MINHA CIDADE MINHA VIDA

Moradores de rua ocupam viaduto no Politeama, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde 22.6.2009

Moradores de rua ocupam viaduto no Politeama, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde 22.6.2009

por LOURENÇO MUELLER*

 

A Tarde On Line informou através da matéria do jornalista Eder Luis Santana que o programa MINHA CASA MINHA VIDA tem mais de 389 mil inscritos na Bahia. Acrescenta que o déficit de moradia supera as 510 mil unidades, 141 mil só na Região Metropolitana de Salvador (RMS) e este dado ainda em 2007.

É sempre discutível a construção teórica deste déficit porque ele implica em situações não tão objetivas como o conceito de moradia e a partir de que densidade humana haveria uma demanda potencial: por exemplo, suponha-se que 5 pessoas sobrevivam num cômodo de apenas 10 metros quadrados, algo assim como uma “casa” ou “apê” de 2mX5m, fato não incomum nos bolsões de pobreza da cidade ou nos cortiços das áreas centrais (isso é moradia?).

 

 

 

Conjunto Habitacional de Sussuarana, em Salvador. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

Conjunto Habitacional de Sussuarana, em Salvador. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

 

 

Se tomarmos o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) de Salvador como referência, onde cada pessoa deveria dispor sozinha desses dez metros quadrados para viver, daquele conjunto de cinco pessoas quatro são excedentes e agregam uma demanda potencial de mais quatro unidades habitacionais de 10 metros quadrados cada.

Vê-se por esse pequeno exercício como é variável o conceito de déficit habitacional.

Em termos absolutos esse déficit seria constituído pelos sem-teto que apesar de se amontoarem na Baixa dos Sapateiros, Fonte Nova e sob viadutos e alguns pontos dispersos dos bairros mais ricos, seguramente não equivalem aos quase 390 mil inscritos.

Já a Caixa Econômica Federal inclui no déficit absoluto dos sem-teto as moradias construídas em áreas de risco (alagados, pântanos, encostas e outros).

 

 

 

A Prefeitura de Simões Filho começou, mas não concluiu a construção do Conjunto Habitacional Parque Continental. Integrantes do Movimento dos Sem-teto invadiram os embriões. Foto: Welton Araújo | Agência A TARDE 12.3.2009

A Prefeitura de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, começou, mas não concluiu a construção do Conjunto Habitacional Parque Continental. Integrantes do Movimento dos Sem-teto invadiram os embriões. Foto: Welton Araújo | Agência A TARDE 12.3.2009

 

 

Para efeito de raciocínio se considerarmos que as quase 390 mil inscrições representam, senão uma necessidade concreta, pelo menos uma intenção de morar melhor – e aqui não devo considerar os inscritos que vêem a inscrição apenas como um negocio imobiliário, os pobres também estão nesse mercado, pena que as ADEMI não queiram aceitar esse fato objetivamente, talvez fosse melhor para as cidades, mas também nem tenho tanta certeza

Pois bem, no mesmo raciocínio e tomando um dado do IBGE – que também não é exato – em torno de 4, 5 pessoas por unidade domiciliar teríamos uma demanda potencial de 1,75 milhão de pessoas que aspiram, pelo menos aspiram morar melhor e para usar a símbologia da campanha, de cunho feminista, porque homem vive mais na rua do que em casa ( pensamento machista adaptado à baianidade ), aspiram “viver” melhor.

Mas será que “viver” melhor é sobreviver em conjuntos habitacionais gigantescos, de casitas pequeninas, pé direito baixo e telhado feio, quente e burro, num deserto de verde e de equipamentos (por que os promotores chamam de infraestrutura apenas água e luz)?

 

 

 

Prédios de Fazenda Grande I, no bairro de Cajazeiras, o maior conjunto habitacional da América Latina. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Prédios de Fazenda Grande I, no bairro de Cajazeiras, o maior conjunto habitacional da América Latina. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

 

Tenho repetido que o bom urbanismo deve ser visionário, sustentável, objetivo e participativo, VSOP, claro que com uma insuspeita alusão aos bons conhaques – e creio que é esta a grande oportunidade dos governos federal, estadual, municipal e metropolitano realmente mudarem o paradigma da questão do déficit habitacional e propor o MINHA CIDADE MINHA VIDA, porque é disso que se trata, essencialmente, senhor Lula, senhor Jacques, senhor João, senhor Afonso e senhor Milton, esses dois últimos para quem ainda não conhece são respectivamente o secretario e o presidente da companhia de desenvolvimento urbano do estado da Bahia.

É disso que se trata, senhores: de cidades inteligentes, bonitas, autosustentáveis, porque conjuntos habitacionais de mais de 50 unidades são uma vila e de mais de mil unidades são uma pequena cidade e acoplados linearmente ou rizomaticamente são cidades médias ou até uma grande cidade.

As 11 mil unidades só para Salvador, para renda de até 3 salários mínimos podem representar um aglomerado de quase 50 mil pessoas, uma cidade do tamanho de Candeias.

Agora outra questão, de caráter regional: Salvador está esgotada como superfície de solo para expansão urbana, a não ser que se mude o padrão horizontal para o vertical, ou seja, em urbanês – arrrrgh – se substitua o tecido urbano. A expansão da capital deveria ser realizada em território metropolitano.

Neste momento é hora de pensar em cidade(s) nova(s). O Brasil fez a mais bela cidade nova do planeta 60 anos atrás, sem a tecnologia que tem hoje. Porque o PT (e o PMDB do senhor ministro e do senhor prefeito) não enfrentam juntos um programa municipal, metropolitano (está sendo formado um consórcio entre quatro municípios a oeste da RMS dirigidos por mulheres) estadual e nacional de moradia, concebendo os antigos “conjuntos” como novas cidades nas dimensões compatíveis com as demandas, a espacialidade, as densidades e a renda de cada subconjunto?

Pensemos VSOP mesmo ficando um pouco allegro mas não muito…Olhar para o futuro, para as mudanças que se desenham no mundo, o teletrabalho, o houser , os assentamentos mais próximos das fontes de energia, o patrimônio histórico, paisagístico e cultural rigorosamente preservado, os centros urbanos SEM automóveis.

Tudo, ou quase tudo deve se autofinanciar, a própria cidade em si mesma é geração de força de trabalho, de pensamento produtivo, ou seja, de sustentabilidade e riqueza.

Deve, portanto ser otimizada na sua economia urbana – Dr. Fernando Pedrão com a palavra. Ser produzida industrialmente, ser montada – o arquiteto Lelé com a palavra. Deve ser colorida – Fernando Peixoto com a palavra e todos os bons arquitetos e urbanistas daqui e dalhures, sem xenofobia. Não os comprometidos com a especulação, não os preconceituosos e conservadores, não os desatualizados.

Chamem-se as pessoas que querem MINHA CIDADE MINHA VIDA, porque vivemos em casas e apartamentos que ao fim e ao cabo estão nas cidades, salvo melhor juízo; para discussão com argumentação consistente, não retórica boba, isso era nos jornais de antigamente que se vendiam muito pela polêmica dos que sabiam escrever mas não nos BLOGS da pós-modernidade.

 

lou orkut*Lourenço Mueller é doutor em arquitetura e urbanismo

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Uma resposta to “MINHA CIDADE MINHA VIDA”

  1. Ludmila Leal Says:

    Interessante a discussão, vamos ver se as autoridades se mexem, pois já está na hora de se encarar de frente e resolver o problema de moradia na cidade.

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