CONSPIRAÇÃO DOS MULATOS BAIANOS

Bloco Olodum Mirim desfila no Centro Histórico de Salvador durante o Carnaval de 1998 com o tema da Revolta dos Búzios. Na foto (esta, como as demais postadas no dia 9 passado e as de hoje foram cedidas por João Jorge, presidente do Olodum), jovens do bloco afro portam cartazes com as figuras de cada um dos quatro mártires da sedição de 1798.

Bloco Olodum Mirim desfila no Centro Histórico de Salvador durante o Carnaval de 1998 com o tema da Revolta dos Búzios. Na foto (esta, como as demais postadas no dia 9 passado e as de hoje foram cedidas por João Jorge, presidente do Olodum), jovens do bloco afro portam cartazes com as figuras de cada um dos quatro mártires da sedição de 1798.

     Hoje, 12 de agosto, é uma das duas datas marcantes na história da Revolta dos Búzios, ou Conspiração dos Alfaiates, ocorrida em 1798. A outra data é o dia 25 do mesmo mês. Quem me chamou a atenção para isso foi o grande líder e presidente do Bloco Olodum, João Jorge Rodrigues, na convocação para festa e seminário, no Pelourinho (Salvador-Bahia), em homenagem aos mártires desta sedição de 211 anos atrás, acontecida nesta mesma Cidade da Bahia. A convocação de João Jorge está reproduzida no Jeito Baiano poucos posts abaixo:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/09/olodum-e-a-revolta-dos-buzios/

     Fui conferir as dicas em dois livros grossos e pesados com os quais ando debaixo do braço desde a inauguração deste blog: História da Bahia, de Luís Henrique Dias Tavares, e Uma História da Cidade da Bahia, de Antonio Risério. E agora, para transcrever trechos desses livros, passo a aplicar minha técnica de digitação rápida, desenvolvida primeiro como aluno de piano clássico quando eu era pequeno, depois como datilógrafo ultraveloz num escritório de contabilidade e finalmente como jornalista nestes 41 anos, metade dos quais pilotando uma Olivetti ou Remington e a outra metade, silenciosos teclados de computador.

     Comecemos por Luís Henrique:

 

     A sedição de 1798 se inaugurou na História do Brasil com dois episódios: a divulgação de onze boletins manuscritos na madrugada de 12 de agosto, quando foram colados na fachada de casas que ficavam em locais de passagem obrigatória para centenas de moradores da cidade, e a reunião [dos rebeldes] na noite de 25 desse mês no Campo do Dique do Desterro.

 

     Pulo 12 páginas para mostrar a origem de um dos nomes dados à sedição, Revolta dos Búzios, que é o adotado pelo Olodum:

 

     Brás do Amaral e Francisco Borges de Barros [historiadores] se irmanam nas referências ao uso “de um búzio pendente das cadeias do relógio” como forma de identificação entre os “conjurados”. A propósito, existe uma frase de José de Freitas Sacoto que merece atenção. Está nos autos da devassa feita pelo desembargador Costa Pinto. Sacoto teria escutado o ourives Luís Pires dizer que “os sinais distintivos de todos aqueles que se alistavam no partido da revolução” eram “brinquinhos na orelha, barba crescida até o meio do queixo, com hum búzio de angola nas cadeias do relógio”. Sacoto falou desses “sinais distintivos” num interrogatório de 18 de outubro de 1798 (…)

Placa em homenagem a João de Deus do Nascimento, heroi nacional do Brasil

Placa em homenagem a João de Deus do Nascimento, herói nacional do Brasil

 

     Agora vamos à obra do meu querido amigo Risério:

 

                  A CONSPIRAÇÃO MULATA

     Na madrugada do dia 5 para o dia 6 de novembro de 1799, o alfaiate mulato Manuel Faustino dos Santos Lira, nascido escravo, tentou pela terceira vez o suicídio. Na primeira tentativa, bebeu veneno. Na segunda, esforçou-se para enterrar um prego de quatro polegadas no coração. Finalmente, tentou a asfixia – dar “a si mesmo o garrote”, como escreveu frei José d’Monte Carmelo, carmelita descalço, em seu relato dos fatos –, apertando no pescoço uma tira de pano. Também Lucas Dantas do Amorim Torres, soldado Mulato do Regimento de Artilharia, tentou cair fora da vida, enfiando pela garganta, repetidas vezes, uma colher de prata. Não, não estavam brincando. Era a luz do desespero que os arrastava, descontroladamente, para além da vida.

     Ambos, Santos Lira e Lucas Dantas, pareciam querer se antecipar a uma sentença que, estavam certos, os condenaria à morte, juntamente com dois outros mulatos pobres de Salvador – o alfaiate João de Deus do Nascimento, de 27 anos de idade, natural da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, e o soldado Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, de 37 anos, nascido na Cidade da Bahia, neto de um branco português, Manoel Gomes da Veiga, e de uma africana escravizada, a negra Helena. De fato, no dia 8 de novembro, dia áspero e plúmbeo, daqueles em que o tempo fecha sem retorno, os quatro foram conduzidos à Praça da Piedade. Luiz Gonzaga e João de Deus, em palanquins abertos; Lucas Dantas e Santos Lira, a pé. Chegando à praça, o ritual se consumou. Foram, os quatro, enforcados e esquartejados. Corpos despedaçados, repartidos, expostos em lugares públicos. A cabeça de Lucas Dantas ficou espetada no Campo do Dique do Desterro. A de João de Deus, na Rua Direita do Palácio. A de Santos Lira, no Cruzeiro de São Francisco. A de Luiz Gonzaga, juntamente com as mãos, na Piedade. Terminava assim, de modo tenso e fúnebre, o episódio que passou à nossa história sob o rótulo de “Revolução dos Alfaiates”.

