AVE BAHIA! – OIÁ-IANSÃ

 Iansã em escultura de Tati Moreno instalada no Dique do Tororó, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

Iansã em escultura de Tati Moreno instalada no Dique do Tororó, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

 

A TRANSGRESSORA PELA VIDA

 

 

por CLÉO MARTINS

 

Nem sempre a ação de transgredir, conceituada como “atravessar”, “deixar de cumprir”, “violar”, etc., constitui um ato ou gera um acontecimento reprovável, merecedor de castigo.

É o que nos demonstram os mitos de Oiá, a popular Iansã, a Senhora dos Ventos e Tempestades, Brisas e Tornados; a protetora das mulheres independentes e de todas as pessoas que tenham sede e fome de liberdade e justiça.

Em uma tradição oral, transmitida de gerações para gerações, nada mais óbvio do que a existência de mitos diferentes sobre o mesmo Orixá; alguns, até, conflitantes. Apesar das variações, no que diz respeito a Oiá, uma coisa é certa: é a transgressora pela Vida.

Orixá original de outras plagas africanas, estrangeira entre os iorubas que a adotaram, é de uma complexidade mais fácil de entender-se com o coração do que pelo simples raciocínio “dois e dois são quatro”. Saibam que esta aiabá, nome atribuído aos Orixás femininos (sinônimo de rainha), mostra-se para quem quer,quando bem deseja, tendo o dom de aparecer quando menos se espera.

Oiá, a mulher-búfalo, “a Vermelha” (como são os búfalos-fêmeas), com o condão de chafurdar na lama, pesando toneladas, transforma-se em borboleta. Também é popularmente conhecida por “a Voadora”. Pariu nove filhos, dentre os quais os egunguns, os espíritos-ancestrais, ela mesma um Egumgum-Oiá, quando quer.

Senhora das brisas que nos dão o frescor, também o é a dos furacões avassaladores e das tempestades.

É tão valente e incorruptível quando Ogum (não aceita mentiras e mentirosos, dissimulações, lorotas e bajuladores) e é a parte mais atuante na justiça ígnea de Xangô. Detesta iniquidades e tudo que negue o Amor.

Filha adotiva de Olu-Odé, o Alaketu – o qual, segundo uma corrente da mitologia, a denominou Oiá, a ligeira –, esposa de Ogum, o Orixá vanguardeiro e inventor; o primogênito dentre os Orixás Caçadores e, posteriormente, de Xangô, o Senhor do Fogo e do Poder em Exercício. Na verdade, foi ela quem deu o fogo ao marido, transformando-o no que é. Só que antes de entregar ao Rei a porção que o faria dominar o elemento sagrado, resolveu prová-la – desobedecendo às determinações conjugais… sem Oiá-Iansã, Xangô não produz nem uma faísca…

O Orixá Ossain é o senhor absoluto das ervas mágicas e mezinhas, ou pelo menos era, antes da transgressão de Oiá, que, provocando um vendaval, espalhou as folhas para todos os lados. Os demais Orixás recolheram as ervas que puderam, cada um passando a ter as suas.

Segundo outro mito, Obaluaê, o filho de Nanã criado por Iemanjá, grande Senhor da Terra, era tão feio, tão pavoroso, que se cobria com um capuz de palha, chamado “azê”. Muitos tinham medo de se aproximar daquela coisa, o que não aconteceu com Oiá. Os dois se tornaram amigos. Um dia, soprando sobre o “azê”, conseguiu erguê-lo. Assim, a curiosa Senhora dos Ventos mostrou o rosto belíssimo de Obaluaê, escondido pelas palhas. Moral da História: “somente os tolos julgam pela aparência”…

É difícil achar um filho, ou uma filha de Oiá, semelhante a outro… A popularidade desta Ayabá é enorme, o que é refletido em seus filhos e filhas.

Em geral, estas e estes têm os olhos rápidos, agitados e brilhantes. Mas nem todos descobriram que a estrada de Iansã é única: a espiritualidade. Há filhos e filhas de Oiá aos quais muito admiro, a exemplo de Mãe Aída Margarida Muniz, do Axé Opô Afonjá, Júlio Braga e a inesquecível Olga do Alaketu: sincera, elegante, generosa e transparente.

Relendo o conto O Plágio, de Monteiro Lobato, reunido na obra Cidades Mortas (Editora Brasiliense, SP, 1964, páginas 107 a 117) – supimpa –, pus-me a gargalhar na certeza de que o conhecido escritor paulista, grande brasileiro, tão destemido, apaixonado, irascível e polêmico, deva ter sido um filho dileto de Iansã. O texto, no estilo lobatiano inconfundível, versa sobre vaidade, falta de escrúpulos, “autotapeação”, soberba e mediocridade a beça… para o deleite dos leitores que o conheçam (deixando outros com água na boca – leiam-no!), transcrevo o finalzinho de O Plágio:

“Moralidade há nas fábulas. Na vida, muito pouca ou nenhuma”…

Claro que Lobato deveria estar dirigindo-se a algum tipo de pessoa; quiçá o conto fosse um recado enviado ou um protesto contra o engodo, o que deve ter lhe acarretado inimigos mortais e admiradores eternos, como eu.

     Cléo Martins 

Foto: Vilma Nascimento 7.7.2009

Foto: Vilma Nascimento 7.7.2009

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7 Respostas to “AVE BAHIA! – OIÁ-IANSÔ

  1. n@rinha Says:

    estou sempre buscando saber sobre esta grande e poderosa orixá, iansã, com sua sede de poder e justiça, duas vezes a recorri, pedidos emergencias, uma certa vez estava muito rancorosa, aflita, com um problema muito sério em casa, aí eu invoquei com um pedido num bilhete em papel, em menos de três horas recebi a resposta, o conflito havia terminado e hoje as pessoas que moravam comigo estão bem

  2. Mario Says:

    Salve Oyá!

    Parabéns, Cléo, pelo brilhante texto sobre Oyá! Já li várias matérias e textos sobre essa linda e poderosa Yabá, mas nesse seu texto mergulhei, parece que fui no fundo do significado de Oyá.
    Sou filho de Oyá e o interessante é que o seu texto me tocou de uma forma tão profunda e consegui enxergar Oyá dentro de mim.

    Parabéns! E Oyá sempre te proteja e dê luz para escrever mais e mais.

  3. christina Says:

    Parabéns pelo texto.

    Nunca escrevi nada em blogs etc… pois tudo o que lia não me tocava… o seu texto, a maneira… não sei o que passou mas… me passou confiança, em escrever…

    não entendo muito dos Orixás, mas ultimamente, não sei porque, quero saber a respeito de oxumapara(???), história, traços… Dizem que não é Oxum nem Iansã… os textos contam de IANSÃ ou de OXUM…
    Oxumapara existe mesmo?

    • jarycardoso Says:

      Vou tentar passar este seu comentário para a autora do artigo, Cléo Martins, que atualmente está morando longe da Bahia, lá no Rio Grande do Sul. Talvez a sua questão possa ser respondida pela jornalista baiana Cleidiana Ramos, cujo endereço é o seguinte: cramos@grupoatarde.com.br.

  4. christina saldanha Says:

    Gostaria muito de saber como posso adquirir duas imagens pequeninas de Oxumapará e Yemanjá do Sr Tati Moreno e uma ideia de custo. Envia para o Brasil todo?

  5. cleo martins Says:

    Querido Jary;
    Passei por acasíssimo no site sei lá por causa de que. Coisas de Oyá. …
    Beijos.

  6. denise silva Says:

    oya querê é dificil de cuidar, seus procedimentos ………..sou de jagun com oya

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