VIA-CRÚCIS DO BAHIA: FUTEBOL ÀS AVESSAS

Ilustração: CAU GOMEZ

por JC TEIXEIRA GOMES*


Machado de Assis tem um conto (muito citado, como exemplo de humildade e despreendimento), em que um cidadão (se não me engano um cabeleireiro, escrevo de memória), vende a loja e renuncia à profissão, por confessar-se incompetente para o mister.

Eis aí um belo exemplo que gostaria de passar para a atual diretoria do Bahia: devem renunciar coletivamente a seus mandatos, pois não revelaram a menor competência para dirigir um clube de tantas tradições como o velho Esquadrão de Aço, um fenômeno social pela torcida, hoje objeto de zombaria.

Nas últimas semanas, tenho recebido verdadeira enxurrada de e-mails de devotados tricolores, pedindo que eu coloque minha pena a serviço da restauração da grandeza do Bahia.

Já ninguém aguenta as sucessivas humilhações em campo, os times e jogadores medíocres, a perda de todos os campeonatos disputados, a afrontosa incompetência administrativa de longa data dos Pernets, dos dois Marcelos, pai e filho, dos Petrônios, Aciolis, todos eles ligados à tradição de Paulo Maracajá, enfim, dos maracajistas que mais uma vez, em 2009, mergulharam o Bahia no fundo do poço. Vá ou não o time para a terceira divisão, pois o fiasco já ultrapassou todos os limites.

Dentre os e-mails recebidos, de tricolores desesperados, um me chamou particularmente a atenção: o do ex-goleiro Ferreti, um dos gigantes do arco do Bahia, hoje um apaixonado e inconformado torcedor, que me recordou (em termos emocionados) da sua bela presença na vida do Bahia e que hoje não se conforma com a degradação a que foi levado o clube, sempre na rabeira de todas as competições que disputa, empobrecido, sem patrimônio, absolutamente carente de títulos e de glórias.

Tem toda a razão o grande Ferreti, pois foi dentro do campo que ele pôde sentir a emoção de ser jogador do Bahia e a força da sua inigualável torcida, capaz de fazer tremer os estádios. Poucas no Brasil tão fiéis, mesmo nos infortúnios.

“Ninguém nos vence em vibração!” – eis o que diz o hino do saudoso Adroaldo, traído pelos coveiros do time.

A vibração foi abafada pela catastrófica atuação dos dirigentes. E dizer que o Bahia já foi presidido por homens do nível de um Orlando Gomes!

Esta acontecendo com o tricolor algo espantoso, que a crônica esportiva mal registra: o clube, lançado nas divisões inferiores, já não entra nas competições para ganhar títulos e recuperar prestígio, mas apenas para evitar o rebaixamento e humilhação ainda maior. O Bahia vem disputando sempre um campeonato às avessas, o futebol ao contrário: a única meta dos dirigentes é sair do sufoco, fugir da degola, escapar da lanterna.

Todo o trabalho da diretoria presidida pelo deputado Marcelo Filho se definiu pela falta de planejamento e pela improvisação, começando com a insensatez da contratação do velho rubro-negro desacreditado Paulo Carneiro para dirigir o clube que ele tanto humilhava no Barradão, acuando os dirigentes do Bahia nos vestuários, sem excluir o velho Marcelo pai, com ameaças reiteradas, registradas nos jornais. Está nas coleções para quem quiser ler.

Sendo jovem, poderia ele mostrar que não estava, como os demais, vinculado aos interesses do grupo que domina o Bahia antidemocraticamente, pois todas as instâncias, como o revelam sucessivas denúncias publicadas pela imprensa e pela oposição, são controladas pelo maracajismo. E a estagnação continua nos resultados.
Poderia, enfim, constituir uma liderança nova. Mas, não: a degradante atuação do Bahia este ano na segunda divisão mostrou que nada mudou.

O sofrimento e a revolta da imensa torcida são inenarráveis. A sitação agravou-se com a denúncia de que o ex-diretor Rui Acioli revelou a uma rádio que o Bahia teria dado dinheiro ao Bragantino para favorecer o clube, fato de extrema gravidade. A “mala branca” foi negada, mas ficou mais esse constrangimento, agredindo a imagem de um time já desarvorado nos campos.

Volto, pois, ao que disse de início: o desastre já passou da conta, mesmo que se consiga, em mais um final desonroso, evitar, pelo desespero, a volta à terceira divisão. Que a atual diretoria tenha pelo menos agora o gesto meritório da renúncia coletiva, convocando eleições livres e democráticas, como toda a torcida quer e a grandeza do Bahia exige.


*JC Teixeira Gomes, o Joca, é jornalista (foi editor-chefe do Jornal da Bahia), escritor (autor de Memórias das Trevas, Glauber Rocha esse vulcão, entre outros), torcedor histórico do Bahia – seu pai foi o primeiro goleiro do time, fundado em 1931.


NOTA DO EDITOR – Mais sobre a via-crúcis do Esporte Clube Bahia nos dois artigos – um deles também de JC Teixeira Gomes – contidos no seguinte post:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/10/20/a-via-crucis-do-tricolor-baiano/

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