BENIN – A VITÓRIA CONTRA A ESCRAVIDÃO

Ilustração de CAU GOMEZ

de JOÃO JORGE*


Em 1986, na minha primeira viagem internacional fui ao Benin, a África mítica. Era a tão sonhada volta para casa, de um jovem militante pan africanista, revolucionário, sonhador.

Na gestão do prefeito de Salvador Mário Kerstész, por inspiração de Roberto Pinho e Pierre Verger, uma delegação de Salvador foi ao Benin. Verger defendeu a ida do único negro da direção da Fundação Gregório de Mattos para a África.

Levava comigo toda a vivência de um Brasil europocêntrico, e muita informação teórica sobre as diversas Áfricas, do passado e do presente, da luta contra o colonialismo, da presença do marxismo, do islamismo e das formas de candomblé existentes no Benin e na Nigéria.

O choque da realidade foi grande. Vi as terras africanas do alto do avião e a respiração ficou ofegante, enfim estava na terra dos meus pais, e avós, e toda uma história especial, a casa dos espíritos.

Chegamos a Cotonou, no Benin, a capital moderna e um povo vibrante com muitas cores, muitas conversas em tom alto nas ruas, meu coração disparou: estava nas terras dos meus ancestrais. O hotel Sheraton, ocidental demais para a pobre capital, foi o meu local de sono e de despertar muitas vezes na noite, parecia um sonho estar na África.

Foi tudo muito mágico e veloz, o que eu vi, onde estive, com quem falei, quem falou para mim por mim, quem traduziu. Pierre Verger conhecia bem o país e as pessoas, falava várias línguas locais. Arlete Soares traduziu do francês para o português, traduzia e chorava com os encontros da minha história da Bahia, com o que escutávamos das pessoas nas cidades. Pude então realizar uma volta às raízes profundas da minha cidadania afro-brasileira, fui às cidades de Ouidah, Saketê, Pobé, Porto Novo.

Em cada lugar um ritual, um sacerdote, uma árvore, pessoas que pareciam com meu pai, João Rodrigues, além da alegria dos descendentes de brasileiros de Ouidah. Eu era um deles, um jovem brasileiro negro, voltando ao Benin.

Mais de cinco mil pessoas na praça principal da cidade, gritando Bahia, Cidade Nova, Campo Grande, Bonfim. Foi de arrepiar, e os cumprimentos às pessoas africanas com os nomes de Silva, Soares, Rodrigues, Santos, que fizeram fila para falar com a delegação e o jovem negro africano brasileiro que tinha voltado para dizer como estavam os outros negros do Brasil.

Na cidade sagrada de Ouidah, e em Sakatê, morri e nasci de novo. Emergiu dali um novo ser humano. O que eu ouvi e vi, os recados, as voltas que dei em torno da porta do não retorno, da árvore do não esquecimento, a visita ao templo da cobra Piton, e ao seu sacerdote.

O homem marxista leninista deixou de existir e nascia um homem místico, religioso, devoto da tradição africana da justiça.

O impacto do Benin na minha vida foi importantíssimo, decidi lutar contra o racismo com a força da justiça, com o vigor moral de um combate contra a desigualdade e pela igualdade para todos. O Benin mudou a minha vida, pois aprendi que somente homens e mulheres com garra e força suficiente para derrotar uma opressão podem ser livres iguais e soberanos de seus destinos.

Cheguei na África com os paradigmas daquela época, guerra fria, capitalismo, imperialismo, e passei a ver o mundo com outro olhar.

O Benin moldou os destinos do Olodum, que a partir de 1986 cresceu e se multiplicou como uma lança, uma estrela Sirius brilhante, e com a influência do Benin vencemos a escravidão, já no carnaval de 1987. Com as ideias de Cheik Anta Diop, do Senegal, fizemos o melhor carnaval de um bloco afro em todos os tempos, sobre o Egito dos Faraós, brilho, beleza e história nas ruas da Roma Negra.

Resgatamos a História, de João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luís das Virgens, da Revolta dos Búzios. Criamos a primeira lei constitucional de ação afirmativa na Bahia, em 1989, ajudamos as marchas e caminhadas por Zumbi e nossa ação em favor das cotas beneficiou muitos jovens que estão nas universidades.

Fomos à luta, criamos uma agenda antirracista positiva e tocamos o coração do mundo com nossa música samba reggae.

Agora, o Benin veio à Bahia e se encontrou com o Olodum, com o samba reggae e com tudo que criamos de cultura pan-africanista. Mesmo com a saudade dos nossos entes que estão no Orum, comemorei com olhos cheios de lágrimas e com alegria a nossa vitória contra a escravidão com lutas e sonhos. Vamos dar um passo adiante para que os sonhos virem realidade.


João Jorge Rodrigues – Presidente do Bloco Afro Olodum


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