ZILDA PAIM – GENTE DA BAHIA

PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

A MEMÓRIA DA MINHA CIDADE

 

por JORGE PORTUGAL

 

Guardamos todos, em nosso cine-memória, fortes e belas lembranças que nos surpreendem de vez em quando, se a vida ameaça enveredar pelos caminhos da aridez e do individualismo vulgar.

No exato momento em que estou escrevendo estas mal-traçadas, vem-me à mente um plano-sequência inteiro de uma cena de rua muito frequente na minha infância: uma senhora de cor branca, compleição física consistente, cabelo preso num coque, à frente de uma fila dupla de negros que percutiam pedaços de pau e cantavam refrões em uma língua até então estranha para mim. Por onde eles passavam, a cidade inteira corria para ver, extasiada e ao mesmo tempo respeitosa, pela autoridade humana que seu olhar transmitia.

Um dia meu pai me disse: é a professora Zilda Paim comandando o Maculelê de Popó que ela mantém vivo até hoje. Como se fosse uma senha para minha entrada em um “certo mundo”, dali em diante nunca mais deixei de escutar o nome daquela senhora, sempre ligado à história da cultura de minha cidade.

Se um grupo de estudantes do Teodoro Sampaio precisava de informações para fazer um trabalho sobre o 14 de Junho, procurava professora Zilda; se um mestrando em Antropologia necessitava de uma fonte de pesquisa confiável sobre o “Bembé do Mercado”, procurava professora Zilda; a denominação popular de uma rua no início do século, a quantidade de jornais que a cidade tivera, o nome completo do tenor que cantava a terceira jaculatória da novena em 1950, tudo que a cidade (e os de fora) queria saber… procurava professora Zilda.

E ao longo dessas décadas de respostas para todas as perguntas, ela foi colecionando periódicos, depoimentos, iconografia, documentos raros, receitas da culinária do Recôncavo, histórias do imaginário popular, enfim tudo aquilo que cabe na alma de um povo. E tudo isso ela sempre dividiu com generosidade e prazer.

Professora Zilda Paim completou 90 anos no último 3 de Agosto, com a memória cada vez mais viva.

Se eu estiver mal informado, tanto melhor, e já peço desculpas. Mas não me consta que a Câmara de Vereadores de Santo Amaro tenha-lhe prestado alguma homenagem em sessão especial, ela que deve ter sido a primeira mulher edil daquela casa; não chegou a mim nenhuma notícia de que o prefeito tenha decretado algum ato simbólico, algo assim como “o Ano Professora Zilda Paim”; não sei se a Academia de Letras ou a Casa do Samba lhe conferiram uma placa que fosse, em reconhecimento ao que ela fez pelas chamadas culturas erudita e popular.

Mas soube, sim, que os jovens artistas da cidade, liderados por esse canto de sensibilidade que é Eduardo Alves, fizeram uma belíssima serenata na porta de sua casa, à qual acorreu o povo simples e anônimo do lugar levando alegria e gratidão à mestra que guardou com carinho sua história.

Querido e Magnífico Reitor Paulo Gabriel Nacif: bem que a Professora Zilda Paim mais do que merece o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), não acha?

 

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