QUESTÃO RACIAL EM DISCUSSÃO

ILUSTRAÇÃO DE BRUNO AZIZ

ILUSTRAÇÃO DE BRUNO AZIZ

REVOLTAS DOS PARDOS E DOS MALÊS


por PEDRO DE ALMEIDA VASCONCELOS*


O professor, mestre e doutorando em história social Jaime Sodré escreveu sobre a Revolta dos Alfaiates [A Tarde, 22.8.2009] omitindo a condição de pardo da maioria absoluta dos seus integrantes, classificando como “negros” os líderes do movimento.

Seria compreensível se o autor estivesse utilizando a dualidade norte-americana, segundo a qual existem apenas negros e brancos, sendo os mestiços incorporados aos primeiros, ambos submetidos às restrições da legislação segregacionista. Porém, no referido texto, o autor mencionou a proibição da patente de oficial para “negros e mulatos” no nosso contexto.

De fato, nos Autos da Devassa da Conspiração dos Alfaiates, publicados em 1998 pelo Apeb, estão arrolados como presos 29 pardos (72,5%), 10 brancos (25%) e um preto (2,5%).

Como não destacar o papel dos pardos numa sociedade em que os mesmos eram segregados, assim como os negros, nas tropas e nas irmandades? Não teriam eles um papel específico na formação da nacionalidade brasileira, na medida em que eles não eram portugueses, nem africanos e nem índios?

Podemos ainda acrescentar que dos dois denunciantes do movimento, um era pardo e outro, Joaquim Joze de Santa Ana, era capitão do Regimento Auxiliar dos Homens Pretos.

Já na Devassa da rebelião africana dos Malês (1835), também publicada pelo Apeb, a negra mina Guilhermina Roza de Souza denunciou que seu companheiro lhe contara que ouvira de negros de saveiros que eles se juntariam a outros negros desta cidade e que “tomassem conta da terra, matando os brancos cabras, e crioulos …, ficando os mulatos para seus lacaios, e escravos” (1968, p. 62).

Embora seja apenas um depoimento, ele pode refletir a tensão entre os grupos étnicos do período. De fato, a repressão dos pardos sobre os africanos foi relatada pelo viajante Avé-Lallemant, em 1858, quando comentou que “Negros eram mortos nas ruas, a pancadas, como cachorros. Os mestiços … foram os que mais se enfureceram contra seus primos” (1961, p. 45) e destacou que essa classe “inclina-se decididamente pra a raça branca, e … mostra-se hostil e até cruel contra a raça negra” (p. 54), o que confirma as especificidades dos mestiços, já apontada por Vilhena, em 1802: os mulatos ricos eram “pouco amigos dos brancos, e dos negros …“, enquanto que os africanos forros “não deixam de ser humildes, e mais propensos aos brancos, do que aos mulatos, e crioulos” (1969, p. 53).

A história, portanto, deve ser recuperada com muito cuidado, com o exame crítico das fontes, e, sobretudo, ela não deve ser lida e escrita como gostaríamos que tivesse ocorrido: a memória dos pardos que lutaram pela nossa liberdade deve ser destacada, sem detrimento das lutas realizadas por outros grupos étnicos.

*Pedro de Almeida VasconcelosGeógrafo, historiador, PhD pela Universidade de Ottawa


COMENTÁRIO

A questão racial é um dos temas principais do Jeito Baiano, já abordado em pelo menos dois posts, um que trata justamente da Revolta dos Búzios ou Conspiração dos Alfaiates:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/12/conspiracao-dos-mulatos-baianos/

e outro que se refere a polêmica reiterada por Caetano Veloso – a defesa da importância da luta abolicionista – durante a festa deste ano do Bembé do Mercado de Santo Amaro:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/07/viva-caetano-veloso/

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2 Respostas to “QUESTÃO RACIAL EM DISCUSSÃO”

  1. barreto Says:

    e eu, sarará miolo, onde me enquadro?

  2. barreto Says:

    Aziz,

    sua ilustração acima é show! diz tudo.

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