O LEGADO DE NEGUINHO DO SAMBA

Neguinho do Samba - DIDA-Aluno

A ESCOLA OLODUM PROTESTA


por CRISTINA CALACIO


Naqueles tempos em que o Pelourinho era degredado” (naqueles tempos?), “lembro-me de um jovem determinado em fazer a diferença em um mundo imerso em ninharias”. Lá ia mais um neguinho. “Caminhando lentamente, com seu repique, sua baqueta e um gravador pelas ruas de pedra do Pelourinho” (quantas pedras no meio do caminho!).

Penso que as notas musicais do samba-reggae flutuavam, dançavam, brincavam com o Mestre dos ritmos, que em sua elegância ia regendo, transformando notas dispersas em poesia, desenhando convenções percussivas únicas no mundo.

A Escola Olodum protesta pela perda prematura da pessoa e do músico Neguinho do Samba.

Obrigado! Pela sua determinação, sua genialidade e pelo legado deixado ao Olodum.

Fico a pensar que na década de 80 nossa sociedade preconceituosa não poderia imaginar que um neguinho do Maciel Pelourinho poderia emergir para os quatro cantos do mundo no seu estado mais puro de arte e cultura.

O toque do repique convocou os surdos e juntos revelaram talentos, chamaram a atenção de artistas nacionais e internacionais para os ritmos baianos. Divulgou centenas de trabalhos musicais de autores populares, divulgou e popularizou a cultura baiana e de vários países africanos, até então desconhecidos nas salas de aula.

Sim, foi através de sua genialidade que o ritmo do samba reggae possibilitou ao Olodum promover o nome da cidade do Salvador e da Bahia em vários países mundo.

Quem era esse neguinho? Um menino de personalidade forte e polêmica que acreditou em seu talento individual, que evitou as ladeiras e becos tortuosos onde ainda hoje muitos dos nossos meninos pretos se escondem.

Foi Neguinho do Samba uma das estrelas Sírius que irradiaram seu brilho na vida de centenas de pessoas? Talvez fosse ele o povo das estrelas?

No dia da sua partida teve de tudo. Sentimentos sinceros e muitos os discursos vazios, lágrimas de demagogia e muita hipocrisia. Aqueles que sempre dificultam, atrasam, atropelam e renegam a cultura do povo estavam lá com suas promessas vazias e caras de tristeza para melhor aparecerem nas fotos.

Muitos foram os carnavais, ensaios, projetos, ações sociais. Muitas foram as dificuldades, os “não”, os pedidos negados, as portas fechadas e agendas dos responsáveis pela cultura desta “Roma Negra” indisponível.

Ninguém ligou de Brasília para ajudar. Ninguém de Salvador ligou para dizer que uma empresa privada poderia patrocinar. Não. Nesses momentos todos se escondem. Os telefones ficam mudos, o celular não atende ou não existem.

O artigo vinculado em um impresso de Salvador interrogava “O que será feito de sua criação?” “Será que o samba reggae será relegado ao esquecimento?” Também afirmou: “Com o tempo, porém, o samba-reggae foi sendo esquecido na axé music”, “exploraram o poder de sedução que os tambores podem ter”.

Neguinho do Samba deixou verdadeiros discípulos, muitos seriam os nomes para citar e o Olodum enquanto organização jamais deixará o samba-reggae cair no esquecimento.

No dia 22 de setembro foi encaminhado requerimento ao Ministério da Cultura, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que instaure processo de registro e reconhecimento do SAMBA-REGGAE como bem imaterial e integrante do Patrimônio Cultural brasileiro. Assim o gênero musical, o toque dos tambores que tanto agrega expressões de vida e tradições do afro-baiano continuarão transmitindo de geração em geração sua arte e musicalidade, gerando assim um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

Os homens pretos da cultura soteropolitana, os “dinossauros” que já partiram e os que ainda por aqui circulam vivem por seus ideais, e com certeza lutarão para que “a batida do samba-reggae não fique no limbo”.

Morrem pobres todos eles”. Por que aqueles que exploraram e fizeram “sucesso a partir do que eles criaram?” não vão buscar atendimento médico na madrugada em posto de saúde do Pernambués, ou aguardar pacientemente o Samu (graças a Deus que existe).

Quando para essa turma a derradeira hora chegar, não serão necessárias GRANDES “articulações para os procedimentos do enterro e velório”. Seus familiares não estarão expostos à desconfortável negociação de quem pagará as despesas funerárias. Isso é coisa para os negros homens da cultura. O Olodum protesta!


Cristina Calacio

Coordenadora da Escola Olodum



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