seu tempo final, fotos graves de um homem que se aproxima do fim, fragmentos de cenas com a família, do enlevo com os filhos, depoimentos de pessoas simples do povo que mal conheciam o cineasta ou o confundiam com artistas portugueses, sempre tão tenso e barbado, tudo, enfim que se mistura com o encanto de uma paisagem rural ou das ruas tortuosas da velha Sintra, que ele gostava de percorrer.

Saltam às vezes da tela frases fortes de Glauber sobre o destino do homem e seus compromissos políticos, o senso revolucionário das transformações e mudanças sociais, o destino regenerador do cinema e da arte. Em Portugal, ele já havia filmado e tomado inúmeros depoimentos sobre a Revolução dos Cravos, que encerrou o ciclo histórico do salazarismo reacionário, convivendo com a fase negra de uma Europa dominada pelas ditaduras. O seu papel de agitador das imagens é ressaltado pelo testemunho de intelectuais portugueses, que com ele compartiam ideais revolucionários. Mas não há propósitos de proselitismo. Apenas o registro dos fatos de uma vida dedicada até o fim à missão de usar o cinema com função renovadora. Certamente só uma devotada elite pôde entender o papel da sua linguagem de vanguarda, mas foi com isto, precisamente, que a filmografia de Glauber Rocha construiu a sua grandeza, para além dos condicionamentos temporais da sua mensagem política, todavia permanente, porque libertária.

*JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, o JOCA, jornalista, escritor, é o autor, entre outros livros, de Glauber Rocha esse vulcão (Editora Nova Fronteira)

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