POEMA DE EDMUNDO CARÔSO

 

 

REPENTE SOTEROPOLITANO

 

Tieta pastora as tetas dentro de um dicionário.

(Foi Florisvaldo quem disse que São Jorge Amado era

o inventor do abecedário.)

Caymmi levou a rede na jangada de Risério

e a cobra mordeu Caetano em pleno show dos Doces Bárbaros.

 

Pierre Verger se senta com Oxóssi num batente

Capinam, com um bisturi, corta o abará do azeite

João Ubaldo se engasga com um poema diferente

e Edil Pacheco se zanga vendo o samba usando tênis.

 

Waltinho Queiroz convidou Alceu pra cortar quiabo

(caruru pra Pernambuco se faz com o amigo ao lado)

Pintado do Bongô era um taxeiro encantado

e Béu Machado uma festa de querubins no telhado –

os dois teceram mais teias do que aranhas num sobrado.

 

Com Glauber na maré cheia e uma câmera quebrada

J. Velloso enquadrava um surubim que cantava.

Gilberto Gil foi buscar sua sanfona guardada

Ramiro Musotto veio num berimbau que voava.

 

Pelos tambores de Brown Zélia fez uma viagem

com Ildásio e Riachão, de Salvador a São Félix.

Teve gente, caldo quente, teve Dadá, teve festa

e a terceira vez de Quincas quando serviram a moqueca.

 

Ó, Bethânia! Ai, Gal Costa!

Sonhar é tudo que resta nessa Bahia encantada

me deixem dormir, meninas,

se eu acordar perde a graça.

(Edmundo Carôso é poeta e escritor)

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