SELVAS DE PEDRAS INVADEM A BAHIA

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Entrevista de SYLVIO BANDEIRA, geógrafo:

SYLVIO BANDEIRA em foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde 27.11.2009

 

A EXPANSÃO IMOBILIÁRIA

ME ASSUSTA”

texto de TATIANA MENDONÇA

Revista Muito (suplemento dominical do jornal A Tarde)

Antes da construção da Estrada do Coco, em 1975, o litoral norte baiano era pouco povoado. Só um ou outro aventureiro arriscava-se a passar uns poucos dias descansando em suas praias. “Hoje, o crescimento da Região Metropolitana de Salvador é, em grande parte, em função desse eixo”, atesta o geógrafo Sylvio Bandeira, 69, que pesquisa a região há uma década. Nos próximos anos, investidores estrangeiros devem injetar ali US$ 3,2 bilhões na construção de grandes hotéis e condomínios de luxo. Para Bandeira, o Estado tem sido muito eficiente em “vender” a região, mas não está promovendo um desenvolvimento sustentável:

Falta uma melhor infraestrutura de transporte, educação, saúde. Esses investimentos estrangeiros não estão sendo territorializados. Parecem enclaves.

P – O litoral norte tem recebido enormes investimentos estrangeiros. O governo também está investindo para desenvolver a região?

R – Hoje, o crescimento da Região Metropolitana de Salvador é, em grande parte, em função do eixo do Litoral Norte. Este é um dado sob muitos aspectos positivo, porque Salvador não tem muitas opções de crescimento. O principal problema é que não há um planejamento regional. Hoje, nenhum organismo pensa de forma conjunta a RMS, integrando o Estado, os municípios e o governo federal. O Estado tem sido muito eficiente em captar esses investimentos, em “vender” a região, mas não em planejá-la. Com isso, vários problemas começam a acontecer. É preciso melhorar a infraestrutura de transporte, saúde, educação, serviços. Ou seja, todo esse eixo depende desesperadamente de Salvador. Mais da metade da mão-de-obra desses novos hotéis e resorts mora em Salvador, são os funcionários mais qualificados. Os menos qualificados moram nesses lugares pequenos ou nas sedes dos municípios e eles têm dificuldade de acesso, de formação, de treinamento.

P – Como os empreendimentos interagem com a população nativa?

R – Muitos desses investimentos estão se dando bem, próximos à pequenos núcleos de pescadores e agricultores. E a integração não é muito fácil, porque esses projetos têm dificuldade de absorver ou se integrar bem com as populações tradicionais. Vou dar um exemplo: a maior parte do abastecimento desses hotéis vem de Salvador e de fora da Bahia, porque ali não houve estímulo para uma produção agropecuária que pudesse abastecer aqueles hotéis. Também com os pescadores poderia haver uma maior integração para abastecimento. O Estado poderia incentivar isso. Falta o que nós chamamos de territorializar esses investimentos.

P – As prefeituras não poderiam resolver algumas dessas questões?

R – Sem dúvida. Os municípios precisam planejar o seu território, não é só o Estado. Mas muitos dos problemas são comuns, interessam a várias cidades. Então é preciso agregar esses municípios, e aí entra novamente o Estado. Já existe há alguns anos o Consórcio Intermunicipal da Costa dos Coqueiros, que é bastante promissor. Precisaria que o Estado entrasse de forma mais integrada, para resolver problemas de esgotamento sanitário, água, energia, educação, saúde. Toda essa área do litoral norte era muito pouco povoada até os anos 1970. O acesso só se tornou mais fácil a partir da Estrada do Coco, que é de 1975. Depois, em 1993, veio a Linha Verde. Visitei Praia do Forte em 1972. Era uma vila de pescadores e hoje se transformou num centro turístico importante.

P – Os novos empreendimentos vêm respeitando a questão ambiental?

