A BÊNÇÃO, MÃE STELLA

FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

por zédejesusbarrêto

Maria Stella de Azevedo Santos, 84 anos, a Mãe Stella de Oxóssi, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de nação ketu fundado em 1910, no bairro de São Gonçalo do Retiro, um dos mais respeitáveis do candomblé baiano, é uma mãe-de-santo moderna e rigorosa na prática dos fundamentos de sua religião. É uma sacerdotisa, senhora do saber, matriarca de uma linhagem iorubá nigeriana, com raízes na cidade de Oyó, reino de Xangô, que deu à Bahia mulheres inteligentes e marcantes como a pioneira Yá Nassô (dos terreiros da Barroquinha e Casa Branca, século XIX), Menininha do Gantois, Mãe Aninha (fundadora do Opô Afonjá), Mãe Senhora, todas já no reino dos ancestrais.

Por escolha de Xangô, com a morte da Yá Ondina, Mãe Stella abandonou a profissão de enfermeira e assumiu o comando do Opô Afonjá em 1976. Desde então, dedica-se à preservação do culto e à transmissão do conhecimento, mantendo a tradição oral, e também  através de escritos e livros, como “Oxóssi,O Caçador de Alegrias” (dedicado ao Orixá da caça, que rege a sua cabeça) ; “Meu Tempo é Agora”, escrito com o propósito de disseminar ensinamentos; “Owé –Provérbios”, em português e iorubá; e “Epé Laiyé –Terra Viva”, uma parábola para crianças, em defesa da natureza-mãe: “O que não se registra o vento leva”, diz com sabedoria.

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella está sendo homenageada esses dias pelos 70 anos de iniciação como filha de Oxóssi (Odé). Seu nome sagrado em keto/ioruba é Odé Kayodê, que significa ‘Caçador da alegria’.  Durante a semana ela foi agraciada com o título de doutora ‘honoris causa’ da UNEB e neste sábado (12.9.09) à noite os atabaques do Ilê Axé Opô Afonjá bateram em sua honra.

Stella é o cromo da vida./ Stella rabisca em mim/ a aquarela vermelha de Xangô/ meu pai e o outro que eu sou./ Stella me dá a Xangô./ X angô me dá a Stella./ Stella acende a grande fogueira de estrelas./ Stella de Oxóssi é a dama do balé dos silêncios”

(Fernando Coelho, Ogã de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá, jornalista e escritor)

Eis alguns pensamentos da sacerdotisa de Xangô:

“A natureza conversa conosco a todo momento, basta saber entendê-la ou dar mais um pouco de atenção a ela. Tudo o que a nossa religião professa advém da natureza”

“O Candomblé não é um produto do turismo étnico. Somos uma religião, temos nossa liturgia, uma teologia, dogmas e segredos. Temos de preservar nossos princípios e valores com todo o respeito”

“É só frequentando a roça que se aprende a religião, e se aprende no desempenho das tarefas mais simples”

“Vivemos o tempo presente, nosso tempo é hoje, já, agora. Só pode falar ‘em meu tempo’ alguém que não faça mais parte deste tempo: depois de ter atravessado a porteira do tempo… Quem vive é deste tempo, de agora!”

“Falar de um Orixá é voltar no tempo, tentando decifrar o mistério do indecifrável, aquilo que apesar de ser experienciado, vivido e sentido não pode ser traduzido em uma única forma, pois tendo todas as formas, nenhuma delas o revela

Os orixás são concebidos como seres primordiais, expressões divinas das forças da natureza, um poder imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos através do fenômeno da incorporação”

“A vestimenta de cor preta, para nós, é negativa. Nunca se entra num Ilê Orixá com roupas pretas. Aliás, o mais importante é que não se penetre  em casas e quartos de Orixá sem o convite da Iyalaxé ou de alguém responsável e com poderes para isso”

“Dou um conselho aos visitantes e amigos do Axé: Não perguntem, observem!”

“Quem for a uma festa de Orixá, num terreiro, chegue com respeito e amor. Nada é cobrado, nada se fotografa, nada é gravado. Ali é um lugar sagrado, não deve ser profanado. Os terreiros estão abertos a todos que souberem chegar”

“A fé não se impõe, nem se chega a ela pelo intelecto. Chega-se ao orixá pelo coração”

“Você pode até ir à missa e ao candomblé, mas não mistura santo com orixá. O sincretismo é resquício da escravidão, o senhor queria que o negro fosse católico e ele, para agradar, dizia que era. Mas agora somos livres, não precisamos disso”

“O descendente de africano não é obrigado a ser de candomblé. Isso é ridículo. Não escolhemos o Orixá, ele é que nos escolhe”.

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

SETENTA ANOS DE AXÉ

por Marlon Marcos*

Ela é neta de Aninha de Afonjá e filha de Mãe Senhora de Oxum. Por pouco não foi iniciada na liturgia do candomblé por Mãe Menininha do Gantois. É regida pelo senhor da fartura, patrono dos caçadores, o altivo orixá do azul turquesa: Odé, mais conhecido como Oxóssi. Maria Stella de Azevedo Santos nascida em Salvador, em 2 de maio de 1925, enfermeira de profissão, é hoje a sacerdotisa da religião dos orixás mais prestigiada no mundo.

A história desta mulher dialoga, representa e acende nossas memórias acerca dos principais acontecimentos sobre as práticas do candomblé na Cidade da Bahia. Mãe Stella foi consagrada ao seu eledá, orixá principal, em 12 de setembro de 1939, aos 14 anos de idade, no Ilê Axé Opô Afonjá, pela já lendária Mãe Senhora de Oxum. Neste mês da Primavera, Iyá Stella faz 70 anos de iniciação nos fundamentos religiosos desta religião civilizatória no Brasil: o candomblé.

E a Bahia para e reflete sobre a importância de se ter uma mulher negra no comando de uma espiritualidade ainda tão atacada, incompreendida e vilipendiada pela presença do racismo e da intolerância de ordem religiosa. Uma mulher que se escreveu na história do seu país afirmando a sua religião, organizando e ampliando a sua comunidade, educando, escrevendo livros, preservando nossa ancestralidade, respeitando os rituais sagrados que lhe foram confiados por suas “mais velhas” e, politicamente, exercendo seu sacerdócio dignamente sem abdicar de suas demandas existenciais.

mãe-stella-4-CRIANÇAS

Uma história que se conta para marcar as conquistas femininas no século XX, e mais ainda, referendar a força das mulheres negras da Bahia que, através do candomblé, deram identidade cultural ao nosso povo, nos livrando assim, da esquizofrenia social.

Hoje, aos 84 anos, Mãe Stella serve de modelo e imagem de movimento. Ao iniciar novos filhos, sob a égide sacerdotal das filhas de Obá Biyi, Mãe Aninha, ela amplia com qualidade o número de adeptos de nossa religião e nos faz crescer e permanecer lutando a favor do culto amoroso e sério a nossos orixás.

Toda vez que olho para ela, Mãe Stella, lembro-me de Simone de Beauvoir e do orgulho que a filósofa teria por pertencer a esta construção cultural chamada mulher, a qual a iyalorixá baiana tão bem representa. Sua bênção, Iyá Stella.

*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

(Artigo transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, 12.9.09)

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9 Respostas to “A BÊNÇÃO, MÃE STELLA”

  1. Adriana Says:

    Olá
    sou estudante de História e, atualmente, tenho buscado informações acerca da cosmologia ioruba, e sua visão de universo, sendo que minha maior preocupação, é fugir da mitologia, dando ênfase ao Estado do Rio de Janeiro.
    Tenho profundo respeito e cuidado no trato com estas questões, bem como refino minhas referências bibliográficas, entre outras fontes de informação.
    Sem tomar mais tempo, espero receber um breve retorno deste.
    Obrigada. Boa noite.

  2. claudia garcia Says:

    Boa Tarde!!!!
    Motumbá
    A bença minha mãe
    Gostaria de obter o livro de Mãe Stella (Meu tempo é agora), mas aqui onde moro não consigo e já fui para a internet, também não consegui. Poderia me ajudar? Um abraço.
    Mãe Stella é o exemplo de que o candomblé tem dignidade e humildade e muita sabedoria. A bença minha mãe.

    • jarycardoso Says:

      Tente encontrar o livro de Mãe Stella em casas especializadas de Salvador, como a livraria LDM (Av. Joana Angélica), a Editora Corrupio (Barra) e o Ceao/Centro de Estudos Afro Orientais (Largo Dois de Julho).

  3. lousiD'apaoka Says:

    ADOREI!!! ODE FAREBI!

  4. Cássia Rolins Says:

    Oiee……..
    Gostaria de saber se Mãe Stella ainda aceita filhos de Santo em sua casa. Pois, tenho enorme desejo de ser iniciada por ela. Aqui em Macapá-AP, conheço um filho de santo dela, ele é de Oxossi, tem casa aberta e com várias fotos dela, Ode cimi (Pai José de Oxossi).
    Aguardo respostas.
    Motumbá!

  5. fabio Says:

    Ela é a mais preciosa pedra que Xangô fez descer em larvas do vulcão do olho do mundo que na floresta Oxóssi a tomou nos braços preparou o seu Okan e apossou-se de seu Orí e a fez minha mãe, meu porto seguro.
    Sere fumi Iyá

  6. Lucineide de jesus Says:

    Gostaria de saber se um orixá pode se manifestar sem vc ser feita, se há uma ligação com o espiritismo. Nunca tinha entrado em um centro e acabei indo devido a uma manifestação de espiríto que se comunicou. Agora toda segunda-feira sinto que o meu corpo fica diferente.

  7. valdete rodrigues da rocha Says:

    boa noite

    por favor, se alguém tiver o telefone de mãe stella de oxossi me passe com urgência
    obrigado, valdete

  8. aline Says:

    Onde fica o terreiro da mae estela estamos indo a porto seguro e gostaríamos de visitar um axé um ilê podem me ajudar

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