CRÔNICA DE TUZÉ DE ABREU

Lugar de Ausência 30x21cm - Foto de Valéria Simões em exposição no Museu de Arte Moderna da Bahia

Lugar de Ausência 30x21cm - Foto de Valéria Simões em exposição no Museu de Arte Moderna da Bahia

AINDA (SEMPRE) POESIA

Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho escreveram um grande samba: ”Que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais…”. Felizmente são muitos os motivos para tal afirmação. Aqui estão três bons.

Cronologicamente o primeiro foi o violoncelista pernambucano Antonio Menezes tocando o primeiro concerto para violoncelo e orquestra de Shostakovich no Teatro Castro Alves, com a orquestra do Estado da Bahia, que estava muito bem, com destaque para a trompista Joseli Saldanha.

O segundo foi o balé do TCA apresentando o espetáculo Isadora, que homenageia grandes nomes da dança de várias escolas e épocas, mais as bailarinas de Degas. Um espetáculo quase pop, quase história em quadrinhos, quase caricatural, rico em emoção e diversão. A passagem do Bolero de Ravel para uma gravação de Michael Jackson é muito bacana.

O terceiro é (porque ainda está existindo) a exposição de fotos de Valéria Simões no Museu de Arte Moderna, com o título de Lugar de Ausência. Um título quase paradoxal, que exprime muito bem o fato de a exposição ser poesia em suporte fotográfico. Uma das fotos da exposição me lembrou Salinas da Margarida, onde passei alguns verões inesquecíveis na minha infância.

Há algum tempo venho tentando escrever sobre este que é um dos meus mais caros “Lugares de Ausência”. Particularmente lembro o dia (a madrugada) em que tínhamos que voltar para Salvador, no fim do verão. A família, grande, e as muitas bagagens, como em uma procissão da casa até a ponte, ou à praia, a depender do transporte, lancha ou saveiro. Sucedia acordar antes do sol, no dia da partida. Saudade, cheiro de maresia, início dos cantos dos pássaros, com destaque para a rolinha “fogo-pagô”, caminhada pelo chão arenoso, o céu passando por um azul-escuro profundo no seu trajeto do preto ao celeste. Numa dessas idas para a volta, lembrei de uma gravação do Trio Irakitan que tocava no rádio, Adeus Maria Fulô. Foi uma das primeiras vezes que me lembro de ter produzido lágrimas por uma razão tão difícil de explicar então.

Poucos anos mais tarde, na adolescência, tive uma experiência quase cômica. No domingo 10 de junho de 1962 a seleção brasileira jogou na Copa do Mundo, no Chile. Não havia ainda transmissão pela TV. Alguns alunos do Colégio Antonio Vieira, eu também, por castigo, tivemos que ir lá para estudar diante do diretor. Rádios foram proibidos. Quando sentamos na sala de aula, ouvimos alto e claro pelo serviço de alto-falante da Baixa do Garcia: ”Passaremos a transmitir o jogo da seleção na Copa do Mundo”. O castigo foi perdoado, voltamos para casa.

Em hebraico, uma mesma palavra significa “lição” e “medida”.

Tuzé de Abreu

Foto: Rejane Carneiro / Agência A Tarde

Foto: Rejane Carneiro Agência A Tarde

Anúncios

Tags: , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: