ABOMINÁVEL DESAFRICANIZAÇÃO

Ilustração: CAU GOMEZ

Ilustração: CAU GOMEZ

por ZÉDEJESUSBARRÊTO

 

ATENTADO AO POVO NEGRO

 

Racismo, colonialismo, fundamentalismo religioso, ideologias totalitárias, intere$$es e a tal globalização. Não é de hoje o processo de desafricanização do povo negro. Pelo mundo afora e dentro do próprio habitat africano.

Na escravidão, era preciso desagregar, fazê-los perder a identidade. Na ocupação colonialista, apagar os vestígios tribais, nacionais para melhor exercer a opressão.

E vieram a catequese católica, a jihad islâmica, os cultos xiitas, os ditadores de direita e de esquerda a serviço do mercado e em nome da modernidade a extirpar as raízes dos mistérios da alma africana.

Para dominar é preciso mudar crenças, costumes, desatar os laços da história do povo, enterrar de vez as lembranças dos ancestrais e os ensinamentos dos antepassados. Até as línguas tribais, nativas, estão sendo deletadas. É um processo lento, às vezes mais acelerado aqui e ali, mas contínuo.

Foi assim na América do Norte, com a segregação posta em prática pelos brancos e seu presbiteranismo pleno de culpas. Sobrou o blues. E também na pobre América Central, do Haiti a Cuba, os negros resistindo com seus vudus e santerias, malocados.

Na África ‘moderna’ ninguém mais sabe o que é um Orixá, um Vodum, um Inquice. Onde se escondem os encantados da Mãe África, silenciados pelas armas, espantados pela busca ao petróleo e aos diamantes, massacrados por doutrinas alienígenas, com seus amuletos e objetos sagrados vendidos feito bugigangas de feira?

Os espíritos dos antepassados vagam assustados com o barulho dos carrões de luxo amassando a penúria, dos tratores abrindo estradas na desgraceira, com o zumbido das vuvuzelas que encherão os estádios da África do Sul na ‘copa dos miseráveis’, os olhos da meninada faminta e esperançosa vidrados nas telinhas da tevê, dos notebuques e dos celulares.

Ah, restam os tambores e os corpos dançantes do povo negro a resistir sem saber bem ao quê nem o porquê. Apenas por instinto ancestral. No ritmo celebram o reencontro com as origens, nos tambores buscam a identidade perdida, roubada.

 

E aqui, nesta nossa Bahia – Salvador e Recôncavo – que tanto se orgulha (ou se orgulhava?) de ser o mais negro dos sítios fora da África?

Primeiro, os africanos deserdados seriam transformados em crioulos, depois mulatos. Era preciso branquear… ou colorir (?) a ‘sociedade’.

Mas, a despeito de toda opressão, nas águas, no caldeirão da Baía de Todos-os-Santos misturou-se tudo: caboclos das matas, divindades de Congo, Angola, Nigéria, Guiné, Benim… e santos barrocos. A mão no couro e o toque do berimbau congregaram os negros. Era preciso resistir. Retomar a identidade negra massacrada, a partir das raízes ancestrais, das crenças tribais, significados da vida.

E a resistência se deu (e se dá ainda) a partir dos terreiros, das lembranças dos pretos velhos, dos aconchegos da mãe-de-leite, do saber das grandes Yás, mães da Bahia, dos batuques, da dança, das oferendas, do respeito à Natureza-mãe.

Uma resistência rítmica que se vê no canto, no culto, na alegria, na labuta de cada dia, no nariz empinado, na beleza negra, na esperança que rebrota nos guetos, em cada carnaval, cada oferenda, no brilho dos olhos de cada criança que brinca, que consegue estudar e comer.

O processo de aculturação dominador continua, forte e atuante no preconceito disfarçado, na intolerância, na demonização das divindades afrobaianas, na proliferação de ‘templos’ bodegueiros ditos evangélicos, presente nos brados das bocas de alto-falantes, nas pregações ao vivo e pelas dezenas de rádio/canais de tevê, no tráfico que arrebanha adolescentes na tora, no engodo marqueteiro da grana fácil… tudo ‘em nome de Jesus’.

E mais ainda no assédio ameaçador a cada negro/mulato/branco… que use suas guias no pescoço, que vista branco às sextas-feiras, que arrie suas oferendas nas águas, que creia nas forças supremas da Natureza, que reverencie os toques dos alabês…

A menina de pele preta tem o cabelo ‘chapinha’, come acaramburguer (ou um ‘mec-jé, ou um ‘acarajé de jesus’) e sonha em ser uma celebridade, já, sem qualquer pudor.

A desafricanização acontece também na folclorização do Axé, no uso desrespeitoso do sagrado.

Outro dia li assombrado nos orelhões da cidade: ‘Senhor do Bomfim é o demônio, Oxalá é satanás’. São chicotadas ‘bíblicas’ no lombo afrobaiano. Farsantes passam à frente dos terreiros, sítios sagrados, xingando, atirando pedras, ameaçando.

Quem são esses algozes e a serviço de que ‘deuses’ assim agem, em pleno século XXI?

A gente negra baiana não quer demanda, palanque ou esmolas.

Só respeito.

O povo-de-santo não faz proselitismo. Luta pelo direito de ser e professar a religião de seus antepassados. Como povo livre, digno.

Lembro-me de um papo com Gilberto Gil, compositor, ex-ministro da Cultura. Gilberto Gil, às vésperas de uma festa da Lavagem, anos 1970: “O que seria do Senhor do Bonfim não fosse Oxalá, na Bahia?”

Estendo:

O que seria da Bahia sem o fazer, sem a cultura dos negros? O que será da Bahia sem vestígios da bela e rica herança africana?

Não é tempo de calar!

PS: Não carrego bandeiras.

Li (e aprendi) nos muros da velha cidade aflita: ‘quem milita se limita’.

São apenas ‘baianices’, reclames de um cidadão, filho e amante desta cidade.

 

zédejesusbarrêto é jornalista e baiano (zedejesusbarreto@uol.com.br) out/2009.

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2 Respostas to “ABOMINÁVEL DESAFRICANIZAÇÃO”

  1. LOURENÇO MUELLER Says:

    CARO ZDJB:
    Estimo que pessoas como você se expressem tão bem sobre esse processo cruel de esmagamento de uma cultura.
    Quanto a esta frase:
    “…A menina de pele preta tem o cabelo ‘chapinha’, come acaramburguer (ou um ‘mec-jé’, ou um ‘acarajé de jesus’) e sonha em ser uma celebridade, já, sem qualquer pudor…”
    …é pior: é um processo de “globalização” (de Rede Globo, mesmo) de todo o país dessa mídia consumista de produtos e de pessoas, de transformação da realidade numa enorme alegoria de marketing, de uma estética e de uma linguagem padronizadas, e mais, de uma ideologia comprometida com a não-crítica, com o bom mocismo.

  2. maisa paranhos Says:

    Ouvi há muito tempo da prfª Edenice, em pleno movimento grevista, um verso citado por ela, que é mais ou menos (me perdoem…) assim:

    “Um dia me roubaram da África
    Outro dia roubaram a África de mim”

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