R – Felizmente, essa área é coberta por várias APAs (áreas de proteção ambiental). Esses novos projetos, para serem aprovados, têm de respeitar a legislação, e isso em geral tem sido obedecido, para não repetir o que aconteceu com aquela fábrica da antiga Tibrás. Hoje, ela deveria ser removida dali para o Polo Industrial de Camaçari. Mas o que me impressiona é a dimensão desses projetos. Você tem grandes resorts com áreas de 12 km de praia, outro tem 6 km… A praia no Brasil felizmente é pública, a lei garante; mas, se tudo isso for construído, para atingir determinadas praias, você vai ter de contornar esses complexos, como já acontece em Sauípe. Esta série de enclaves vai dificultar a livre circulação, o que demonstra que ninguém pensou de forma integrada.

P – O que afinal trouxe tantos investimentos estrangeiros para essa região?

R – Está tudo ligado à globalização e à disponibilidade de capitais internacionais, que estavam procurando lugares para serem objetos de investimentos. O Litoral Norte tem um grande atrativo, que é a existência de grandes áreas de terra para ser vendidas a preços não muito altos, internacionalmente falando. E a região é de uma beleza cênica fantástica, próxima a Salvador, que também é uma metrópole muito atraente. O que está acontecendo aqui também ocorre perto de Recife, Natal e Fortaleza. Mas há um fato novo aí, surpreendente, é que muitos desses grandes hotéis e resorts são acompanhados de projetos de residências secundárias. E, por incrível que pareça, elas estão sendo vendidas para estrangeiros. Historicamente, as residências secundárias – ou casas de veraneio – sempre se davam muito próximas das cidades. Amaralina era um bairro de residências secundárias, onde, até a década de 50, os moradores de Salvador iam passar o verão. À medida que a cidade foi crescendo, essas casas viraram residência principal.

P – É curioso que tantos grupos estrangeiros queiram investir no Litoral Norte, já que o primeiro megaprojeto, o Complexo Costa do Sauípe, não foi tão feliz. Algumas redes de hotéis deixaram o complexo.

R – Acho que tiveram problemas de gestão, mas a região é tão atraente que os problemas desse primeiro grande projeto não dificultaram a entrada de outros investimentos.

P – O senhor falava da Praia do Forte, onde hoje é possível encontrar várias filiais de bares e lojas de Salvador. É como um shopping a céu aberto. Essa “padronização” para atrair os turistas não acaba, a longo prazo, afastando-os?

R – Esse é um perigo que pode ser mortal para o turismo. Mas acho que eles estão tomando cuidado. Existe uma associação de empresários em Praia do Forte que está atenta a isso. Não sei se vai conseguir resistir, diante da pressão pelo crescimento. Se aquele lugar se tornar muito denso, com muitos problemas – no verão costuma faltar água, não há lugar nos restaurantes –, isso pode ser prejudicial. Esse é um problema da atividade de turismo em geral. Há uma fase de grande atração, depois o lugar cresce muito, de forma problemática, e aí deixa de ser atraente. É o que tem acontecido com alguns lugares famosos. Acapulco, no México, foi muito atraente na década de 50, mas se tornou tão descaracterizada que quase acabou e, agora, estão recuperando.

P – E como o senhor vê a expansão imobiliária em Salvador?

R – A expansão imobiliária em Salvador me assusta. Participei, com as colegas Bárbara Silva e Silvana Carvalho, do Como anda Salvador e sua região metropolitana, publicado em 2008. Com esse crescimento, dá vontade de fazer um livro chamado “Como não anda Salvador”. A mobilidade urbana já está tão complicada, além da mobilidade social, que todo mundo está preocupado em como nós vamos andar, trabalhar, estudar, nessa cidade que está se verticalizando de forma impressionante. E, infelizmente, com a aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano. Não há processos sérios de planejamento urbano. A expectativa é que a Copa de 2014 resolva tudo… Eu não creio.

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