AVE BAHIA! – CLÉO MARTINS

 

 

Foto: Gildo Lima, Agência A Tarde, 1.7.2006

Foto: Gildo Lima | Agência A Tarde | 1.7.2006

FOGUEIRA DO REI E DA RAINHA

por Cléo Martins

“São João” finalmente chegou deu seu recado e se foi gente boa! Festa alegre dos que também celebram a vida a contemplar (às vezes pulando) muitas fogueiras, ao sabor dos licores.

Coisa boa, a fogueira: fogo sagrado para a alma e nossa terra revigorada de paixão.

A fogueira, trazida nas bagagens missionárias cristãs ibéricas, apresenta-se em diferentes tradições religiosas primordiais. Povos antigos acendiam-nas para o deus Sol, como marco de sacrifícios e oferendas. Eram feitas em especial nos solstícios de verão e inverno.

Orungam, Orixá da família de Xangô, a divindade iorubá do fogo, é o próprio sol.

Xangô é o senhor do fogo; esposo de Oiá-Iansã, que com ele divide o poder sobre este elemento. Sem Oiá-Iansã, Xangô não produz nem uma fagulhinha…

Terreiros tradicionais da Bahia fazem fogueiras na época do São João, em homenagem a Xangô.

As referidas são acesas nos dias vinte e três e vinte e oito de junho; vésperas de São João e São Pedro, a data que encerra o calendário junino, marcado por desejos de paz e justiça.

Conta velho mito que Xangô tem sua fogueira e doze dias de festas em virtude da presteza dos doze Obás: Aré, Abiodum, Cacanfô, Telá, Odofim, Xorum, Aressá, Onicoí, Olubom, Erim, Onãxocum, Arolu.

Mas nem sempre Xangô foi Obá, o Rei; o senhor da Justiça. Dizem que era muito, muito pobre; escravo cortador de capim do país Nupê, a terra de sua mãe Iamassê. Certa feita, morreu o soberano e a nação caiu no caos porque não tinha ninguém real para reinar. Os dirigentes decidiram tomar uma pessoa sem “sangue azul”. Escolheram Xangô por sua determinação e firmeza, contrariando a vontade de muita gente.

Por sua vez, Xangô procurou a melhor forma de fazer valer sua vontade.

Apesar da firmeza do monarca, as coisas não eram nada fáceis e os inimigos poderosos. Xangô precisava de encontrar uma maneira de firmar-se no poder. Era casado com Oiá, chamada de Iansã, a senhora dos ventos e tempestades, reconhecida pela fortaleza e argúcia.

Iansã teve a idéia de aconselhar o esposo a conseguir algo extraordinário que o fizesse admirado e temido. Determinada, viajou ao país dos Baribas ao encontro de algo formidável. Retornou vitoriosa, trazendo na boca um objeto que soltava fogo. Entregou-o ao marido, mantendo um pouco em seu poder.

Resultado. Ele botava fogo pela boca e ela também botava, tornando-se quase tão poderosa quanto o real esposo. O poder nos aproxima dos maus conselheiros, afasta a generosidade e causa cegueira e orgulho.

Xangô sentiu-se ameaçado por Oiá, que, por sua vez, tinha um temperamento terrível e coração de ouro.

Depois de uma de suas cóleras, Xangô resolveu expulsá-la, pois achava que ela diminuía seu prestígio perante os súditos, cansados do gênio terrível de Oiá. Iansã percebeu a intenção de seu rei.

Resolveu sair por livre e espontânea vontade, sem que Xangô, o ingrato de curta memória, nada fizesse para impedi-la. Para pirraçá-la, cada dia colocava uma dama belíssima ao seu lado, sem perceber que perdia o respeito de seu povo. Os Obás, os doze conselheiros de Xangô, não estavam gostando nada, nada daquilo. Ouviam os cochichos das pessoas: “Se Xangô está fazendo isso com Oiá, o que não há de fazer com a gente?”. E muitos deixaram o país à procura de terras menos injustas e turbulentas.

Oiá chorava, chorava, mas não procurava Xangô.

