CIDADE DA BAHIA MERECE RESPEITO

Este autêntico barraco de favela, que pretende ser uma "barraca de praia", está instalado na areia de Piatã, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde – 25.1.2009

Este autêntico barraco de favela, que pretende ser uma "barraca de praia", está instalado na areia de Piatã, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde – 25.1.2009

QUALIFICAR NÃO É VENDER

 

por ZÉDEJESUSBARRÊTO

 

Em afazeres, passei três dias hospedado num hotelzinho em Copacabana e danei-me a matutar acabrunhado. O bairro da afamada praia continua aconchegante. Moradia, serviços e turismo. Corresponderia, mal comparando, à nossa Barra de tanta história. A grande diferença nem é a beleza, lá e cá magníficas. O xis é a tal urbanidade.

Copacabana é limpa, civilizada e segura. Anda-se pelas avenidas e calçadões sem o assédio de pedintes e vendedores, sem tropeçar em drogados pelo chão, sem engradados, isopores, lixões, fogareiros, tabuleiros, mau cheiro. Nada de barraca, mesa, tamborete ou cadeira sobre a areia. Os quiosques, asseados, ficam sobre as calçadas, espaçados, com cardápio e atendimento decentes, proteção do sol e total visão do mar.

Nenhuma caixa de som, samba ou pagode na rua. Não vi um só carro com fundo aberto aos berros. Nos calçadões, áreas bem delimitadas para caminhada e ciclistas. Idosos passeiam à noite. Policiamento eficiente e discreto. Há locais definidos na praia para o vôlei, futevôlei e frescobol, com redes de proteção para que banhistas não tomem boladas. Chuveiros, sanitários decentes e sem bafo, guarda-vidas em locais bem visíveis… Enfim, serviços sem bagunça e todos cientes dos limites da sadia convivência humana.

Enquanto andava, apreciando as coisas, vieram-me lembranças de nossa cidade, Mãe Preta tão maltratada. Da esculhambação que é hoje o Porto da Barra, os shows inconcebíveis diante do Farol, o arriscado ‘puteiro’ que se tornou o bairro, à noite. Perguntei-me, a quantos verões vivemos o impasse da tal ‘reforma’ da orla atlântica com aquelas barracas, pardieiros vergonhosos.

Recordei-me então do deprimente passeio que ousei, numa tarde de sábado, entre a Sereia e o acarajé de Cira, em Itapuã. O barulho absurdo dos sons embolados saídos da cada barraca; a sujeira, o fedor de marisco passado, a barreira de engradados, das paredes encardidas dos ‘restaurantes’ gradeados e bodegas imundas que tapam a visão do mar; os andantes tropeçando no lixo, driblando tamboretes, mesas e cadeiras sobre a calçada esburacada; o assédio por trocados a cada passada; a praça Dorival Caymmi atulhada de camelôs, a igrejinha fechada, por medo e tristeza.

Não se trata de detalhe de um trio elétrico. É apenas um automóvel equipado com potente aparelhagem de som para "animar" o lazer dos soteropolitanos... Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde – 30.11.2006

Não se trata de detalhe de um trio elétrico. É apenas um automóvel equipado com potente aparelhagem de som para "animar" o lazer dos soteropolitanos... Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde – 30.11.2006

 

O baiano ‘véi’ quedou-se cabisbaixo: O que estão fazendo com a cidade amada?

Em tempo, senhores do poder: Requalificar a cidade não significa ‘vender bem’ a Bahia para os de fora. Não será com provas de Stock Car ou F-Indy que vamos dignificar Salvador. Refiro-me a cuidados mínimos com a urbe, atenção à história, patrimônio e cultura do povo. Civilidade, respeito humano, educação, qualidade de vida. Cidadania! A Mãe-Preta merece. Seus filhos carecem.

Revendo Copacabana compreendo o porquê de o Rio, mesmo com a evidente desigualdade e a violência localizada das gangues, continuar como o maior pólo turístico do Brasil.

 

zédejesusbarrêto, jornalista (zedejesusbarreto@uol.com.br)

10ago/2009.

 

Depois que este artigo saiu publicado na página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador, no domingo dia 16, o autor recebeu, até esta segunda-feira, um total de 16 e-mails e mais de 10 telefonemas, o que o levou a fazer o seguinte comentário:

Foi uma unanimidade de identificação com o tom das palavras. A maioria dos e-mails era de pessoas desconhecidas, alguns repassando o texto para amigos, mesmo fora do país. Mais do que envaidecer-me, as mensagens, todas, me afligem, apontam feridas: a nossa cidade-mãe-amada está doente e mal cuidada. Ou seja, precisamos de vera incrementar o debate sobre o que está acontecendo com a cidade!!!

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