A VIA-CRÚCIS DO TRICOLOR BAIANO

Em dia de treino do Bahia no Fazendão, o torcedor Léo Martinez joga sal grosso na passagem dos jogadores... Foto: EDUARDO MARTINS | Ag. A Tarde 19.10.2009
Em dia de treino do Bahia no Fazendão, o torcedor Léo Martinez joga sal grosso na passagem dos jogadores… Foto: EDUARDO MARTINS | Ag. A Tarde 19.10.2009

O BAHÊA PADECE DE URUCUBACA

 

por ZÉDEJESUSBARRÊTO

 

Paixão popular, ícone da velha baianidade – “sou baiano, sou Bahêa” – que se esfuma com os novos apelos do milênio, o Bahia, campeão brasileiro de futebol duas vezes, time de maior torcida do Nordeste, agoniza à beira da terceira divisão, humilhado em campo e falido fora dele. Segue a sina do Ipiranga, “o mais querido” antes da era Fonte Nova.

Para muitos, o “esquadrão de aço” teria morrido com o mitológico cartola Osório Villas-Boas (meado dos anos 90), enterrado com uma bandeira do clube no caixão, para desespero dos supersticiosos.

Clube não, time de futebol, assim fundado por um grupo de jovens atletas e pequenos empresários, em 1931, com o slogan “Nasceu para Vencer” e as cores da bandeira baiana. E honrou a mística tricolor com conquistas, glórias, uma torcida de massa única e uma “estrela” que sempre alumiava na hora precisa.

Para outros, o grande campeão morreu com a tragédia da Fonte Nova, seu palco maior. Ou teria sido enterrado de fato na nebulosa transação com o banco Oportunity, quando foi transformado em “basa-bahêa s/a”, assim, com minúsculas. Alma penada.

Nascido tricolor (dizem que mãe e time a gente não escolhe), apaixonei-me pelas cores, pelo hino do mestre Adroaldo e pela torcida devota nos anos 50, era de Oswaldo, Bacamarte, Juvenal, Maneca, Naninho, Lierte, Izaltino, Carlito, Marito… Saudades! Sei apenas que a lamparina apagou, a camisa desbotou. O torcedor envelheceu, no desolo.

Esse “baêa” hoje sem identidade padece de três males fatais: inhaca, urucubaca e incompetência. Ou, murrinha ruim, daquela que dá medo, gera insegurança, vira doença; muito azar, pois tudo dá errado, parece “coisa feita”; e má administração, baixo nível dentro e fora de campo.

Com o time à beira do inferno, exaurido, os cartolas torram a sede da Boca do Rio e vão mudar o CT de Itinga para as imediações de Arembepe, fora de Salvador e longe do torcedor, única razão de ser do time.

Que mudem o escudo, o hino, passem a régua, pois o “campeão dos campeões” está morto, matado, foi. Teremos o “baêa de Camaçari”. Não tem o Bahia de Feira?

 

 

 

 

Ilustração: BRUNO AZIZ

Ilustração: BRUNO AZIZ

 

 

 

COMO SALVAR O BAHIA

 

por JC TEIXEIRA GOMES

 

Em recentes entrevistas dadas pela internet e em rádios, declarei que a degradação do Esporte Clube Bahia, por culpa das sucessivas diretorias que o infelicitam há cerca de dez anos, transcendia o âmbito puramente futebolístico para situar-se como um problema social de magnitude.

Poucos clubes no Brasil se identificam tanto com o povo como o Bahia. Não é apenas um time de massa como Flamengo ou Corinthians.

Quando entra em campo, sob o fragor da sua imensa torcida e o vistoso movimento das coloridas bandeiras, a paixão que o Bahia desperta se iguala a uma sentimento de comoção cívica. É como se fosse um pedaço da terra baiana invadindo o gramado para uma batalha épica. O Bahia provoca a fanática emoção do patriotismo.

Isto se dá por um conjunto de fatores. As cores – o vermelho, o azul e o branco – que são as mesmas da nossa bandeira. O nome, que é o mesmo da nossa terra. O vigor e o entusiasmo da sua torcida, que constitui notável expressão sociológica da nossa composição, como povo multirracial que se integra em mística devoção, superando todas as barreiras e diferenças sociais, étnicas e religiosas.

O Bahia representa, no campo esportivo, o mais perfeito exemplo do sincretismo cultural que distingue a Bahia de todos os demais estados brasileiros e faz da nossa terra uma realidade incomparável, por única.

Eis porque se torna inadmissível que o clube tenha chegado ao nível de humilhação a que foi atirado pelas administrações que o desmoralizam há tantos anos consecutivos.

Vejam que não se trata de caso isolado, de um declínio passageiro, de uma queda circunstancial. As últimas diretorias do Bahia conseguiram uma façanha esportiva realmente inédita: inventaram a crise ininterrupta, a decadência irreversível, a degradação permanente, portanto a mais injustificável e dolorosa.

Todos os adjetivos se tornam impotentes para qualificar o assombro e o indignação da torcida tricolor.

Um longo passado vitorioso, obtido por gerações sucessivas em anos de luta por todos os campos do Brasil, despenca sob as mãos desastrosas de gente como Marcelo Guimarães, Rui Acioli, Petrônio Barradas e agora o jovem Marcelo Guimarães Filho, formando uma cadeia de dirigentes desastrados, objeto das críticas mais contundentes e da unânime rejeição de todos os verdadeiros tricolores, mas irredutíveis no estranho propósito de destruir um insubstituível patrimônio esportivo da Bahia.

São os “maracajistas”, conforme os denominei em entrevista recente, criando uma palavra nova mas adequada, isto é, os afilhados e protegidos de Paulo Maracajá, que, impossibilitado de voltar a presidir o clube pelo emprego que obteve no Tribunal de Contas, manipula seus delegados à distância. Antes, ele o fazia na esperança de voltar como salvador algum dia, no fim do seu ostracismo. Agora, diante do descalabro total do tricolor, simula em entrevistas que suas ambições são coisa do passado.

Pois bem: toda essa gente se uniu há longos anos para destruir o Bahia. Não tanto por um desejo explícito, pois a desmoralização do Bahia é a deles próprios, mas simplesmente porque são incompetentes, não têm visão administrativa e dominaram com mão de ferro todas as demais instâncias de decisão do clube para arruiná-lo.

Lançaram o Bahia em todas as divisões inferiores, não conseguem ganhar nem o campeonato baiano, fazem contratações desastrosas (como a de Paulo Carneiro, confissão de falência de comando), jamais conseguiram armar um time digno, estão alienando todo o patrimônio sem construir coisa alguma, as rendas dos jogos somem pelo ralo (ou pelos bolsos), as contas (irregulares) vivem sob suspeita, como o provou A Tarde em recente reportagem.

É espantoso, mas essa é a cruel realidade de um Bahia apequenado, sob a triste dinastia dos maracajistas, que apagaram a estrela tricolor, pois, além de ineficientes, são também pés-frios. Perdem sempre. Mas não querem largar o osso apodrecido.

Confesso que só vejo um caminho para a salvação: voltar a torcida às ruas, como em 2006, e depois organizar-se para, num movimento cívico como a insurreição do Dois de Julho, impedir o continuísmo da tropa dos azarados, para que o Bahia enfim se soerga e reencontre o caminho da sua perdida grandeza.

 

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Uma resposta to “A VIA-CRÚCIS DO TRICOLOR BAIANO”

  1. Bernadette de Freitas Says:

    EU MORO EM PORTO ALEGRE, MAS CONTINUO A SER TRICOLOR E A AMAR O MEU BAHIA. PODE IR PARA A POSIÇÃO QUE FOR MAS CONTINUO A SER FIEL – E COMO! – AO MEU TIME. ALIÁS AQUI SOU SIMPATIZANTE DE UM OUTRO TRICOLOR QUE É O GRÊMIO DE PORTO ALEGRE. MAS MEU CORAÇÃO VIBRA COM AS CORES VERMELHA, AZUL E BRANCA. VIVA O BAHIA!

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