ENTREVISTA COM ROBERTO MENDES

ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

NÃO NEGOCIO OS MEUS COSTUMES”

 

por CLARISSA BORGES*

 

O músico, compositor e pesquisador Roberto Mendes é um divulgador da cultura de Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo Baiano. Mais do que isso, personifica os valores e tradições do lugar como alguém que se funde com a própria terra. Essa fusão se traduz na busca da preservação e disseminação da chula em todas as suas vertentes, sua principal contribuição à música brasileira.

Admirado e gravado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, tem em Maria Bethânia sua maior incentivadora e a quem confere o título de “estímulo da minha canção”.

Mas o artista prefere atribuir créditos pelo seu sucesso a chuleiros de Santo Amaro, como Zé do Boi, que lhe garantiram “respaldo para brilhar”. A cultura de sua terra também forneceu material para escrever, com Waldomiro Júnior, o livro Chula – Comportamento Traduzido em Canção.

O apego às raízes não impede, entretanto, que Roberto Mendes busque sonoridades diferentes daquelas originadas no Recôncavo. No disco mais recente, Cidade e Rio, convidou Guinga, Alcione, Lenine, Mário Ulloa, Marco Pereira e Pedro Luiz, sem dispensar a presença de seu parceiro mais constante, Jorge Portugal.

Em entrevista concedida à série Memória da Bahia (publicada aos domingos pelo jornal A Tarde e por A Tarde On Line), Roberto Mendes fala sobre matrizes culturais, sua identificação com a cantora e conterrânea Maria Bethânia e critica a postura do Estado em relação à cultura.

 

Sua identificação com Santo Amaro da Purificação é decisiva na sua música. Como foi a infância no município?

ROBERTO MENDES – Basicamente eu sou santo-amarense. Isso é o que me faz ser eu, o resto é consequência de morar na cidade, de nascer e debruçar na memória e viver 24 horas na memória. Não acredito em futuro, não vejo possibilidade de futuro existir na vida de ninguém. Eu penso o aqui e agora, respaldado na memória. A infância foi muito boa. Santo Amaro é uma cidade extremamente provinciana. O Recôncavo é privilegiado porque, quando houve a falência da monocultura de açúcar, até geograficamente, não teve a possibilidade da invasão da indústria moderna. Faliu a cana-de-açúcar, mas ficou a cultura viva. Poucas regiões do mundo têm essa unidade comportamental que tem o Recôncavo, por não ter essa invasão.

 

Quando a música entrou na sua vida?

RM – Em Santo Amaro, fazia parte do código de postura da cidade o canto orfeônico. Então fazer música em Santo Amaro nunca foi nada de absurdo. O primeiro disco gravado no Brasil, quem gravou? Um santamarense, baiano, nas Casas Edson, em 1902. Gravou uma canção de Xisto Bahia, um lundu, quem gravou foi Manuel Pedro dos Santos. O primeiro samba, que se supõe que foi gravado também, com este comportamento de samba, definido como samba, foi Pelo Telefone, gravado por Dunga, que era criado por Tia Amélia, prima das Ciatas, de Santo Amaro. Então Santo Amaro tem essa herança. A família que tinha dois filhos, um tinha que ser padre, o outro, músico. Na minha, todo mundo tocava.

 

Como era a presença da música na sua família?

RM – Minha irmã, que me criou, estudou música com a leitura mais acadêmica da canção. De certa forma, ela influenciou a mim e a César – meu irmão – a ter noção da razão musical. Mas, logo depois, eu me encontro com outro tipo de música, que é a música orgânica, onde não se exigia tanto do comportamento, e era uma música mais livre, como as chulas, o canto do maculelê, a barquinha, a burrinha, a marujada. Aí você vê exatamente a interferência da língua no canto.

 

Diferente de alguns conterrâneos, você não saiu de Santo Amaro. Por que ficar?

RM – Eu acho que eles saíram para eu poder ficar. Eu não sinto saudade, nunca senti a dor da saudade que eles sentem. No fundo, eu sempre achei perigosa a situação de sair da sua terra e ter que negociar os seus costumes para ter uma boa convivência na terra dos outros. Não gosto da terra dos outros, gosto da minha. Eu posso ir na terra dos outros para levar a minha, em visita, mas não tenho pretensão nenhuma de sair e viver negociando os meus costumes com os costumes alheios. Talvez seja isso que me faz até hoje estar lá.

 

As próximas gerações terão acesso às tradições que você tem preservado? O governo tem cumprido este papel?

RM – Não, o governo não tem interesse nenhum nisso. Primeiro que o governo é totalmente desinformado. O Ministério da Cultura não pode cuidar de arte, fomentando artista nem produto artístico, não tem cabimento. Por outro lado, não pode estar colocando dentro de um avião pessoas, as matrizes de seu País, e mandando fazer lavagem no inferno, sei lá, na França. Isso é uma mediocridade singular. É tornar aquilo que é regra exceção e torná-la folclórica. É incompetência, burrice do Estado, que não sabe nada de cultura. A cultura é para ser preservada, os costumes. O que é cultura, na realidade? Herança de costumes que definem o comportamento de um povo. Qual é o binômio de sustentação de um povo? A maneira de falar, que é o canto, e a culinária. Então isso é a obrigação do Estado.

 

Acredita, então, que a chula não será preservada?

RM – Nós temos a cultura de que o bom sempre está do outro lado do rio. E eu digo isso muito à vontade, porque me considero um grande artista porque consegui brilhar na minha terra, seduzi as minhas matrizes, fiz um dia com que o meu vizinho pedisse silêncio para me escutar. Eu me sinto bem, não porque o jornalista diz sobre mim, porque o jornalista não sabe nada, não é porque o crítico diz, porque o crítico sempre foi equivocado, não sabe nada. Quem me respalda a estar aqui dando entrevista hoje é dizer que eu sou amigo de João do Boi, de Zeca Afonso, chuleiros que me deram essa formação. Não sei se isso será preservado porque os meninos não terão essas matrizes mais, e o Estado cinicamente não preserva isso, ele tem vergonha de mostrar o Brasil real.

 

Maria Bethânia se refere a você como um artista fora do comum. Como surgiu essa relação com ela?

RM – Bethânia é a pessoa que me dá a voz, é o estímulo da minha composição. Eu era menino em Santo Amaro e já tinha Bethânia como uma grande força. Nós tínhamos Caetano, Gil, Bethânia, essa geração, como o grande sustentáculo do pensamento da indústria fonográfica brasileira. Mas Bethânia, mesmo morando no Rio, mesmo vivendo fora, tem uma coisa que me impressiona muito. Ela é provinciana. Ela está no Rio, mas Santo Amaro está dentro da casa dela. Eu não tenho nada contra quem está em outros lugares, querendo o mundo. Eu não tenho é a capacidade de entender isso. E eu entendo mais rápido Bethânia talvez porque Bethânia se permita a esse patamar de entender um provinciano.

 

*Clarissa Borges é repórter da Web TV A Tarde 

 Foto: Abmael Silva | Agência A Tarde  

Veja os vídeos desta entrevista através dos seguintes links:

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257660

 
http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257656

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257654

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257653

 

Agora, uma contribuição do YouTube para esta discussão: samba-chula gravado em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, com Milton Primo tocando a viola machete ao lado de Zé de Lelinha do Samba Chula Filhos da Pitangueira.

 

 

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7 Respostas to “ENTREVISTA COM ROBERTO MENDES”

  1. barreto Says:

    que belezura!
    a fala do irmãozinho Roberto Mendes, o registro dos Filhos da Pitangueira, a luminosidade do riso de Clarissa…
    a bênção Recôncavo
    a bênção minha Bahia!
    Nada pode acabar essa magia!

  2. Bernadette de Freitas Says:

    Cada vez mais eu digo que esta terra é a maior de todas. Por tudo o que a gente vê, escuta, e fica-se sabendo. E uma terra de magia sim, de encanto, de maravilhas e de grande cultura musical. E vendo este vídeo dá nitidamente para ser dito que realmente o samba nasceu na nossa Bahia, ele foi criado no Recôncavo. E que pureza de som e que maravilha, Milton Primo. Por isso tudo devemos agradecer por termos esta riqueza cultural tanto na música como na poesia, na literatura, no cinema. A Bahia tem muita gente boa no cenário cultural deste país. Parabéns povo baiano!

  3. Tavinho Magalhães Says:

    É com muito orgulho e satisfação que vejo essa reportagem, Roberto Mendes é um grande mestre da cultura popular, tive o privilégio de conviver e aprender bastante com ele.

    Parabéns à jornalista Clarissa Borges pelo belo trabalho.

  4. Herculano Neto Says:

    É sempre bom
    ler, ouvir e escutar
    Santo Amaro,
    a chula,
    a vida.

  5. carlos faccion Says:

    Gostaria do contato com o Roberto Mendes. Gostaria de comprar um livro com ele, Chula…

  6. Maria G. Queiroz Prado Says:

    É encorajador quando se encontram pessoas que valorizam a cultura de sua terra, pois ela representa o nosso sentimento, a nossa raça e a nossa garra.
    Você, Roberto, merece toda a minha admiração, pois sou também santamarense e me orgulho de o ser, busco as minhas origem e fico feliz de saber que nosso Santo Amaro é rico na sua cultura, na sua gente simples, só esperando ser descoberto. Parabéns pelo trabalho que vem desenvolvendo.

  7. Evany O. Rodrigues Says:

    Por que não encontramos a letra de “Tira essa mulher da roda” nos sites? Alguém conhece? Cansei de garimpar e preciso dela, urgente!

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