GUERREIRA DA INDEPENDÊNCIA

          MARIA FELIPA

 

Da Gameleira, Maria Felipa acompanhava como sentinela o movimento das embarcações no mar. Líder de mulheres guerreiras na Ilha de Itaparica, heroína da Guerra pela Independência do Brasil na Bahia, a história de Maria Felipa começa a ser resgatada. A ilustração acima foi produzida por Bruno Aziz para o caderno especial "A Festa da Bahia", encartado na edição do dia 2 de julho de 2009 do jornal A Tarde, de Salvador, e acompanha o texto abaixo da repórter Amélia Vieira

Da Gameleira, Maria Felipa acompanhava como sentinela o movimento das embarcações no mar. Líder de mulheres guerreiras na Ilha de Itaparica, heroína da Guerra pela Independência do Brasil na Bahia, a história de Maria Felipa começa a ser resgatada. A ilustração acima foi produzida por Bruno Aziz para o caderno "A Festa da Bahia", encartado na edição do dia 2 de julho de 2009 do jornal A Tarde, de Salvador, e acompanha o texto abaixo da repórter Amélia Vieira. A outra ilustração deste post foi feita especialmente para o Jeito Baiano por Cau Gomez

 

BRAVAS MULHERES NEGRAS

 

por AMÉLIA VIEIRA*

 

A história da Independência da Bahia está repleta de heróis. Mas, apesar da representação feminina no cortejo, através do ícone da cabocla, o reconhecimento da decisiva participação das mulheres nas lutas pela libertação ainda é subdimensionada, sendo lembradas apenas as figuras de Maria Quitéria e Joana Angélica e, recentemente resgatada da história, Maria Felipa. Centenas de heroínas anônimas, todavia, tiveram atuação estratégica na libertação da Bahia e do Brasil dos opressores portugueses.

As pessoas de classes populares não constavam da história social, permaneciam não identificadas – ressalta Consuelo Pondé, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Nos bastidores, conta, essas mulheres sem nome cozinhavam e costuravam as fardas dos homens que iam para as frentes de batalha.

Havia outras formas de contribuição, como lembra a professora Eny Kleyde Vasconcelos Farias, da Faculdade Olga Mettig, pesquisadora do Patrimônio Histórico Cultural e Natural e dedicada à interpretação do patrimônio com comunidades.

Eny Kleyde destaca o papel das ganhadeiras, escravas e libertas que vendiam alimentos para arrecadar dinheiro para compra da alforria dos maridos e filhos escravos. No ofício da mercância, elas caprichavam no visual e odor dos produtos comercializados, na opulência dos trajes, na harmonia dos cantos que entoavam para anunciar os quitutes.

As mulheres negras faziam tudo com beleza plástica –, considera a professora. “Salvador era um cenário de espetacularidade”, sintetiza.

E não foram só as mulheres “do povo” que tiveram uma participação mais ativa. As da elite também se engajaram. Um dos nomes conhecidos é o de Joaquina de Pompeu. Senhora rica da sociedade mineira, ela enviou recursos financeiros para financiar a guerra e gado para abastecer as tropas baianas.

Este foi um gesto de desprendimento. Só lembramos as que viraram mitos. Esquecemos as que foram menos heroínas, mas que foram peças-chave para a situação – observa a professora do curso de história da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Nancy Rita Sento Sé de Assis, pesquisadora da história da cultura política na Bahia no século XIX.

Ela destaca que as mulheres deste período não eram alheias à política. Nem podiam ser, pois os conflitos atingiam e desmantelavam suas famílias e muitas assumiam a chefia da casa.

A maioria atuou na retaguarda e abria mão de parte de sua riqueza para contribuir com a causa – analisa Nancy de Assis.

