MENSAGEM AO AMIGO CARYBÉ

Monumento à Cidade da Bahia, por Mário Cravo Jr

Monumento à Cidade da Bahia, por Mário Cravo Jr - Foto: Fernando Vivas / Agência A Tarde

No ontem hoje amanhã eterno

MÁRIO CRAVO JR

Cobrimo-nos com o pó das estradas e com a lama entranhada nos poros a arrecadar ex-votos, esculturas vivas dos sertões, juntos, irmão Caryba, enchemos os corações com o mistério do sol escaldante da infindável caatinga.

Vimos, amigo, a mensagem nos olhos baços do cego andarilho aos pés de Monte Santo. Do Conselheiro Cruz em Canudos,

Antonio Conselheiro, escultura de Mário Cravo Jr, MAM-BA

Antonio Conselheiro, escultura de Mário Cravo Jr, MAM-BA - Foto: Fernando Vivas / Agência A Tarde

rolamos por vezes até as catadupas de Paulo Afonso inda virgem na poderosa magnificência de suas quedas.

Viste, Carybé, na procura do cerne de nosso caboclo, as barrentas águas do São Francisco, e nas carrancas estáticas namoramos o cântico que o homem dedica ao rio.

Cortamos os canaviais de Pernambuco e raspamos por miríades de capelinhas quietas e adormecidas… Sergipe, Alagoas, Piauí, Pernambuco e Bahia.

Os santos povoam a trajetória do homem na sua procura.

Percebo, parceiro velho, sua presença inconfundível no meio dos capoeiristas, nas deferências aos Pais e Mães-de-Santo dos terreiros da Bahia; assim estás, como poucos, nas águas de Janaína e por dentro das palhas do velho Omolu.

Trouxeste, amigo Carybé, o sangue de homem e nos servistes em taça feita de folha de fruta-pão. No cântico de amor e vida, praticas, colega dos colegas, oblação de Oxalá na Ribeira que viu nascer e que em noites de lua cheia oferece véus de espuma à praia noiva, e deixou em tua alma, irmão, o sinal negro do Abaeté, por isto, desenhas poemas.

Morre Bugalho, crucificado em berimbau, enquanto Onça Preta salta numa perna só, qual saci redivivo, herói da liberdade.

Todas as imagens vêm a mim, quando com palavras tento situar o que não tem tempo e que já existia antes e depois de nós.

Ao despontar brancos e risonhos cabelos sobre os sucos acentuados que marcam anos de paixão colhemos frutos sazonados, maduros, a marcarem a compreensão dos homens; nossos amigos e irmãos são agradáveis, a aragem é benfazeja, mesmo fosse ela gerada por lágrimas e noites insones.

Na terra, na madeira, na água, no sal, na noite, no sol e nos homens estás, Carybé, como homem inseparável desta Cidade de Salvador, para agora e sempre.

Mário Cravo Jr - Foto: Elói Corrêa/ Ag. A Tarde, em 5.2.2007

Mário Cravo Jr - Foto: Elói Corrêa/ Ag. A Tarde

(Texto escrito pelo artista plástico/escultor baiano Mário Cravo e lido pelo artista no seminário ‘Encontro com Carybé’ realizado no MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, em 22 de maio de 2009, evento paralelo à exposição em comemoração aos 70 anos da chegada primeira de Carybé à Bahia. Participaram do seminário, além de Mário Cravo, Dona Nancy Bernabó – mulher do argentino/baiano, Ramiro e Solange – filhos, Dr. Gilberto Sá – presidente da Fundação Pierre Verger, a escritora Myriam Fraga – diretora da Fundação Casa de Jorge Amado e o jornalista/escritor José de Jesus Barreto)

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A CHAVE

Para abrir as Sete Portas da Bahia

Largo do PelourinhoTexto de CARYBÉ

A Bahia não é uma cidade de contrastes. Não é não. Quem pensa assim está enganado.

Tudo aqui se interpenetra, se funde, se disfarça e volta à tona sob os aspectos mais diversos, sendo duas ou mais coisas ao mesmo tempo, tendo outro significado, outra roupa, até outra cara.

Me explico?

Quero dizer que aquela ruma de São Jorge que Alfredo Simões, o santeiro, esculpe e encarna é São Jorge mas ao mesmo tempo é Oxóssi; um era capadócio, o outro das terras de Ijebu Ode, cada qual andou sua distância e aqui na Bahia, ou Roma Negra, ou Cidade do Salvador, ou simplesmente Salvador, se irmanaram, viraram carne e unha e ali estão, em cores fulgurantes na prateleira do Simões, ou em forma de arco e flecha de ferro na barraca do Camafeu, no Mercado.Carybé - Junto à Rampa do Mercado

Quando chegam reis à Bahia, ou presidentes ou personalidades mundiais, é de praxe oferecer-lhes um almoço em palácio. Aí o rei come caruru e caruru é amalá, comida de Xangô, come acarajé que é de Iansã, come pipocas que são de Omolu e assim o rei faz um almoço litúrgico conversando de política ou do grande prêmio de Long-Champs.