     Uma denominação absolutamente imprópria, por sinal. Em primeiro lugar, porque não chegou a acontecer revolução alguma. O plano de uma sublevação, que realmente existiu, não passou da luz do sonho à luz do sol. Em segundo lugar, porque as pessoas presas e processadas, em consequência do anseio subversivo, não eram, em sua maioria, alfaiates. Havia escravos, oficiais militares, soldados da tropa e até mesmo um cirurgião, Cipriano Barata, que se tornaria uma figura quase lendária das movimentações sociopolíticas ocorridas no Brasil entre os séculos XVIII e XIX. Se houve um traço dominante, naquele agrupamento rebelde, foi o da cor da pele. Os mulatos – fossem escuros, claros, trigueiros ou fuscos – somavam o dobro do número de brancos e pretos envolvidos. E a verdade é que esse território mestiço ou interétnico, então em seus momentos iniciais de difícil afirmação, não pode ser deixado de parte em nenhuma leitura que se faça daquela turbulência baiana. Os rebeldes que foram à forca eram mulatos – e eram pobres.

LUCAS DANTAS

     Mas vamos aos fatos. Tudo pipocou no dia 12 de agosto de 1798. Aquela manhã trouxera uma surpresa para a população da Cidade da Bahia. As pessoas iam acordando e encontrando papéis manuscritos, cartazes artesanais, fixados em diversos pontos da cidade. Nas proximidades de São Bento, na esquina da praça do palácio, às portas do Carmo, nas paredes da cabana da preta Benedita, etc. – lá estavam eles. Eram os pasquins da sedição, falando ou refalando temas da Revolução Francesa, ainda que aqui e ali relidos de uma perspectiva mestiça e tropical.

MANOEL FAUSTINO DOS SANTOS

     “Animai-vos Povo Bahinense [sic] que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”, dizia um dos pasquins. E os demais seguiam mais ou menos na mesma batida. Falavam de revolução (“quer o povo que se faça nesta cidade e seu termo a sua memorável revolução”), de liberdade (“…estado feliz… estado livre do abatimento… doçura da vida…”), do fim da dominação colonial (“para que seja exterminado para sempre o péssimo jugo reinável da Europa”… “a total Liberdade Nacional”), de regime republicano, de abertura dos portos ao comércio internacional, de “meritocracia”. Prosaica e candidamente, atribuía-se ao povo o desejo de que os soldados tivessem aumento salarial. Uma carta ao prior do Carmo acenava com a fundação de uma igreja baiana (a “Igreja Bahinense”), livre do jugo papal. E – risco dos riscos – apontava-se para a abolição da escravidão, ao lado da promessa de proteção ao comércio e de respeito à propriedade privada. Mais: quem ficasse contra o projeto revolucionário seria morto. Uma ousadia e tanto. Na verdade, uma provocação. Como dizer coisas de tal teor explosivo numa colônia organizada em cima do trabalho escravo – e dominada por um reino em que vigorava a velha monarquia absolutista? Era cutucar o cão com vara curtíssima.

     Esses pasquins manuscritos, aparecendo em pontos variados de Salvador como um desafio frontal à autoridade reinante, foram, evidentemente, uma iniciativa isolada. Individual. Ato intempestivo de alguém que se engajara no movimento revolucionário – e que, impaciente, ingênuo, irresponsável ou destemperado, pôs a perder o que parece ter sido um constante trabalho proselitista e todo um movimento que ia se articulando clandestinamente nas diversas camadas de nossa sociedade setecentista, incluindo-se aqui, de forma historicamente inédita entre nós, pessoas escravizadas.

[…]

LUIZ GONZAGA DAS VIRGENS

     Pois bem. Com a aparição dos pasquins, o Governo reagiu. A bem da verdade, o próprio governador da Bahia, Fernando José de Portugal, tinha já notícias das conversas subversivas que aqui iam se sucedendo (e se desdobrando), na década de 1770. Sabia de “reuniões secretas” realizadas em residências particulares. Mas nunca deu maior importância a elas. O que foi um equívoco, já que a Bahia setecentista vivia dias férteis para ideias de transformação social e política.

 

     Vou parar minha digitação por aqui, esperando que já seja suficientemente estimulante para as pessoas prosseguirem a leitura diretamente no livro de Riso. Neste blog mesmo há mais sobre a Sedição de 1798 em citações do livro do Prof. Luís Henrique Dias Tavares, no seguinte post:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/04/independencia-do-brasil-na-bahia-4/

 

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3 Respostas to “CONSPIRAÇÃO DOS MULATOS BAIANOS”

  1. katherinefunke Says:

    Seu blog é uma aula! Adoro.

  2. Renato Pinheiro Says:

    Jary, meu velho. Brilhante esse apanhado de informações sobre a Revolução dos Alfaiates. Faço minhas as palavras da sua leitora Katherine: seu blog é uma aula. Parabéns.

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