JEITO BAIANO DE TORCER

Até pouco tempo atrás se podia dizer com convicção que uma das características especiais – e exemplares – do jeito baiano de ser é a maneira como se confrontam amistosamente as torcidas rivais dos dois maiores times de futebol de Salvador, o Bahia e o Vitória. Torcedores “inimigos” fazem gozações terríveis uns aos outros, se xingam e até se humilham dizendo barbaridades para os adversários, mas os berros em réplicas e tréplicas acabam virando gargalhadas e nunca – ou quase nunca – vão às vias de fato, enquanto em São Paulo, no Rio e em países altamente civilizados como a Inglaterra torcidas organizadas entram em guerra de verdade, com mortos e feridos.

Ultimamente, porém, torcidas organizadas do Bahia e do Vitória começaram a fazer feio, até delimitando territórios em bairros onde torcedores de um time não podem entrar na área do outro. É preciso acabar com isso no nascedouro, autoridades da Bahia! Não deixem morrer o jeito baiano de torcer. Este é o apelo, o brado de alerta e paixão que Walter Queiroz Jr., o Waltinho, grande compositor popular da Bahia, lança neste artigo-manifesto transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador:

Torcedores do Bahia e do Vitória se abraçam no dia da primeira partida entre os dois tímes, válida pela final do Campeonato Baiano de Futebol 2009, realizada no Estádio de Pituaçu, em Salvador. Foto: Eduardo Martins | Agência A Tarde 26.4.2009
Torcedores do Bahia e do Vitória se abraçam no dia da primeira partida entre os dois tímes, válida pela final do Campeonato Baiano de Futebol 2009, realizada no Estádio de Pituaçu, em Salvador. Foto: Eduardo Martins | Agência A Tarde 26.4.2009

A VITÓRIA DA BAHIA

  

por WALTER QUEIROZ JR.

  

Todos nós que amamos o futebol estamos assistindo angustiados à progressão violenta dessa atual guerra de torcidas, envergonhando uma tradição de paz e cordialidade por que sempre primaram as nossas relações dentro e fora de campo. Do velho estádio da Graça ao hoje Pituaçu, passando por décadas de Fonte Nova, nossos torcedores têm convivido com saudável respeito mútuo sem abrir mão, é claro, da saudável gozação recíproca e inerente à cultura deste esporte.

Arreliar” o adversário, falando em bom baianês (alô Lariú), ou “escaldá-lo” no tom da galera mais jovem faz parte do cotidiano do chamado esporte bretão. Agora, transformar lúdica rivalidade em real hostilidade é lastimável retrocesso. A convivência cordial das diferenças, o respeito pela camisa do outro deveriam zelar, todo santo dia, pela saúde da nossa conduta esportiva e vale lembrar: Bahia e Vitória são irmão siameses e não vive um sem o outro.

A esta altura do campeonato, penso que é hora de agir e não se trata de cobrar uma simples falta: é bater pênalti! Autoridades, dirigentes, jogadores, torcedores e, particularmente, a imprensa têm o indeclinável dever de convocar toda a Bahia esportiva para refletir sobre as causas de tanta estupidez e procurar as soluções. Temos de dar o exemplo de lucidez e presteza no trato dessa questão sob pena de comprometer o futuro de importantes projetos desta cidade, a exemplo da Copa 2014.

Minimizar a insanidade desses comportamentos seria alimentar a prepotência, a omissão e a impunidade. Seria um gol contra. Contra, sobretudo, o nosso sonho de nos tornarmos uma metrópole esportiva sem os vícios de conduta que tanto têm nos penalizado. Gestões autocráticas que se perpetuam no poder, o rodízio alarmante de técnicos e jogadores que mudam de clube sem nenhum constrangimento, o excesso de jogos banalizando as partidas e o culto desmesurado a egos inflados, tudo isso vai minando as tradições do futebol-arte que nos tem guindado à admirável condição de reis do futebol.

Na condição de tricolor desde que ganhei o meu primeiro time de botão, cresci e vivi para ter a honra de ser autor dos hinos do Ypiranga, do Vitória e do Brasiliense, Associação Atlética da Bahia, entre outros. Por isso, hoje, posso afirmar que, acima das paixões, eu torço pela vitória da Bahia. Vitória, em todos os campos, de uma terra que tem incendiado o imaginário universal com sua arte, beleza e magia e tem ainda energia para tornar-se também uma referência de pacífico e bom futebol.

Rubro-negros, tricolores, azulinos, clubes de todas as cores, ergamos nossas bandeiras, entoemos nossos hinos e unidos afirmemos nosso amor ao futebol. Só assim nossos filhos poderão continuar vestindo a camisa de um time chamado Esperança Futebol Clube.

 

Walter Queiroz Jr.

Foto: Margarida Neide | Agência A Tarde

Foto: Margarida Neide | Agência A Tarde

 

 Advogado, poeta, compositor, membro da Confraria dos Saberes

 

 
 
 
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