De contrastes seria se fosse uma cidade com coisas que uma nada tem a ver com a outra, mas aqui tudo tem a ver. Tudo está alinhavado, tudo surge de seu bojo mágico com grossas raízes, profundas raízes que se alimentam de rezas, ladainhas, orikis, alujás, farofas de azeite o ano todo, bacalhau na semana-santa, trêmula luz de velas nos altares e água fresca nas quartinhas dos pejis. Tudo misturado.

Tudo misturado: gente, coisas, costumes, pensares. Vindos de longe ou sendo daqui, tudo misturado. O político consulta Ifá e faz promessa ao Senhor do Bomfim para ser eleito; o doente entra na sala de operações ao mesmo tempo em que se faz Ebó para que o cirurgião corte o mal com precisão absoluta.

Além da terra onde um dia descansaremos, há duas coisas: o preto e o branco. Havia.

A loura de biquíni tem uma estrutura de ombros formidável, genuinamente sudanesa. A vendedora de mingau, escura como a noite, tem um holandês nos olhos. Tudo misturado.

A Bahia, cidade gorda, farta de cacau e fumo, está debruçada sobre o mar, fingindo não saber de nada, tomando a fresca, vendo a lua se escamando na maré de enchente, vendo a descaração na Ladeira da Misericórdia, vendo os saveiros serenos.

Se fosse outra noite, se fosse uma noite de trovoada, por uma boca tiraria ladainhas a Santa Bárbara e pela outra cantaria para Iansã, bonita como o quê, enfrentando coriscos com seu alfanje de ouro. Dançando ao som dos pipocos, porque ela não tem medo de relâmpagos nem de Eguns do outro mundo. Dança levando na cabeça o fogo que roubou a Xangô enquanto a chuva derrete o barro vermelho que vira sangue vale abaixo até tingir o começo do mar.

Verdes e doces vales da Bahia. Divisores das colinas coroadas de conventos, de sobrados multicores, de mosteiros e fortes, e enlouquecidas de torres sonoras de sinos, que cantam aleluia ou reboam soturnos toques de finados. Reboam também os couros de bode dos atabaques chamando deuses africanos. Oxum para as coisas do amor, Omolu para as doenças ou Oxalá em sua infinita pureza, e, como eu estava dizendo, Oxalá é o Senhor do Bomfim. Outras colinas mais novas dão onde morar aos pobres, são colinas franciscanas que dão tudo o que é seu, chão para sustentar pequenas casas agrupadas e alegres como colegiais, mangueiras, jaqueiras e tamarindeiros imensos para que os garotos façam um pouco de cultura física e se alimentem, bananeiras e as tetas douradas dos mamoeiros para menino pequeno e velha sem dente. Dão sua carne, seu barro, para fazer as paredes de sopapo, manacás e jasmineiros para perfumar a noite.

De tardinha os fifós vão abrindo quadros familiares na escurama. Modestos jantares servidos, ampliações de retratos de casamento, máquinas de coser e gente, muita gente fazendo coisas, representando a vida nos pequenos teatros das janelas e portas iluminadas.

Uma densa sombra engoliu o verde das bananeiras, as jaqueiras, os coqueiros, o povo. Só ternos brancos e vestidos mal-assombrados sobem e descem as ladeiras como se não tivessem ninguém por dentro ou passam cachorros silenciosos como que voando na noite. E os jasmineiros aromando.

Carybé - Festa do BonfimDetrás do samba fanhoso do alto-falante do armazém, palpita o som gordo dos atabaques. Exu recebe oferendas, canta-se o padê. Ao mesmo tempo sobem aos céus os cânticos dos Filhos de Jeová tentando salvar o mundo. Dona Frutuosa Ferreira de Aragão acende as lamparinas à santa de sua devoção, a Senhora Sant’Anna, que ao mesmo tempo é Nanã Burucu, pelo menos para Lindaura, a cozinheira, que salva dizendo: ‘Saluba!’

O Manacá aromando, misturado com perfume de namorada.

Há muita confusão aqui, Senhor! Os sinos badalam nas torres cor de osso, São Lázaro come pipocas, há anjos de madeira com asas de arara e Oxês escuros empapados de azeite. Incenso, mirra, ouro e munguzá; ouro nas farofas e nas enlouquecidas naves barrocas, mirra e incenso não faltam, estão no ar transparente, nas brisas que vêm de tão longe, no aromado passar de uma crioula.

Carybé - Largo de Santana, Rio Vermelho

(A Chave, texto do primeiro capítulo, abertura do livro As Sete Portas da Bahia: textos e desenhos de Carybé, prefácio de Jorge Amado, 4ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro, ano de 1976)

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2 Respostas to “MENSAGEM AO AMIGO CARYBÉ”

  1. mga Says:

    Salve, Salve, mestre Carybé.

  2. Oba! « …cyrano disse, Says:

    […] salve, mestre Carybé. -19.815731 […]

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