GENTE DA BAHIA – MARIA BRANDÃO DOS REIS

Esta imagem de Maria Brandão dos Reis está no livro MULHERES NEGRAS DO BRASIL, de autoria de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, publicado em 2007 por Senac Editoras em parceria com a REDEH (Rede de Desenvolvimento Humano). É a foto nº 526, acompanhada das seguinte informações: "Grande liderança popular na Bahia, militante comunista na década de 1940. Reprodução feita a partir do Calendário Comemorativo dos Cem Anos da Abolição. Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo"

Esta imagem de Maria Brandão dos Reis está no livro MULHERES NEGRAS DO BRASIL, de autoria de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, publicado em 2007 por Senac Editoras em parceria com a REDEH (Rede de Desenvolvimento Humano). É a foto nº 526, acompanhada das seguinte informações: "Grande liderança popular na Bahia, militante comunista na década de 1940. Reprodução feita a partir do Calendário Comemorativo dos Cem Anos da Abolição. Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo"

NEGRA E COMUNISTA

por JAIME SODRÉ*

Estávamos no Santo Antônio Além do Carmo, sentados à Rua dos Perdões, nas escadarias do Convento, onde segundo contavam, o cardeal Da Silva agredira uma freira. Um bairro cheio de estórias e histórias. Os Perdões é a passagem do desfile de 2 de Julho, onde saudávamos os nossos heróis, em especial, “os cabocos”. Subindo regularmente, ia dona Romana, nossa velha baiana de acarajé, em direção à Quitandinha do Capim, onde se instalava, após arremessar pequenos acarajés e água, a título de saldar os caminhos e abrir a venda. Naquela mesma artéria, em direção contrária, desfilava garbosa, semelhante à dona Romana, a personagem que conseguia calar as nossas conversas, admirados da sua postura, história e estórias, era dona Maria Brandão.

Em nossos ouvidos vibrava o que se contava sobre ela: “Ela é negra e comunista” ou “Imagine! Negra e comunista.” Para nós, uma figura admirável, soava-nos como símbolo de coragem, tão ao gosto da juventude. Pouco sabíamos sobre ela, além do rosto redondo e a sua roupa leve, aos ventos da liberdade, a caminho do Corta Braço. O pouco que sei, contarei. Relatos como o de Carlinhos Marighela, recomendando-me para aliviar a minha curiosidade, buscar o Sr. Contreiras, esposo da ex-deputada Amabília, além do ex-deputado Fernando Santana.

Contarei o que encontrei em publicações escassas. Seguirei pesquisando, prometo-me. Recordo das palavras de um militante negro que dizia, evidentemente magoado, sobre as agressões insanas da tortura, onde o que mais ouvira de seus algozes era a frase: “Já viu negro se meter em política, e ainda comunista.”

Voltemos a Maria Brandão. Encontro-me nas páginas do livro Mulheres Negras no Brasil, monumental trabalho de Shuma Schumaher & Érico Vital Brazil, uma foto exibe D. Maria, mãos ao queixo, pensativa. Mineira, nascida a 22 de julho de 1900, em Rio das Contas, por isso este artigo soa como presente de aniversário. Maria Brandão dos Reis, segundo os autores, “foi um exemplo de mulher negra envolvida na política”. Impressionou-lhe a passagem da Coluna Prestes, avivando o amor pelo Partido Comunista Brasileiro.

Idealista, mudou-se para Salvador como destacada liderança. Abrira uma pensão na Baixa dos Sapateiros, (daí o seu deslocamento pela Rua dos Perdões) onde, além de alimentar e hospedar estudantes, caprichava na instrução política destes “filhos adotivos”, ampliando-os para as questões sociais. Piedosa, ajudava aos necessitados. Em 1947, entrara em ação concreta, quando os moradores do Corta Braço foram ameaçados de perderem as suas casas. Ela os ajudou, organizando-os em uma vigília e vibrante passeata de protesto. Como devotada da paz, engajara na campanha do partido em 1950, encarregando-se da fundação de diversos conselhos em vários municípios. Por sua atitude determinante e incansável, recebeu a indicação de “Campeã da Paz”.

O lado dramático desta história registra-se em um desapontamento imperdoável. Segundo os autores, a premiação pelo seu feito e sua convicção pacificadora, deveria ser realizada em Moscou, onde D. Maria Brandão receberia pessoalmente e merecidamente, o reconhecimento pelo seu idealismo, mas por decisão do partido, ela fora substituída por uma “jovem intelectual”. Esta, nem se quer recusara, colaborando com esta desconsideração a uma “senhora negra” de jovens ideias e comprovadas lutas. Mas este fato não passara impune, pois manifestará veementemente a sua revolta frente às lideranças comunistas, registrando para a história desta agremiação política um capitulo menos digno.

Veio o golpe militar de 1964, D. Maria mobiliza-se para escapar da prisão, refugiando-se. De volta à Bahia, em 1965, fora alcançada pela polícia e submetida a interrogatório sobre o seu envolvimento com as ideias comunistas. O inquérito não evoluiu, talvez por reconhecê-la com um verdadeiro agente da paz e, que apenas, por sua generosidade, queria um povo feliz, bem alimentado e instruído, conforme demonstram as suas ações naquela pensão, para isso escolhera a política. D. Maria Brandão dos Reis, encerrara a sua atividade em nosso mundo em 1965, aguardando o nosso reconhecimento com o seu nome, quem sabe, nomeando uma das nossas ruas ou na fachada de uma escola.

Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde 3.2.2009

Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde 3.2.2009

*Jaime Sodré

Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social

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