GINGA BAIANA

 

CAPOEIRA: MODA NO EXTERIOR E POUCO CASO NO PAÍS

Capoeiristas em ação na sede de associação, no Pelourinho | Foto: Vilma Nascimento

Capoeiristas em ação na sede da Associação Brasileira de Capoeira Angola (ABCA), no Pelourinho | Foto: Vilma Nascimento

 

 

por LUCIA CORREIA LIMA

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em solenidade recente em Salvador, com a presença do presidente do Senegal Abdoulaye Wade e do governador Jaques Wagner, no Dia Mundial da África, passou uma significativa parte de seu discurso se referindo à importância da capoeira, seus atores e o saldo positivo que a arte-luta nascida nos canaviais do Recôncavo da Bahia traz para a imagem da cultura do Brasil e, segundo ele, hoje praticada “em mais de 170 países”, não vimos no palco, nem na plateia de 1.500 lugares do Teatro Castro Alves, nenhum dos tradicionais mestres baianos da arte citada pelo presidente. Estariam ele e seus assessores com visão mais avançada do que a Fundação Palmares, o “braço afro” do Ministério da Cultura e organizadora do evento?

Quantos mestres baianos e do Brasil têm em seus passaportes dezenas de carimbos para levar a capoeira ao mundo, mas, ao retornar, vivem em condições precárias? Uma contradição com a dignidade e o conforto com que são recebidos nas universidades internacionais, onde lideram grupos e academias com estrutura dificilmente encontradas aqui. Respondendo a esta pergunta e corrigindo este erro cruel como a escravidão, de onde surge a capoeira, a Associação Brasileira de Capoeira Angola (ABCA) – fundada em 1987 por mestres como João Pequeno de Pastinha, Paulo dos Anjos, Valdemar da Paixão, Boca Rica, Ferreirinha de Santo Amaro, Nô, René, Curió, Papo Amarelo, Calazans – se organiza para lutar por uma lei que existe desde 2002, já em vigor apenas em Pernambuco, Alagoas e Piauí: a Lei do Patrimônio Vivo. Organiza-se para dar uma contribuição no sentido de que equívocos como este cometido no evento de lançamento do Festival Mundial das Artes Negras (Fesman) não mais aconteçam. Para que as palavras do presidente Lula não estejam à frente das ações locais e nacionais.

Em 1966, quando foi realizado o primeiro festival no Senegal, que agora nos homenageia, o Itamaraty convidou Olga de Alaketu, Camafeu de Oxóssi e Vicente Ferreira Pastinha com seus alunos, entre eles Mestre João Grande, homenageado na Casa Branca, em Washington, e hoje, a meu pedido, o único convidado oficial representando a capoeira no Fesman 2009.

A ABCA, com apoio da Prefeitura de São Francisco do Conde – um portal da cultura e das tradições do Recôncavo baiano – e de deputados e vereadores comprometidos com a cultura popular, abre os caminhos para tirar o nefasto atraso em relação ao reconhecimento dos mestres dos saberes, com seus violeiros, repentistas, mestres de saveiros, da culinária, das danças, dos bumbas-meu-boi, mestres dos artesanatos, da capoeira. A capoeira substantivamente reconhecida pelo presidente Lula na Bahia.

Prepara-se o fórum que deverá redigir o texto da lei que será entregue ao governador, em solenidade com convidados que cultuam a beleza das manifestações populares.

Lucia Correia Lima | Jornalista, fotógrafa, roteirista, capoeirista, diretora de Projetos e Comunicação da ABCA. E-mail: luciacorreialima@hotmail.com

(Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde)

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