RÉQUIEM PARA AS FESTAS DE LARGO

Anos atrás a data de hoje, 8 de dezembro, Dia de N. Sra. da Conceição da Praia, padroeira da Bahia, fazia parte de um amplo calendário festivo e profano que precedia o Carnaval de Salvador. Eram as chamadas festas de largo com maciça participação do povo baiano. Uma de suas características eram as barracas de comes e bebes erguidas com alta criatividade artística, verdadeiros patrimônios da cultura popular. Pois essas barracas acabaram e foram substituídas por outras padronizadas para servirem aos interesses de cervejarias e outros patrocinadores.

Reproduzo neste post duas matérias publicadas esta semana no jornal A Tarde em que os entrevistados Dimitri Ganzelevitch e Juvená condenam esta grave perda. Revoltada depois de ler essas matérias, a cantora Vilma Nascimento, repórter fotográfica deste blog, desabafou:

– Tudo o que a grande população cria, inicia e que dá certo deveria ser preservado. Deveriam melhorar o que já existe, o que se tem, e não destruir ou reformar deixando o povo do lugar de fora da festa.

Antes vejam três fotos de autoria de ADENOR GONDIM, extraídas de seu blog APENAS BAHIA, APENAS FOTOGRAFIA (www.apenasbahia.blogger.com.br/), site este que vale a pena ser visitado por quem ama a Bahia.

Foto de ADENOR GONDIM

Foto de ADENOR GONDIM

Foto de ADENOR GONDIM

 

 
 
 
DIMITRI GANZELEVITCH:  
É PORQUE GOSTO DA BAHIA QUE FAÇO CRÍTICAS”

 
 
 

DIMITRI GANZELEVITCH no Solar Santo Antônio. Foto de REJANE CARNEIRO | Agência A Tarde 3.2.2009

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de CAROLINA MENDONÇA

WebTV A Tarde

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Criado por uma família que sempre valorizou o livro e a cultura, o francês nascido no Marrocos Dimitri Ganzelevitch, 73, escolheu a arte como forma de vida. Aos 5 anos, desejava ter um museu. Aos 14, passou a colecionar peças. Estudou em escolas de arte de Marrocos, Lisboa, Paris e Londres e chegou a vender peças da sua obra como pintor, mas seu olhar crítico fez com que ele abandonasse os pinceis e passasse para o outro lado do negócio, tornando-se marchand. Desde 1975, quando se mudou para a Bahia, vem apostando no trabalho de novos talentos e na valorização da cultura popular. O fundador da Associação Viva Salvador, que desenvolve ações de educação para a arte, teve seu acervo particular reconhecido pelo Ministério da Cultura, o que transformou sua residência na Casa Museu Solar Santo Antônio. Duro nas críticas às políticas públicas culturais praticadas no Estado, acredita que Salvador está perdendo sua identidade.

 

Um dos motivos da sua vinda à Bahia foi a música de Dorival Caymmi?

Com certeza. Quando eu morava em Portugal, tínhamos, em casa, muitos discos de música popular brasileira. Tinha Noel Rosa, Orlando Silva, Dick Farney e Dorival Caymmi, que me encantava. Quando ouvia Maracangalha, eu viajava! Um dia, um tio me convidou para conhecer o Carnaval do Rio, vim imediatamente. No Rio, eu tinha uma carta de apresentação para o escritor Orígenes Lessa. Ele me convidou para vir com ele à Bahia, para o casamento do filho de Jorge Amado. Entrei pela porta certa, não é? Fui recebido pelo Jorge, Carybé nos levou no Axé Opô Afonjá, Ildásio Tavares nos apresentou a Lagoa do Abaeté. Era maravilhosa. Fazíamos buracos na areia para colocar velas, havia sempre alguém com um violão, uma delícia. Claro que havia furtos, assaltos, mas era seguro, não se sabia o que era matar, como hoje. Tudo isso criou uma imagem de encantamento. Voltei várias vezes até que vim para ficar de vez.

