UM CRIME CONTRA A CIDADE DA BAHIA

infraero02

por RENATO PINHEIRO

Em março passado, na semana do aniversário de Salvador, uma grande e precisa maquete da cidade foi exposta no andar térreo do Salvador Shopping. Trabalho de ótima qualidade, a maquete permite uma visão pormenorizada do território da cidade, da sua malha urbana e dos seus poucos espaços ambientalmente preservados – a rigor, apenas áreas do parque de Pituaçu e da Paralela e o parque das dunas entre Itapuã e Praia do Flamengo.

Na maquete da cidade, dá para perceber a grande dimensão do Parque das Dunas do Abaeté. É um área imensa. Quem chega a Salvador de avião tem a mesma sensação. Aquela área, a despeito de todas as agressões que tem sofrido nos últimos anos, ainda é um vasto, belo e único sistema de dunas, com espécies endêmicas de flora e fauna.

Todo esse espaço da cidade encontra-se ameaçado por um projeto da Infraero que constitui um verdadeiro crime ambiental. A projetada ampliação do aeroporto de Salvador, com a construção de uma terceira pista, vai destruir em torno de 80 por cento do maior sistema de dunas e restingas em áreas urbanas do país. Ou seja, vai suprimir da paisagem e do patrimônio ambiental da cidade grande parte da Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Abaeté, com 1.800 hectares, 15 lagoas, aves migratórias e algumas espécies de orquídeas raras, que só ocorrem ali.

Esse ecossistema é oficialmente preservado há quase 22 anos, desde a edição do Decreto Estadual 351, de 22 de setembro de 1987, que criava a APA Lagoas e Dunas do Abaeté. Em dezembro do ano passado, o prefeito João Henrique assinou um decreto municipal de utilidade pública criando naquela área o Parque Ambiental das Dunas. Quer dizer, temos ali um espaço mais do que preservado, protegido por decretos de duas esferas de governo. Em poucos lugares do mundo se cogitaria implantar uma pista de pouso para grandes jatos numa área como essa. Parece que, infelizmente, a Infraero acha que a Bahia é um desses poucos lugares.

Tive oportunidade de ver o projeto. É um crime contra a cidade. Não vai ficar pedra sobre pedra, ou melhor, duna sobre duna. E não se argumente que é impossível deter o progresso, que esse é o preço do desenvolvimento. Trata-se de um raciocínio antigo, do tempo da ditadura militar – quando o então ministro do Planejamento, o economista Reis Velloso, durante a Conferência Mundial do Meio Ambiente de 1972, em Estocolmo, produziu a antológica sentença: “Poluição é progresso”.

É verdade que os tempos eram outros, o país estava em pleno governo Médici e vivia o clímax do chamado “milagre brasileiro”. Mas, foi por posturas como essa – segundo a qual o desenvolvimento tudo justifica – que a situação ambiental no mundo chegou ao ponto em que hoje está. Uma duna abatida aqui, uma floresta derrubada ali, um empreendimento imobiliário cá, uma pista de aeroporto acolá…, por aí foi sendo feito o estrago. E, pelo visto, lamentavelmente, continua a ser.

Além de agredir o meio ambiente, o projeto da Infraero agride o bom senso. Vai transformar em programa de índio qualquer ida a algumas das melhores praias de Salvador, como Stella Maris, Aleluia e Flamengo. Aquilo ali vai virar cabeceira de pista de decolagem de grandes jatos, com todos os encantos visuais e auditivos que essa condição proporciona. Vai, também, inviabilizar completamente três bairros: Alamedas da Praia, Stella Maris e Praia do Flamengo.

Se fosse para estabelecer uma comparação, seria como, no Rio de Janeiro, pretender construir uma pista de pouso na floresta da Tijuca. Mas, vá a Infraero aparecer com uma proposta dessa no Rio para ver a reação do povo de lá.

E não se diga que essa insanidade decorre da falta de opção de outros locais para construir um novo aeroporto, que seria a medida mais razoável. A área onde hoje se encontra o aeroporto Dois de Julho não comporta novas ampliações. Que se faça em Camaçari, para onde o prefeito Luiz Caetano anda doido para levar o novo aeroporto. E tem área para isso. Que se faça em Mata de São João, próximo dos grandes resorts do litoral norte. Lá também tem área. O que não pode, o que é inaceitável, inconcebível, é simplesmente propor a destruição das dunas do Abaeté, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Salvador tem que reagir a isso.

(Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador)

Renato Pinheiro

FOTO RENATO


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6 Respostas to “UM CRIME CONTRA A CIDADE DA BAHIA”

  1. barreto Says:

    pois que a esse manifesto
    juntem-se outras letras, vozes, pensamentos, desejos, ações
    em nome da vida
    em defesa do que nos resta de Natureza
    num ato de amor à nossa cidade-mãe

  2. mga Says:

    Que absurdo!!!!!!!!! “triste Bahia…”.

  3. kuase Says:

    E continua o progresso das estatais (petrobras). e se for calcular matematicamente vai ser = ao povo sem lazer, sem passado, o qual a raiz do problema vai dar em (cofres públicos sem aplicação correta do dinheiro e sem área de lazer q se for igualar ao atual estado) perda de um parque, o qual várias famílias (ANTIGAMENTE) tinham lazer…. hj depredado e sem seguranca para NADA…
    Não sou contra o progresso, mas q seja ambíguo a qualquer classe… não se tem alegria (como tivemos), sem dar o devido valor ao que temos (residentes), isso um dia acaba, pois se cansa, a alegria do povo é sua terra, é o prazer de mostrar o que temos, e isso hj em Salvador é pouco, e quem conhece sabe q está regredindo, basta ver nas ruas na minha nova/antiga cidade, onde tínhamos alegria com o pouco, hj querem muito (classe), mas mesmo assim somos quem somos e em quem votamos, mas um dia, mesmo q distante, nem só a Bahia vai mudar, Lula taí, outros melhores virão, mas, com certeza, com a mídia a favor (DIFÍCIL) mas tudo cai, mascaras caem, um dia, mudaremos, e esse passado/presente vai ser a nossa história do real q podemos passar dia-após-dia (português/acho antigo) mas que está presente em todos nossos momentos.

    Abc (velho abraços) a todos(as)

  4. kuase Says:

    Só um complemento para o Renato, Revolução é para quem se apóia, não para quem se lucra, quem lucra até apóia mas para o lucro…

    O povo atual baiano (sou baiano nascido, criado aqui, e atravessei e muito esses morros qdo criança para chegar a essas praias)…

    A depredação não começa daí, irmão… Hj abrange várias outras áreas, a exemplo das alamedas. Se vc ver, não existem mais os rios em q eu atravessava na década de 80 para me refrescar das caminhadas até Stella…

    Mas o “povão” quer festa, até o dia em q não encontrar mais lugar para ele nelas…

    Vamos para frente, sei q vc é um observador, e sei q não pode passar pela moderação deste site.

    Hj estou querendo ver o q vão fazer com a população ao entorno disso, pois já se passou uma “via expressa” cortando meu passado, e quero e confio em Deus q o futuro tenha alguma coisa para meus filhos se divertirem sem problemas de segurança (DIFÍCIL) mas (DIFÍCIL AINDA) estou mostrando outros lugares, não aqui, pois, se vc for notar ACABOU…

    Não vou te incomodar, em páginas e páginas, do que vc já sabe (Leitores) mas…..

    FICA AQUI… a minha INDIGNAÇÃO

    POVO COM PASSADO CRIADO não é POVO COM PASSADO e sim um povo MOLDADO…
    abc (abraços do passado!!!)

  5. Murilo Callegari Says:

    Esse assunto volta a ser necessário, uma vez que o processo de desocupação para a ampliação do aeroporto já começou, alguns moradores já foram indenizados e entregaram o imóvel à infraero
    no petromar e em lauro de freitas. alguns condomínios já estão completamente vazios, sinto que a “Poluição é retrocesso”
    está acontecendo, lembrando meus caros que o poder emana do povo,
    com previsibilidade constitucional temos ainda as ferramentas para impedir tal barbárie

  6. Icaro Says:

    Notícia muito ruim. Moro na Praia do Flamengo e fiquei preocupado. Sabe como ou onde posso ver o projeto de ampliação que foi aprovado? Obrigado.

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