ANCESTRALIDADE AFRO-BRASILEIRA

por VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

Muito temos falado sobre a noção de ancestralidade e a sua importância para as religiões de matriz africana reorganizadas no Brasil a partir das diferentes visões de mundo trazidas por reis, rainhas, sacerdotes, sacerdotisas, artistas, africanos e africanos chegados nas Américas, particularmente, ao Brasil.

Mais uma vez vamos evocar uma história.

Conta-se que em certa ocasião o povo igbo, grupo étnico que atualmente ocupa o sudeste da Nigéria, se viu encurralado por seus vizinhos. Obrigados a fugir de suas terras, chegaram a uma espécie de bosque nunca antes ocupada. Seus inimigos, todavia, marchavam em sua direção.

Durante vários meses, os igbos se viram acuados e sitiados pelos seus inimigos. As várias famílias que ali estavam assistiam a acabar, sobretudo, a comida.

O grupo, todavia, não desistiu, ao contrário, assim que encontrou uma raiz com a qual perceberam que os homens, logo que a comiam, aumentavam a sua força e as mulheres, o seu poder de gerar filhos e filhas, sadias e fortes.

Com o passar do tempo, as famílias alimentadas pelo inhame, ora comido cru, depois cozido, em forma de farinha, massa, papas ou mingaus, foram crescendo e tornaram-se capazes de construir um grande reino capaz de enfrentar qualquer estrangeiro.

FESTA DOS INHAMES

Todos os anos, ainda hoje, a origem desse grupo é relembrada com “a festa dos inhames”. Ela rememora a resistência e a continuidade dos povos igbos graças a esta raiz.

Este é, pois, o sentido da ancestralidade e talvez nenhuma história seja tão ilustrativa quanto esta. Antes mesmo de um conceito, a ancestralidade é a origem de um povo, desta maneira, assemelha-se ao conceito grego de arké.

Ela remete ao início de um determinado grupo, não a qualquer início, mas aos primórdios, momento fundante, tempo mítico imemorial, perdido no tempo cronológico, revivido no rito que cria todos os tempos, nos conduzindo a fazer uma experiência de um momento tal humano que só poderia ser divino.

Desta maneira, gosto muito da ideia de que os ancestrais são princípios universais. Podem ser comparados aos chamados “elementos civilizatórios”, patrimônios universais expressos de múltiplas formas através das culturas. Assim devem ser entendidos os orixás, os ninkices e os vodus.

A PALAVRA NINKICE

Algumas destas ideias estão resumidas na palavra ninkice, literalmente, remédio, mas não o remédio que cuida apenas de uma parte do corpo, mas do corpo todo, entendido como uma centelha de luz retirada do Universo.

Assim, os ancestrais não podem ser entendidos como “espíritos”, muito menos seres humanos transformados em deuses, confusão que acredito ter sido iniciada pelos missionários que tiveram contato com algumas partes do continente africano a partir do século XV, depois seguida por alguns antropólogos.

Acho que esta confusão pode ser esclarecida, chamando a atenção para o fato de, nas chamadas religiões tradicionais africanas, o movimento ser humano-divindade, acontece ao contrário. Em outras palavras. Não é o ser humano que procura chegar até o Sagrado através de uma série de exercícios bem conhecidos por alguns de nós, haja vista a convivência com o Cristianismo e outras religiões como o Islamismo, mas é o Sagrado que vem até nós. Essa noção vai reaparecer nas religiões afro-brasileiras.

No mundo da vida participamos igualmente como tudo que tem vida. Nos últimos tempos alguns biólogos juntamente com a física quântica têm chamado a atenção para isso.

ATENÇÃO AOS MITOS

Para nós, descendentes de africanos e africanas, basta prestarmos mais a atenção aos mitos. Assim, dizemos que os orixás, vodus e ninkices se manifestam na Natureza, por exemplo.

Quando falamos Natureza, não estamos nos referindo apenas a tudo que é verde como se costuma associar, mas a tudo que tem vida e a tudo que está para viver por que a vida nunca acaba. Foi essa filosofia que preconceituosamente foi chamada de animista ou primitiva.

Nas comunidades-terreiros, os ancestrais se vestem de natureza, ora são a terra, o sol, a lua, as estrelas, as árvores, o mar, os rios, os raios, a tempestade, assim por diante.

INICIAÇÃO

A ancestralidade, todavia, não pode ser resumida a esta. Ela se expressa também nas pessoas, na comunidade, visivelmente em seus corpos. Isso acontece em vários momentos, mas nenhum é mais especial do que o da iniciação.

No processo de iniciação cada comunidade-terreiro de acordo com a sua tradição reconstrói o divino negado quando homens e mulheres negras foram transformados em “coisas”, “peças” pela escravidão, ou ainda hoje quando estes recebem uma série de qualidades negativas baseadas em suas características físicas.

Na iniciação recebemos marcas rituais que nos permitem não somente recuperarmos o nosso corpo, mas também ganharmos consciência de que somos na verdade uma manifestação do divino.

CAIR NO SANTO

Assim, os orixás, ou qualquer outro ancestral “não sobe”, “nem baixa” em ninguém, pois somos parte desses princípios criativos. Talvez a melhor expressão, hoje pouco ouvida, seja mesma a “cair no santo”. No sentido de deixar-se levar pelo Sagrado.

Pena que a expressão “está manifestada” ganhou um sentido tão pejorativo. Estar no santo, aqui no sentido, não de santo católico, mas de Sagrado, permite a cada membro da comunidade fazer a sua experiência juntamente comigo que estou pleno do Sagrado.

Cair no santo” é uma verdadeira hierofania, manifestação do Divino. Esse pensamento conduz em alguns momentos a considerar algumas pessoas como manifestação viva de um ou outro ancestral.

ORIXÁ VIVO

Várias vezes se podem ouvir nos terreiros, “você é um orixá vivo.” De fato, este é o desafio que recebemos na iniciação, tornarmos vodunsi, ou ainda muzenza, ou yawô, esposa.

Na iniciação tomamos consciência de nossa ancestralidade, do Sagrado que esta em nós, nos apropriando de nossa humanidade.

Além da natureza, das pessoas, a ancestralidade se manifesta nas mulheres, capítulo que deve ser escrito a parte dada a sua importância para entender a continuidade da ancestralidade através dos antepassados.

Estes são nossos pais e nossas mães biológicas que representam famílias extensas referenciadas através da expressão Baba mi, meu Pai, ou Ya mi, minha Mãe.

As mulheres são responsáveis pelo Baba tundê, expressão que significa o retorno dos pais através dos filhos, o que somente é possível graças ao poder dividido por todas as mulheres com as Grandes Mães, representada pela terra.

A mulher foi o único ser humano que, segundo um mito yorubá, acompanhou os ancestrais no momento de compor o Universo.

PALAVRA DITA NA HORA CERTA

A ancestralidade se expressa ainda de forma muito particular nas múltiplas linguagens que desde cedo africanos e africanas, juntamente com seus descendentes reelaboraram no Brasil.

Estas dizem respeito a palavras ditas na hora certa, pronunciadas corretamente, ou simplesmente balbuciadas no ouvido de uma pessoa. Ela inclui não apenas o dito, mas também o não dito e o segredo, além daquela escrita diferente da convencional que estamos acostumados a ver.

ANCIÃOS E ANCIÃS: UM PATRIMÔNIO

A ancestralidade se expressa nos velhos e velhas, chamados de tio ou tia. Os anciãos e anciãs constituem o maior patrimônio numa comunidade terreiro. Cabe a eles manter, zelar, proteger ou mesmo atualizar a chamada tradição.

Por fim, a ancestralidade se manifesta na morte, entendida não como aniquilamento, mas como continuidade no mundo dos antepassados que sempre estarão presentes através da noção de família, reinventados pelas comunidades terreiros.

Assim quis Olodumaré, quando diante da imensidão de águas foi arrancando partes de seu corpo que, caindo sobre estas, foram formando os caminhos, o princÍpio da comunicação, a tecnologia, a força que faz brotar os grãos, os remédios, a fertilidade, a fecundidade, a justiça, a guerra, entre outros princípios.

MISTÉRIO

Desta maneira, os orixás, vodus e nikices não têm sexo. Somos nós que falamos destas experiências a partir de nossas realidades. A isso chamamos de projeção religiosa. Todas as religiões fazem isso. Sabemos, no entanto, que o Sagrado extrapola a tudo que possamos falar dele. Talvez seja melhor nos contentarmos com o fato de que é por isso que ele é Mistério e somente assim nos atiraremos nele.

*Vilson Caetano de Sousa Junior – Doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBa, filho do Terreiro Pilão de Prata

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2 Respostas to “ANCESTRALIDADE AFRO-BRASILEIRA”

  1. Delfino Germano de Araújo Says:

    Há tempos estava procurando informações que pudessem clarear a minha visão sobre ancestralidade. cheguei até a enviar e-mail para o FONAPER (Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso), pedindo esclarecimento, mas não tive retorno. E essa matéria clareou bastante as minhas dúvidas. Se possível, solicito mais esclarecimento sobre o assunto, através do e-mail dg0284101@gmail.com

  2. Mylena Drew Says:

    muito bom esse site

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