Xangô sofria, mas era orgulhoso demais para dar o braço a torcer. Os falsos amigos – inúmeros, que a cada dia ofereciam uma bela dama ao rei – aconselhavam-no a tocar a vida, esquecendo-se de Oiá, “mulherzinha ruidosa e presepeira; interessada no poder; péssima para o reino”. Os bons conselheiros, os Obás, reuniram-se e foram falar com Ossain, o poderoso mestre das folhas e mezinhas. Este os aconselhou a aconselharem Xangô a promover um encontro com Oiá. Xangô concordou. Oiá ficou feliz com a ideia. No último momento, a coragem fez Xangô fraquejar, aumentando o desespero de Oiá.

E o reino, sem ela, ia de mal a pior. Inebriado pelos maus conselheiros, o rei fazia uma atrocidade atrás da outra. Os Obás coçaram a cabeça. O que fazer com a obstinação do rei? Foram à procura de Ossain, novamente. Este disse-lhes que, para salvar o reino, trazendo as energias positivas de volta, era preciso uma fogueira. Mas para a fogueira ser feita, eram necessários os esforços de Xangô e Oiá juntos.

São João na cidade de Uauá, Bahia

São João na cidade de Uauá, Bahia | Foto: Divulgação

Na noite em que o fogo ia ser feito, Oiá chegou. E Xangô veio, também. Um não olhava o outro.

Começaram a fazer força, e nada do fogo.  Os Obás estavam admirados: “Como era possível?”.

Foram embora cabisbaixos, deixando Xangô e Oiá sem platéia.

Daí, Xangô olhou para Oiá e seus olhos enxergaram.

Oiá contemplou Xangô e seu coração ardeu. E o coração de Xangô ardeu também.

Juntos, fizeram a fogueira mais alta e bela do mundo, fogueira que duraria doze noites e doze dias.

Ao verem tão bela fogueira, os doze Obás voltaram ao local sagrado, pondo-se a dançar em redor do fogo, junto com Xangô e Oiá. Prometeram que, daquele dia em diante, todo ano haveria doze dias de festividades para o Rei e sua Rainha.  Assim, graças aos bons conselhos dos Obás, orientados por Ossain, o reino de Xangô fortaleceu-se sendo expurgadas a desmoralização e injustiça.

A partir de então, Xangô percebeu quem eram os amigos e inimigos, não agindo sem antes ouvir deus doze ministros, os Obás.

Xangô Kan, Oiá Kan.

Kabieci; eparrei!” 

Anúncios

Tags: , , , ,

5 Respostas to “AVE BAHIA! – CLÉO MARTINS”

  1. joelma santos da silva oliveira Says:

    gostaria de saber tudo sobre essa cidade, pois gostaria de ir morar aí.
    meu marido já está aí na pedreira {ZÉ CABELUDO}. JOELMA-Vila Velha-ES

    • jarycardoso Says:

      Navegue por este blogue, entre nas páginas mais antigas e você irá encontrar muitas informações sobre Salvador, principalmente as que dão conta de que a cidade está passando por uma fase muito ruim, talvez a pior de sua história…

  2. Luiz Says:

    Bom Dia!

    Quando lemos “Ao sabor de Oiá”… melhor terminei ontem e me senti órfão, gostei muito do que li depois das primeiras 80 páginas. Espero encontrar mais livros seus para ler. Ah! o artigo sobre Xangô e Iansã está maravilhoso.

  3. cleo martins Says:

    Caro Luis.
    Obrigada. Ao sabor de Oiá também me deu alegria. Há outros livros. Entre no site da Pallas editora, do Rio, e você verá. Grande beijo e continue navegando no “Jeito baiano”.
    Abração.
    Cléo Martins

  4. Luiz Says:

    Bom dia! Acabei de ler outro livro escrito por vc em parceria. Nossa, gostei muito, mas muito mesmo. Como estou conhecendo o candomblé, como disse meu pai de santo, dei mais um passo. É uma pena que tudo de bom do livro que eu poderia dizer Mãe Stella já disse. Portanto só me resta o lugar comum… Parabéns a vocês dois, realmente é como se eu estivesse sentado ouvindo as histórias… O livro foi “EUÁ, senhora das possiblidades”. Obrigado por essa leitura! Agora vou pra Mãe Naná e Iroko.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: