BAHIA DESPREZA LIVROS E ESCRITORES

Conselheiro editorial do blog Jeito Baiano, o jornalista, escritor e professor zédejesusbarrêto resolveu botar a boca no mundo para denunciar um calote contra a cultura da Bahia em que ele mesmo é uma das vítimas. Seu manifesto vai além da denúncia e aproveita para jogar muita coisa podre no ventilador…


MANIFESTO LIVRE

EM FAVOR DO LIVRO


por zédejesusbarrêto


Estamos às portas de 2010 e a verba destinada aos autores e editoras vencedores do Edital 2008 da Fundação Pedro Calmon / Secretaria de Cultura do Estado não foi liberada e nem se tem notícia.

Os projetos vencedores foram anunciados no Diário Oficial, nos primeiros dias de agosto. Desde então, espera-se para a edição dos projetos, os livros contemplados.

Em vão. Não adianta e-mails, telefonemas, nada. Ninguém informa nada.

A espera torna-se uma agonia, em função dos compromissos assumidos, do final do ano, do chamado ‘exercício findo’. Nada, nem um alô, nenhum raio de esperança.

E o tititi rasteiro alastra-se, sem que ninguém assuma um ai. ‘Não há verba’, ‘o governo não está pagando’, ‘nenhuma perspectiva’, ‘tão guardando a grana para a campanha de paroano’, ‘a Fazenda não está liberando nada’… Calote geral? Ora, nem é tanto dinheiro assim e fazer e editar livros é uma arte nobre… e essencial nesta Bahia de uma cultura tão rica e que já foi tão pródiga. Hoje em dia, autores, gráficas e editoras vivem a mendigar… muitas atreladas aos governos para não fechar as portas ou morrer de fome. Ah, fica um sentimento de frustração imeeeenso!

Mas… e livro rende voto ?

O que se sabe é que o dinheiro sempre aparece para projetos que nada têm a ver conosco, com o fazer local, com a cor de nossa pele. Como a caríssima exposição interativa de uma ‘artista’ europeia que recebeu uma carta do amante dando-lhe um fora, e… ela, muito doída e sabida, transformou a amargura num evento pra ganhar dinheiro.

Ora, pois, homi quá sinhô me deixe!

Mas é só um exemplo, entre tantas instalações que aparecem por aí e nada dizem.

Bem, voltando à questão da verba do Edital de 2008 (!!!) a situação é tão vexatória que os editais de 2009 sequer foram lançados. Como, se nem falam em pagar os vencedores de 2008, não é mesmo?

O mais estranho nesse caso é que, a despeito das afinidades político-eleitoreiras, nesse campo da cultura a nossa histórica Bahia vai na contramão do país. Enquanto o ministro Juca Ferreira, baiano, anuncia medidas eficazes estimulando a autoria, a edição e a leitura de livros… – essenciais na formação dos jovens – , por aqui… editores, gráficas e os autores novos padecem. O autor baiano tem de se mudar, buscar editora no sul.

As editoras vivem à míngua. As gráficas, a absoluta maioria de má qualidade, penam. As livrarias fecham as portas, buscam diversificar as atividades para sobreviver…

E assim vamos nós, viva o bundalelê, o carnaval vem aí, pra quê mais?

*

Na semana passada, ainda sem fugir do tema ‘cultura’, a Arfoc comemorou 60 anos e sua nova diretoria (Luis Hermano, Walter Lessa…) realizou um encontro na Câmara Municipal com a presença de Evandro Teixeira, de Sérgio Vital Jorge – fotógrafos reconhecidos e premiados mundialmente –, quando foi feita uma homenagem ao decano Gervásio Batista, fundador da Arfoc, o fotógrafo dos presidentes da república, de Getúlio Vargas a Lula, baiano que é uma história viva. Pois bem, o plenário da Câmara estava quase vazio. Neca de vereador, neca de prefeito, neca de ninguém da área cultural do Estado. Nenhum reconhecimento. Ah, Bahia tão ingrata com seus filhos!

*

O artista plástico Emanoel Araújo fala disso na bela e forte entrevista que saiu na revista Muito do jornal A Tarde, neste fim de semana. Leitura obrigatória. Viva Emanoel!

A gente precisa tomar vergonha. A Bahia precisa resgatar sua identidade, dar valor à sua história, ter orgulho de sua negrice, de sua branquice, de sua caboclice, de sua mistura.

Ou viramos um lixo de rebolados e gritinhos em cima de trio elétrico.

Os livros servem para perpetuar a cultura, o fazer de um povo. A leitura forja uma civilização.

Queremos Ruy (o Barbosa e o Espinheira Filho), queremos Castro Alves, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Joca [J.C.Teixeira Gomes], Aninha Franco…

A Bahia se alimenta de fé e de letras!!!

Estão nos matando, aos poucos, de fome.

*

Pensamento digital,

gosto de livros.

Manuseá-los, guardá-los à vista.

Riscadas no papel

As palavras emanam outros encantamentos.

A mesma palavra dita

Soa perene, escrita.

Na tela inteligente

ela é fugidia

…Zás, mutante

Escorregadia.

Outra serventia !

O signo na pedra carrega uma eternidade

que não o poema escrito na areia.

*

E mais:

O grito chama a atenção

Assusta

Mas não tem o poder de um sussurro

Seduz

Impregnamos de força as palavras …

escolhendo-as, formatando, sonorizando

engatando-as

enfeitiçando-as com o pensamento

soprando-as ao vento

ou calando-as

a curar nos barris dos sentimentos.

*

Liberdade é conhecimento.

Ler liberta

Leia livro, seja livre !

*

Outra:

Não é o tamanho da palavra…

É a grandeza do seu dizer.

Amor e paz

Só.

zédejesusbarrêto – jornalista, escrevinhador, leitor contumaz e baiano pela graça de Deus

16 nov/2009.


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2 Respostas to “BAHIA DESPREZA LIVROS E ESCRITORES”

  1. LOURENÇO MUELLER Says:

    Bravíssimo ZdJB,
    Não é só ingratidão da Bahia, é ignorância e pobreza históricas, mesmo.
    Veja, agora, um livro sobre o Museu Costa Pinto: esqueceram de dizer quem fez, veja só, Luiz Viana Fo. foi o grande artífice do museu junto à família Costa Pinto… Mas nem disseram! Que terra é essa, gente? E que omissão imperdoável. OOOOOOO Mercedes Rosa, que escorregada foi essa?

  2. Athos Says:

    Bom artigo, tema muito importante.
    O poema também ficou bem bonito.

    Tem um poema de Castro Alves chamado O Livro e a América, você deve conhecer, que fala do livro também, uma bela apologia ao livro. Tem um trecho bem interessante:

    “Por isso na impaciência
    Desta sede de saber,
    Como as aves do deserto —
    As almas buscam beber…
    Oh! Bendito o que semeia

    Livros… livros à mão cheia…
    E manda o povo pensar!
    O livro caindo n’alma
    É germe-que faz a palma,
    É chuva-que faz o mar.
    Vós, que o templo das idéias”
    (…)
    “Bravo! a quem salva o futuro
    Fecundando a multidão!…
    Num poema amortalhada

    Nunca morre uma nação.”

    Pra quem quiser ver o poema todo:
    http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/castro-alves/o-livro-e-a-america.php

    Abraço! Sou o filho de Enéas!

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