 

MARISQUEIRA, COMBATENTE E BELA

Entre as heroínas desconhecidas, que por mais de um século e meio sobreviveu apenas no imaginário popular, está Maria Felipa de Oliveira, descrita pelo historiador Ubaldo Osório (avô do escritor João Ubaldo Ribeiro) como uma mulher alta, bonita e valente. Possivelmente de ancestralidade sudanesa, alta e de forte compleição física, Maria Felipa era pobre e ganhava a vida como marisqueira e ganhadeira na Ilha de Itaparica.

Foi lendo a obra A Ilha de Itaparica (1979), de Ubaldo Osório, que a professora Eny Kleyde soube da existência da brava Maria Felipa e passou a se dedicar ao resgate da sua história, preservada na memória dos itaparicanos.

Fiquei impressionada e indignada. A história dela passou totalmente alheia porque era mulher, negra e pobre. Ela foi injustiçada. Se não fosse preta teria uma estátua – desabafa.

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A SAGA DE UMA ESPECIALISTA EM ESTRATÉGIA

A respeitabilidade do escritor Ubaldo Osorio, nascido cerca de 10 anos após a morte da escrava liberta, mas que deve ter ouvido sobre sua trajetória de vida pela mãe, sua contemporânea, levou a pesquisadora Eny Kleyde, a seguir para a localidade de Gameleira, em Itaparica, na tentativa de localizar pistas da existência de Maria Felipa.

Estrategista nata, era em Gameleira que a escrava se camuflava entre os oiteiros da Fazenda 27 e acompanhava como sentinela o movimento das embarcações no mar. À noite, ela partia de jangada para o Porto de Salvador, onde se informava dos últimos acontecimentos.

Mas se os gestos de bravura de Maria Felipa começaram a sair da zona nebulosa a partir de 2003, com os estudos da professora Eny Kleyde, para haver justiça é preciso enfatizar a participação decisiva das cerca de 40 anônimas mulheres que a acompanharam na sua mais ousada e crucial aventura.

Articulada, Maria Felipa sabia que a barca Constituição, formada por 42 embarcações, estava ancorada na Ilha de Itaparica e se preparava para uma batalha naval, no dia seguinte, em Salvador. Liderado por Maria Felipa, o grupo feminino atraiu os navegadores portugueses para um local ermo, os embriagou e induziu a tirar os casacos. Envolvidos e desnorteados pela bebida, cerca de 60 homens foram surpreendidos por uma surra de cansanção (planta que dá sensação de queimadura ao tocar na pele).

Esse foi o feito mais enaltecido da líder, que, segundo indícios, sabia ler, era culta, atravessava a Baía de Todos-os-Santos para buscar mantimentos e lutar capoeira com os homens e, ainda, atuava como enfermeira.

As pistas sobre sua real existência e coragem passam por relatos que se propagaram no tempo, como a vez em que enfrentou os herdeiros do Visconde do Rio Vermelho, que queriam levar uma imagem de Nossa Senhora de Itaparica para Salvador.

Mártires ou anônimas, todas as mulheres que participaram do conturbado movimento libertário baiano podem ter na cabocla a síntese da participação feminina na luta pela independência.

 

*Amélia Vieira, repórter de A Tarde

Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

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4 Respostas to “GUERREIRA DA INDEPENDÊNCIA”

  1. maisa paranhos Says:

    Muito elucidativo o artigo de Amélia Vieira. Quantos não serão nossos heróis e heroínas anônimos? Quanto da história por se desvendar e se recriar!

  2. Gaby! Says:

    Gostei muito! Mas será que você pode fazer uma página somente sobre Joana Angélica? rsrsrs!

  3. :: À QUEIMA ROUPA – Jornalismo com segurança :: » Marias, fardas e lutas Says:

    […] Maria Felipa e centenas de outras Marias não tão conhecidas assim, mas que, segundo a jornalista Amélia Vieira, simbolicamente, são lembradas no cortejo do 2 de julho, através do ícone da […]

  4. DEIse Says:

    Muito bom, isso me ajudou muito, pois eu pesquiso sobre Maria Felipa, gostaria de saber mais sobre ela, se possível me passa mais coisas sobre ela, eu agradeço desde já.

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