TIERRA EM TRANSY

 

por EDMUNDO CARÔSO

 

Não vivi os corsos,

não vivi os bondes

ou a lubrificação dos sorrisos

pelo caleidoscópio dos mascarados,

 

nem o lenço vermelho

(muitos anos depois)

amarrado na perna

durante as tardes

de footing na rua Chile,

na porta d’As Três Américas.

 

Queria ter vivido, mas não vivi.

 

Glauber esperando Ubaldo

sair da redação do jornal

para gastar conversa

em qualquer bar que tivesse

cervejas suficientes

para subir à lua

e agarrar a lua

pela estética dos cabelos

(e até chamá-la de puta

provençal, se fosse o caso).

 

Não vivi Jorge Amado

esperando Mirabeau

terminar de comer bundas

das noivas mais castas

da cidade da Bahia

pois a Ladeira da Montanha

reclamava

e a literatura tinha urgência

do médico que só curou uma diarreia,

mas, em compensação,

recuperou muitas vistas

através de frascos alumbrantes

aviados

na farmácia de seu pincel de santos.

 

Não vivi nada disso

e talvez,

por causa dessa falha imperdoável,

até hoje,

não saiba bem quem eu sou.

 

Será que Rogério Duarte

pode fazer um cartaz desse dilema?

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2 Respostas to “TIERRA EM TRANSY”

  1. barreto Says:

    é, amigo!
    perdemos a identidade
    e não temos segunda via.

  2. Edmundo Carôso Says:

    Concordo plenamente, Barreto. Com relação à identidade, a minha se resume hoje numa xerox puída, guardada dentro de um nincho, aqui em casa.

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