 

Como marchand, o senhor sempre teve interesse pela cultura popular?

Sempre tive um olhar eclético. Morei em vários lugares diferentes e me familiarizei com muitas culturas. Diria que tenho um pé no acadêmico, um no contemporâneo e outro nas imagens do inconsciente. E gosto de apostar no novo. Dei um empurrão a artistas brasileiros que, depois tiveram reconhecimento. Tive a primeira galeria do Pelourinho. Quando dizia que morava no Centro Histórico, me olhavam como se eu fosse louco.

 

Esse interesse está também nos concursos que organizou para premiar os melhores carrinhos de café e barracas de festa de largo?

Quando a Lídice da Mata acabou com as barracas das festas de largo, sofri muito. Conheci as barracas quando tive uma loja no Mercado Modelo e fiquei maravilhado. Depois de um ou dois anos participando da festa da Nossa Senhora da Conceição, percebi que alguns barraqueiros já estavam colocando anúncios de refrigerantes, isso me deixou em alerta. Com medo de que aquilo desaparecesse, organizei, junto com Goya Lopes, Murilo e outros amigos, um concurso para a valorização da cultura das festas de largo. Premiávamos os bancos, fachadas, a comida, a higienização, eram várias categorias. Durou alguns anos até que o patrocinador, o dono de uma marca de tintas, faleceu. Pouco depois, assistimos à substituição das barracas por estruturas de metal, lona e plástico. Foi trágico, um erro total de leitura. O Instituto do Patrimônio Histórico e artístico (Iphan) chegou a fazer uma lei para proteger aquele patrimônio imaterial, mas já era tarde. Defendo, no entanto, que é possível recuperar essa cultura.

 

Salvador vem perdendo sua identidade?

Muitíssimo. Estão derrubando todas as construções históricas, estão depredando a cidade. Tudo está virando espigão. Aquilo que fizeram atrás da casa dos cardeais é um assassinato estético! Agora querem descaracterizar a Praça Cayru. Não se tem um projeto de desenvolvimento. Tudo depende da exploração imobiliária.

 

É considerado crítico?

Venho de uma cultura onde a crítica faz parte das discussões. Aqui, com a herança escravagista, uma república mais ou menos democrática e, depois, a Ditadura Militar, se perdeu o direito de criticar. Por isso, escrevo minhas crônicas, protesto. É justamente porque gosto da Bahia que faço críticas. Estou escrevendo sobre o abandono do Santo Antônio Além do Carmo, que está ameaçada por essa mocinha, a Luciana Rique, que está abocanhando parte do bairro. E as famílias que moravam naquelas casas? Vai ser a mesma burrice que se fez no Pelourinho.

 

Como sua casa se transformou em museu?

Tive a oportunidade de comprar a casa, que estava em ruínas, por um bom preço. Reformei e juntei meu acervo aqui. Sempre tive esse gosto pela memória, pela preservação da cultura. Tenho um prazer quase obsessivo em colecionar, mas comecei a me perguntar porque estava desenvolvendo essa necessidade de posse, então resolvi que precisava compartilhar as obras adquiridas com toda a sociedade. O que sempre digo é que a arte está ao alcance de todos.

-o-

JUVENÁ LAMENTA O FIM DA CRIATIVIDADE NAS FESTAS DE LARGO  

JUVENÁ em Itapuã. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde 4.12.2009

 

de EMANUELLA SOMBRA

Jornal A Tarde

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Veterano das festas de largo, o baiano Juvenal Silva Souza, 66 anos, o Juvená, é enfático: a Conceição da Praia acabou. Da época em que montar barracas para a festa significava ficar até uma semana dormindo ao ‘relento’ sobre engradados de cerveja e tomando banho de bica, ele não hesita:

– Essa série de intervenções padronizaram demais. Festa popular é festa popular.

Juvená passou 13 anos montando barracas de bebida nas festas da Conceição da Praia, Itapuã, Ribeira, Pituba e Rio Vermelho.

– Tenho uma saudade absoluta. Geralmente eu armava barraca dia 28 de novembro na Conceição, todo mundo ia pra lá e já fazia a festa antecipada. O dia 8 era uma festa grande, mas a gente já tava até satisfeito – lembra.

Há uma década o homem de barba branca não pisa o pé na Conceição. Prefere ficar em Itapuã, onde tem barraca de praia e residência.

– A festa que a gente costumava armar era mais criativa, a gente fazia e encomendava os “tamburetes”, a pintura dava uma conotação de arte. Era rústica mas era mais humana. Depois começaram a padronizar…

– A gente se entrosava, conversava, bebia, fazia samba-de-roda (o samba duro como chamam no Recôncavo baiano). Terminava a Conceição e a gente ia para a Boa Viagem antecipadamente. Era uma festa popular de fato. Era isso que era bom – diz Juvená que hoje prefere ver estas festas pela televisão.

 

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2 Respostas to “RÉQUIEM PARA AS FESTAS DE LARGO”

  1. LOURENÇO MUELLER Says:

    Lembro exatamente como eram as festas de largo que Juvená estrelava com sua barraca mais frequentada pela classe média de então.
    Gosto que as coisas mudem, se for incorporando civilização. Essa mudança tem sido para pior.
    Não se estudam estratégias de sustentabilidade e acaba ocorrendo que certas figuras mais agressivas e que acumularam dinheiro dominam completamente o ciclo de festas populares na Bahia que culmina com o carnaval tb já desvirtuado.
    Denúncias como essas do Dimitri (a quem sugeri escrever para A Tarde mas respondeu-me que não publicariam) e do Juvená deveriam servir de alerta ao governo – que só está enxergando eleições vindouras – para, pelo menos, discutir COLETIVAMENTE a Matriz da Festa na Bahia, que é, de fato e de direito, O LUGAR DA FESTA.

  2. Bernadette de Freitas Says:

    Concordo em tudo o que foi dito sobre as Festas de Largo. Realmente estão acabando as Festas de Largo, nesta cidade que sempre foi tão alegre e feliz. Lembro-me de quando criança nossa família ia sempre ver de perto, e como era gostoso. A Festa da Conceição da Praia era uma das mais importantes que havia na Bahia. Minha avó era devota dela, aliás a família toda era assim. Sempre se festejava tanto em casa como na rua. Que saudades que me deu isso, minha gente! As festas foram indroduzidas pelos portuguesese os negros escravos só iam acompanhando seus senhores e sinhazinhas. Mas o tempo muda e isso e às vezes bom como também ruim. Pq hoje em dia as pessoas fazem-nas esquecidas. E tristemente uma cidade como Salvador, que tem uma História rica e linda, ficará fadada também a não ter estas festas porque muitos se afastam e nem querem ouvir falar. Mas espero que retornem as suas origens e vejam que erro feio eles poderão estar cometendo, que estas festas eram do tempo da colonização, mas tem uma origem e uma cultura que faz a Bahia ser diferente em tudo. Amem esta maneira linda, continuem a fazer estas Festas de Largo que deixam os turistas enlouquecidos. A Festa de St. Bárbara dia 4 de dezembro e logo a seguir vem a Festa da Conceição da Praia, no dia 1º de Janeiro a Procissão de N. S. dos Navegantes, e a Festa de N. S. do Bonfim, as Lavagens da Ribeira, de Itapuã e a Festa do Rio Vermelho do dia Dois de Fevereiro fazem parte de um calendário que mostra como foi a colonização deste povo. Me dá tristeza em saber que o nosso povo não faz mais como era no meu tempo de criança e como tudo passa rápido. Peço a todos que pensem muito bem como isso tudo é lindo e que nunca deixem de festejar. Sempre será válido viver isso tudo!

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