NEGUINHO, SAMBA E DONOS DO “REGGAE”

Neguinho de branco-Haroldo

NEGUINHO DO SAMBA – Foto: HAROLDO ABRANTES | Agência A Tarde

por JORGE PORTUGAL


Quando a célula rítmica do samba-reggae invadiu o coração de Paul Simon, a pélvis pop de Michael Jackson também foi tomada por um frisson alucinante.

Muito antes, bem antes de tudo isso, os negros de Salvador já viviam a utopia, através do som, de juntar Jamaica e Bahia em um sonho só.

Caetano Veloso costuma dizer que o Brasil ainda não merece a Bossa Nova. Seria o caso de se perguntar: e a Bahia merece o samba-reggae?

Sim, porque a sublime invenção do Mestre Neguinho do Samba permanece como o que há de mais avançado, musicalmente sofisticado e inspirador de tudo que se fez em nossa música depois da Bossa e da Tropicália.

Ouvir e ver o Olodum arrastando multidões pelo mundo é confirmar esse destino nosso de conjugar inteligência e alegria para produzir felicidade. Isso é coisa da Bahia. Coisa de negro, gostem ou não.

Aí, Zulu Araújo me liga de Brasília (e eu em Sergipe) e me comunica, num tom triste de voz, que Neguinho do Samba havia morrido e que precisávamos nos articular para o velório e enterro, vez que sua família não estava exatamente nadando em facilidades financeiras.

O filme voltou de vez. O primeiro engenho, a primeira catedral católica, as suntuosas casas de fazenda, os palacetes erguidos nas primeiras cidades, os filhos dos barões estudando em Coimbra ou Paris. E os negros cortando cana, quebrando pedra e cantando chula.

O samba-reggae, a batida do Ilê, do Malê e do Muzenza, a chula de João do Boi e Alumínio de São Brás serão sempre matrizes fundamentais da nossa criação. Os seus criadores são anjos negros que fazem tudo isso para celebrar o prazer e a vida. Dificilmente pensam em dinheiro. Aliás, não sabem sequer o que realmente significa dinheiro. Mas os “donos da festa” sabem, e sabem muito bem.

Por isso, Neguinho do Samba, Mestres Bimba e Pastinha, Besouro, Nelson Maleiro e Batatinha serão eternamente reverenciados e adorados pelo povo, de onde vinha sua inspiração e para onde voltava sua produção de alegria.

Morreram pobres todos eles. Pobres? E o que dizer dos que só podem fazer sucesso a partir do que eles criaram?

Neguinho: você é e será sempre fonte. Gênio da raça, meu rei.

Jorge Portugal – Educador e compositor

secretaria@jorgeportugal.com.br

Anúncios

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: