CACHOEIRA DA BOA MORTE

Integrantes da Irmandade da Boa Morte no primeiro dia da festa deste ano, em Cachoeira. Foto: Reginaldo Pereira | Agência A Tarde 13.8.2009

Integrantes da Irmandade da Boa Morte no primeiro dia da festa deste ano, em Cachoeira. Foto: Reginaldo Pereira | Agência A Tarde 13.8.2009

por ZÉDEJESUSBARRÊTO*

 

É no presépio plantado às margens do Paraguaçu, recôncavo baiano, que se abriga uma das maiores relíquias afrobaianas:

A irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte.

Um exemplo de resistência e de identidade de um povo que, mesmo diante da voracidade destes tempos digitais, preserva seus costumes ancestrais à base da tradição oral.

Geração a geração.

Manifestação também do mais puro sincretismo religioso baiano, memória dos tempos de escravidão, quando os batuques da noite ecoavam nos altares das igrejas e os cânticos das procissões complementavam as obrigações dos terreiros jêje-nagôs, entre plantações de fumo e canaviais.

A secular irmandade da Boa Morte, de acordo com os estudiosos e os costumes, é uma confraria exclusivamente feminina fundada na Igreja da Barroquinha, em Salvador, ainda no século XVIII, por africanas libertas nagôs (iorubanas, vindas do Benim/Nigéria) e vinculadas ao candomblé.

O termo ‘Boa Morte’ é uma referência à crença católica de que Maria, a mãe de Jesus, não morreu, apenas dormiu e seu corpo teria sido levado aos céus pelos anjos de Deus.

Trata-se da chamada Assunção de Nossa Senhora, um mistério de fé que a igreja católica celebra com pompas litúrgicas no dia 15 de agosto, a data da missa solene e da grande procissão dos festejos da irmandade das negras de Cachoeira.

O culto à chamada ‘boa morte’ ou ‘dormição de Maria’ já existia desde as origens católicas no Brasil, trazido pelos portugueses e materializado em imagens e templos dedicados a Nossa Senhora da Glória ou da Vitória.

A ‘glória’ e a ‘vitória’ sobre a morte.

Para as negras nagôs, no entanto, o culto a Nossa Senhora, a Virgem Maria que não morreu e subiu aos céus, nunca significou uma negação da tradição e da fé ancestral nos Orixás (ketu/nagô) ou Voduns (jêje/nagô) africanos.

Tanto que, em torno de 1830, essas corajosas e libertárias mulheres (Yás) fundaram bem nos fundos próximos da igreja da Barroquinha um terreiro dedicado a Xangô (o rei de Oyó, sítio nigeriano), denominado Iyá Omi Axé Airá Intilé, considerado como um dos primeiros dos candomblés nagôs da Bahia, que deu origem à Casa Branca, ao Gantois e ao Axé Opô Afonjá.  

 A essa época, Salvador, a Cidade da Bahia, formigava de negros (boa parte nagôs, de língua iorubá) e os malês (nigerianos nagôs islâmicos) lideravam revoltas que inquietavam os poderosos da cidade, dando razões ao recrudescimento da intolerância étnica e religiosa, abrindo espaços e ‘justificando’ uma onda ainda maior de repressão contra os negros africanos escravizados e seus descendentes na capital baiana.

O quadro social de violência e de ameaças contra quaisquer manifestações dos negros tangeu mais tarde o terreiro de Xangô das proximidades da Igreja da Barroquinha e do centro da cidade, e dispersou muitos agrupamentos africanos em toda a área urbana. Assim, muitos desses afro-descendentes, os mais aquinhoados, retornaram à África. Outros, de pouca ou nenhuma posse, fugiram para o mato, esconderam-se nos arredores da urbe. Ou tomaram o rumo do recôncavo, onde se agregaram ao cultivo de roças, à labuta no cais e atracadouros de saveiros, puseram-se a serviço nas casas-grandes, nos engenhos de cana, no plantio do fumo, no serviço avulso de ganho, ou ainda sobreviveram no exercício de pequenos ofícios, aqui e acolá.

E teria sido assim, conforme relatos e estudos, que valentes mulheres nagôs, muitas de origem e herança jêje (de língua fon, do antigo Daomé, hoje Benim) levaram a devoção de Nossa Senhora da Boa Morte até vários sítios do recôncavo.

FESTA DA IRMANDADE DA BOA MORTE - Cachoeira. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

FESTA DA IRMANDADE DA BOA MORTE - Cachoeira. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

 

Somente resistiu ao tempo e preservou-se tão imponente até hoje a Irmandade da Boa Morte de Cachoeira, um dos maiores portos da região, escoadouro maior da riqueza do recôncavo para a capital.

Lá, à beira do Paraguaçu, nas encostas das suas margens, a fé em Maria e o culto jêje a Nanã (Vodum mais velho das águas, dos pântanos) e a Dã (a cobra, o arco-íris) permaneceram, lado a lado, bem vivos.

Como sempre aconteceu desde aqueles tempos, a prática dos rituais de devoção a Maria, mãe de Jesus, dormida e gloriosa, acontece todo mês de agosto e atrai muita gente, até do exterior, pela sua tradição e riqueza históricas.

Os rituais misturam reza de terço, ladainhas, cânticos, missas solenes, procissões, comilanças, danças e festanças populares com cerimônias, batuques e obrigações secretas nas madrugadas dos terreiros, cultuando com a mesma intensidade e fé em Maria, a Nanã Buruku, mãe de Exu e Omolu na tradição ancestral africana, e Dã, a serpente sagrada dos jêjes.  

O povo participa dos festejos onde acontecem jantares com comidas sagradas do culto afro; extasia-se com a beleza das cerimônias religiosas católicas de tons medievais, os trajes afro-tradicionais, os adereços ricos e raros das mulheres da irmandade garbosas em suas roupas ora brancas, ora coloridas, torços, colares, joias, balangandãs e panos da Costa. Um luxo!

São mulheres idosas, algumas com mais de 90 anos, todas descendentes de escravos.

Reza a tradição passada de mãe pra filha e cumprida rigorosamente, que só entram na irmandade mulheres acima de 45 anos, depois de arrefecido ‘o fogo’ da sexualidade.

A irmandade, que mantém sede, estatutos, regras, obrigações e hierarquia definidas sobrevive de doações arrecadadas na comunidade pelas iniciadas, de algum auxílio dos poderes públicos – que, afinal, se beneficiam da tradição que atrai turistas do mundo inteiro, principalmente dos Estados Unidos – e da ajuda de algumas organizações internacionais, como universidades que estudam/pesquisam essas manifestações históricas e populares.

As dificuldades para a preservação dos costumes são enormes e as relações com as autoridades da igreja católica nem sempre foram ou são fraternas, apesar dos anos de convivência.

Mas a Irmandade da Boa Morte resiste.

Como escreveu o antropólogo e professor Sebastião Heber Vieira Costa, autor do livro ‘A Irmandade da Boa Morte e o Ícone da Dormição de Maria’:

A expressão afro dessa festa, na sua interpretação da crença cristã, é exuberante, plástica e mística. As irmãs não se ‘apresentam’ apenas uma vez por ano, mas vivem o seu dia-a-dia em torno do evento, que se projeta nas suas vidas. É como se quisessem entrar, mergulhar no movimento morte-vida que a festa celebra. É como se todas tivessem celebrando as suas próprias ‘boas mortes’ que a primeira, a de Maria, quer, de algum modo, anunciar’.

 

Procissão em louvor a Nossa Senhora da Glória, em Cachoeira, Bahia. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

Procissão em louvor a Nossa Senhora da Glória, em Cachoeira, Bahia. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

No final, como tudo nesta Bahia do bom Deus, tudo acaba numa grande festança pelas ruas de Cachoeira:

Exibições de manifestações folclóricas com capoeira e maculelê, muito samba-de-roda (patrimônio da humanidade) e chula de terreiro.

A ‘morte’ vira uma festa.

A Boa Morte!

*zédejesusbarrêto, jornalista e estudioso de baianices.

13 de agosto/2009

Anúncios

Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

2 Respostas to “CACHOEIRA DA BOA MORTE”

  1. juan jose malde Says:

    necesito y deseo contactactar con irmandade da boa morte – cachoeira – brasil. gracias

  2. Erica Guedes Says:

    Foi de grande aproveitamento esta matéria, fiquei orgulhosa de conhecer uma cultura do nosso povo que acaba abrangendo não só o povo da Bahia como o exterior, fiquei também encantada com a força, beleza e resistência desta manifestação que une as tradiçoes antigas e a fé de um povo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: